Entre o púlpito e a urna: o Brasil é uma teocracia?
Não é. Mas, a uma semana do primeiro turno, a fronteira entre fé e campanha nunca esteve tão porosa, e é ela, mais que o risco de um "governo de pastores", que merece atenção.
Por Marcio Nolasco
Analista de Políticas Públicas
28 de setembro de 2026
Todas eleições brasileiras recentes produzem a mesma pergunta: até onde vai a influência das igrejas sobre a política?
Em 2026, com uma disputa presidencial que as pesquisas mais recentes descrevem como um empate técnico entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a pergunta ganhou um adjetivo mais pesado: teocracia. A palavra circula em documentários, artigos e redes sociais. Vale a pena testá-la contra os fatos.

O que é, afinal, uma teocracia
O termo vem do grego theos (deus) e kratos (poder): governo em nome de Deus.
A literatura distingue graus. Na teocracia plena, como no Irã, a lei religiosa é a lei do Estado e o clero detém a palavra final. Na hierocracia, conceito de Max Weber, o poder religioso subordina o político. No cesaropapismo, ocorre o inverso. No Estado confessional, há religião oficial, mas o governo é civil. E há o Estado laico, que separa as esferas, embora conviva, em graus variados, com a fé dos seus cidadãos.
A distinção importa porque o debate público costuma tratar "religiosos na política" e "teocracia" como sinônimos. Não são. Um país pode ter milhões de fiéis engajados e dezenas de parlamentares pastores sem que a lei religiosa se sobreponha à lei civil.
O arcabouço brasileiro
O Brasil é laico desde a Constituição de 1891. A Carta de 1988 veda à União, aos estados e aos municípios estabelecer cultos ou igrejas, garante a liberdade de crença e concede imunidade tributária aos templos. Há, porém, resquícios de proximidade: feriados de origem católica, a invocação de Deus no preâmbulo e o acordo com a Santa Sé, assinado no governo Lula, que reforçou a possibilidade de ensino religioso. Uma análise acadêmica da USP concluiu que existe separação real entre Estado e igrejas no país, apesar da presença de líderes religiosos na política.

O peso demográfico e político
Os números explicam por que as igrejas são disputadas. Segundo o Censo 2022, os católicos passaram de 65,1% para 56,7% da população com 10 anos ou mais entre 2010 e 2022, enquanto os evangélicos subiram de 21,6% para 26,9%, ou 47,4 milhões de pessoas. No Congresso, a Frente Parlamentar Evangélica reúne 209 deputados federais e 26 senadores.
Mas o tamanho da Frente engana quem a imagina como um bloco monolítico. Ela é pluripartidária, e um estudo do Observatório do Legislativo Brasileiro mostrou que pautas tipicamente associadas a ela, como gênero, raça e liberdade religiosa, mobilizam menos de 20% dos seus integrantes. O suposto "voto evangélico" também tem limites: nas eleições municipais de 2024, várias candidaturas apoiadas por líderes poderosos não conseguiram se eleger em São Paulo e no Rio.
A campanha de 2026 e os dois campos
Flávio Bolsonaro. É no eleitorado evangélico que a candidatura do PL encontra sua base mais sólida. Na pesquisa Quaest de agosto, ele tinha 43% das intenções de voto entre evangélicos, contra 24% de Lula. Michelle Bolsonaro articula uma rede que inclui Sara Nossa Terra, Assembleia de Deus Madureira, Comunidade das Nações e Universal. Em setembro, Flávio participou de um culto na Igreja Mundial do Poder de Deus, ao lado de Tarcísio de Freitas. Em maio, um culto na Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio, com cerca de 6 mil fiéis, levou o Movimento Brasil Laico a acionar a Justiça Eleitoral: segundo a representação, o pastor Silas Malafaia convocou políticos ao altar e declarou apoio à pré-candidatura de Flávio. Trata-se de uma denúncia, ainda sem decisão de mérito.

