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Entre a Palavra e o algoritmo

há 4 horas
6 min de leitura

Christina Faggion Vinholo, teóloga.

Especialista em AT e NT.



Quanto mais leio e vejo conteúdos chamados “cristãos” nas redes sociais, mais percebo a necessidade de manter o coração desperto e a mente firmada nas Escrituras.



Não escrevo estas palavras para atacar pessoas, ministérios ou denominações. Também não pretendo assumir o lugar de juiz das intenções de ninguém. Escrevo porque amo a Igreja de Cristo e porque creio que amor pela Igreja não pode ser separado do amor pela verdade.


Estamos vivendo um tempo em que nunca tivemos tanto acesso a conteúdos cristãos — e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão necessário aprender a discerni-los.


Há mensagens bonitas, emocionantes, motivadoras. Há frases que parecem profundas, vídeos que nos arrepiam, palavras que prometem explicar aquilo que estamos vivendo. Fala-se de propósito, destino, novas estações, mudanças de frequência, decretos, ativações, desbloqueios, sinais, manifestações, prosperidade, experiências espirituais e de um suposto “novo de Deus”.


Mas precisamos fazer uma pergunta simples e indispensável:


Onde está isso nas Escrituras?


Não basta mencionar Deus para que uma mensagem venha de Deus. Não basta citar Jesus para que uma doutrina seja cristocêntrica. Não basta colocar um versículo no final de uma postagem para transformar uma ideia humana em verdade bíblica.


A serpente, no Éden, não começou oferecendo a Eva um ateísmo declarado. Começou distorcendo a Palavra de Deus:


“Foi assim que Deus disse?” (Gn 3.1).


A estratégia continua perigosamente eficaz. O erro mais difícil de perceber nem sempre é aquele que nega completamente a verdade. Muitas vezes é aquele que conserva palavras cristãs, linguagem cristã e aparência de espiritualidade, mas altera sutilmente o significado daquilo que Deus revelou.


Por isso Paulo advertiu:


“…para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina…” (Ef 4.14).


Todo vento de doutrina.


A expressão continua atual.


Há sempre alguma novidade prometendo revelar aquilo que, supostamente, a Igreja ainda não percebeu. Alguma chave espiritual escondida. Algum método para alcançar determinado resultado. Alguma experiência apresentada como indispensável. Alguma revelação particular que começa a ocupar o espaço que pertence à Palavra revelada.


Mas a fé cristã não repousa sobre novidades espirituais. Ela repousa sobre Cristo.


E Cristo nos é apresentado nas Escrituras.


A Reforma recuperou uma verdade preciosa: Sola Scriptura. Somente a Escritura é a autoridade infalível e normativa para a fé e para a vida da Igreja. Isso não significa que não ouvimos sermões, não lemos livros ou não aprendemos com outros cristãos. Significa que nenhuma dessas vozes possui autoridade própria sobre a consciência do povo de Deus.


Todas precisam se curvar à Palavra.


Inclusive a minha.


Inclusive a do pregador que admiramos.


Inclusive a do autor que vende milhões de livros.


Inclusive a do influenciador cristão com milhões de seguidores.


Inclusive aquela mensagem que nos emocionou profundamente.


Porque emoção não autentica verdade.


Popularidade não autentica verdade.


Experiência pessoal não autentica verdade.


Resultados não autenticam verdade.


A Palavra de Deus é quem julga todas essas coisas.


É por isso que os crentes de Bereia continuam sendo um exemplo tão necessário para nós. Quando Paulo e Silas chegaram ali, Lucas registra que eles receberam a Palavra “com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17.11).


Observe algo extraordinário: eles examinaram até aquilo que Paulo pregava.


Se a pregação apostólica foi examinada pelas Escrituras, por que imaginaríamos que qualquer pregador, pastor, escritor ou influenciador dos nossos dias deveria estar acima desse exame?


A maturidade cristã não diz: “Eu gosto desse pregador, portanto deve estar certo.”


Ela pergunta: “O que ele está dizendo permanece de pé diante da Palavra de Deus?”


E aqui precisamos de humildade, porque existe também outro perigo: transformar discernimento em arrogância.


Discernir não é sair pelas redes sociais procurando hereges. Não é sentir prazer em apontar erros. Não é construir uma identidade baseada em dizer quem está errado.


Discernimento verdadeiro começa em nós.


“Senhor, examina também o meu coração. Corrige também a minha teologia. Mostra-me onde minhas preferências, tradições, emoções e desejos estão falando mais alto do que a tua Palavra.”


Porque todos nós podemos ser enganados.


É exatamente por isso que precisamos tanto das Escrituras.


Precisamos voltar à Bíblia não apenas para procurar versículos que confirmem aquilo em que já decidimos acreditar. Precisamos nos colocar debaixo dela. Permitir que ela confronte nossas ideias, corrija nossas convicções, desmonte nossos ídolos e reorganize nossos afetos.


A Palavra não existe para concordar conosco.


Nós é que precisamos ser conformados a ela.


E talvez uma das formas mais perigosas de manipulação espiritual dos nossos dias seja transformar Deus em instrumento para a realização do homem.


Deus passa a existir para realizar meus sonhos, abrir minhas portas, aumentar minha prosperidade, confirmar minhas escolhas, elevar minha autoestima e conduzir-me à versão de vida que eu determinei como ideal.


Mas o Evangelho não começa conosco.


Começa com Deus.


O centro da história da redenção não é a minha realização pessoal. É a glória de Deus manifestada em Cristo, que salva pecadores pela graça, mediante a fé.


O Evangelho não promete uma vida permanentemente confortável. Cristo chamou seus discípulos a tomarem a cruz e segui-lo (Lc 9.23). Paulo aprendeu que a graça de Deus lhe bastava mesmo quando o espinho não era retirado (2Co 12.9). Homens e mulheres fiéis atravessaram sofrimento sem que isso significasse ausência de Deus.


Por isso precisamos ter cuidado com toda mensagem que transforma sofrimento em falta de fé, prosperidade em prova automática de aprovação divina, sentimentos em voz de Deus ou desejos pessoais em profecias.


Precisamos também ter cuidado quando alguém usa medo, culpa ou promessas espirituais para controlar consciências.


Cristo não entregou sua Igreja a manipuladores de almas.


Ele é o Senhor da Igreja.


Pastores são servos. Pregadores são servos. Teólogos são servos. Líderes são servos.


Somente Cristo é o Cabeça.


E talvez seja justamente aqui que precisamos recuperar o santo temor de Deus.


Temor para não colocar na boca de Deus aquilo que Deus não disse.


Temor para não chamar de revelação aquilo que nasceu da nossa imaginação.


Temor para não torcer um texto bíblico a fim de fazê-lo dizer aquilo que queremos.


Temor para não usar a vulnerabilidade de pessoas feridas para construir influência.


Temor para dizer, quando necessário: “Eu não sei.”


Porque ensinar a Palavra de Deus é uma responsabilidade santa.


Tiago advertiu: “Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo” (Tg 3.1).


Isso deveria fazer qualquer pessoa que ensina em nome de Cristo — inclusive eu — tremer diante do Senhor.


Por isso, antes de compartilhar, pergunte.


Antes de acreditar, examine.


Antes de dizer “Deus falou comigo”, volte à Palavra.


Antes de aceitar uma nova doutrina, pergunte se ela realmente nasce do texto bíblico ou se o texto foi apenas colocado sobre uma ideia previamente construída.


Não precisamos correr atrás de todo “novo”.


As misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã, sim. Deus continua agindo soberanamente em seu povo, conduzindo, consolando, santificando, abrindo e fechando caminhos segundo sua vontade. Mas Deus não se contradiz.


O Espírito Santo jamais nos conduzirá contra a Palavra que ele mesmo inspirou.


Jesus orou ao Pai:


“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17.17).


É disso que precisamos.


Menos fascínio pela novidade.


Menos dependência de experiências.


Menos celebridades espirituais.


Menos frases de efeito.


Menos mensagens construídas para agradar aos nossos desejos.


E mais Bíblia.


Mais Cristo.


Mais Evangelho.


Mais temor de Deus.


Mais humildade.


Mais discernimento.


Mais crentes de Bereia.


Que possamos receber tudo aquilo que ouvimos — inclusive aquilo que eu escrevo — com a Bíblia aberta.


E que tenhamos coragem suficiente para rejeitar aquilo que contradiz as Escrituras, ainda que seja popular; humildade suficiente para corrigir nossas próprias convicções quando a Palavra nos confrontar; e maturidade suficiente para fazer tudo isso sem ódio, arrogância ou espírito de superioridade.


Porque defender a verdade sem amor nos torna duros.


Mas falar de amor sacrificando a verdade deixa de ser amor cristão.


A Igreja não precisa escolher entre os dois.


“…seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.” (Ef 4.15).


Esse é o caminho.


Nossa segurança não está em conhecer todas as novidades espirituais que aparecem.


Nossa segurança está em conhecer cada vez mais profundamente aquele que não muda:


“Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre.” (Hb 13.8)


Voltemos às Escrituras.


Voltemos ao Evangelho.


Voltemos a Cristo.


E que o Senhor nos dê discernimento para reconhecer sua verdade, humildade para sermos corrigidos por ela e coragem para permanecermos nela, mesmo quando os ventos soprarem em outra direção.


Senhor, guarda a tua Igreja. Guarda-nos do erro e também da soberba. Dá-nos fome pela tua Palavra, amor pela verdade e um coração profundamente rendido a Cristo. Que não sejamos levados por todo vento de doutrina, mas permaneçamos firmes naquele que é a Verdade. Em nome de Jesus, amém.


Instagram: @chrisvinholo

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