Lula. O presidente enfrenta rejeição elevada nesse segmento: em levantamento PoderData de agosto, 62% dos evangélicos desaprovavam seu governo. Em 16 de setembro, ele recebeu 20 pastores e pastoras no Planalto e afirmou que não vai a igrejas, nem católicas nem evangélicas, fazer campanha, por respeito à fé das pessoas. O gesto é coerente, mas convém não idealizá-lo: o PT também prepara ações com lideranças religiosas e uma plenária do grupo "Evangélicos com Lula". A disputa pelo voto religioso é bipartidária, ainda que pratique métodos distintos.
A Igreja Católica. Longe de ser um bloco, a Igreja abriga correntes conservadoras e progressistas. Em junho, a CNBB divulgou uma mensagem lembrando que a Igreja não indica candidatos nem partidos e pedindo que o eleitor olhe a trajetória de quem pede seu voto. Em 23 de setembro, o presidente da entidade, cardeal Jaime Spengler, criticou o uso da religião como autopromoção e a transformação de igrejas em palanque. A orientação é não citar nomes. O catolicismo, aliás, tem histórico próprio de atuação política: a CNBB e bispos como Dom Hélder Câmara e Dom Evaristo Arns foram vozes importantes na defesa de perseguidos pela ditadura. A diferença é que hoje a Igreja Católica disputa espaço, e não protagonismo, nas periferias, onde as igrejas pentecostais ganharam terreno.
Nenhum campo está imune a ruídos. Circulou na reta final uma notícia falsa associando Flávio a um suposto plano de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, desmentida por ele. E Lula provocou irritação em setores católicos ao dizer que a Igreja continuará com dificuldades enquanto mantiver o celibato e não ordenar mulheres.
O que a Justiça Eleitoral já disse
Em 18 de maio, o TSE manteve a cassação da prefeita de Votorantim (SP), do vice e de um vereador, por abuso de poder político e econômico. Um culto da Igreja do Evangelho Quadrangular foi usado para promover candidaturas, e a prefeitura concedeu benefício econômico à entidade religiosa. Os ministros entenderam que a ausência de pedido explícito de voto não elimina o caráter eleitoral do evento. Há uma sutileza técnica: o TSE segue afirmando que não existe um ilícito autônomo chamado "abuso de poder religioso". O que existe é a possibilidade de punir, como abuso de poder político ou econômico, atos praticados por meio da igreja ou de seus líderes. Analistas esperam, como efeito, mais cautela nas campanhas e mais fiscalização de cultos e transmissões religiosas.
Duas leituras, um diagnóstico
Há quem veja na aproximação entre parte do bolsonarismo e o neopentecostalismo um projeto de nacionalismo cristão, inspirado na chamada Teologia do Domínio, segundo a qual as leis deveriam refletir as leis de Deus. Para esses críticos, a Frente Parlamentar, as redes de pastores e o discurso da guerra espiritual formam um projeto de poder. Do outro lado, há quem lembre a diversidade interna do mundo evangélico, o caráter pluripartidário da Frente, os resultados irregulares de 2024 e o fato de que instituições como o TSE e o Supremo continuam a impor limites. Nessa leitura, o que existe é influência religiosa legítima, própria de qualquer democracia com uma sociedade devota.
Minha avaliação é que as duas leituras capturam parte do quadro, mas nenhuma sustenta, hoje, o rótulo de teocracia. Não há lei religiosa sobrepondo-se à lei civil, nem clero detendo o poder de Estado, nem projeto institucional em curso para isso. O que existe é algo menos espetacular e mais corrosivo: a erosão da laicidade na prática.
O que observar daqui para a frente
Para quem acompanha políticas públicas, o risco concreto não está no sermão, e sim em quatro práticas que independem de credo ou de campo político:
• O púlpito como palanque: quando o culto vira comício, a liberdade religiosa é usada para fins que a lei eleitoral proíbe.
• O dinheiro público como moeda: convênios, locações, isenções e favores a entidades religiosas em ano eleitoral, como no caso de Votorantim.
• A autoridade religiosa contra o controle: líderes que mobilizam a fé de seus seguidores contra tribunais, órgãos de fiscalização e a imprensa.
• A desinformação com verniz sagrado: boatos sobre símbolos religiosos, difundidos para manipular sentimentos, e não para debater ideias.
Convém lembrar, por fim, que fé e política não são incompatíveis. Milhões de brasileiros de todas as crenças têm o direito, e muitas vezes o dever moral, de levar seus valores ao debate público. O que a Constituição exige é que nenhuma religião fale em nome do Estado, e que o Estado não fale em nome de nenhuma religião. É essa regra, simples e frágil, que o eleitor, os candidatos, os pastores, os bispos e a Justiça Eleitoral têm diante de si nos próximos dias.

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