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Em plena era digital, a hipótese da manipulação algorítmica.

há 3 horas
4 min de leitura

A avaliação das eleições brasileiras em primeiro turno abre um amplo leque de variáveis que ainda vão desafiar analistas para entender o sentimento dos brasileiros que foram às urnas. Todavia, parece evidente que a forma de definição do voto ganhou outros atalhos por via digital, por isso nos propomos à análise da migração dos canais de decisão para este caminho.



É evidente que o perfil médio do eleitor comum, aponta para um indivíduo saturado do ambiente e dos atores políticos, sendo flagrante sua rejeição e até afastamento das disputas eleitorais e talvez isto explique o esvaziamento do palanque eletrônico, o tempo destinado às propagandas eleitoral no rádio e TV, cujo efeito residual está, atualmente, muito mais focado nas inserções, que trombam com o eleitor em momentos diversos do que o programa eleitoral, onde a comodidade do controle remoto e proliferação dos streamings e outras opções reduziu drasticamente a audiência.


Todavia, o Brasil tem quase 150 milhões de contas do Instagram e mais de 130 milhões no tiktok, para se limitar às redes mais populares, que, atrações principais do celular, estão nas mãos e a um toque para o cidadão comum. São estes ambientes que fornecem os trends topics que estimulam as interações entre as pessoas, jovens em especial, ou, usando a redação política, definem a pauta diária do debate público.


A conjunção destes fatores, também associando a força do digital ao cansaço com as lideranças tradicionais, estabeleceu novas diretrizes para a disputa do voto, como consequência maior da explosão de votos de nomes desconhecidos fora de seus nichos, resultando em votações elevadíssimas para aqueles que souberam estabelecer relações harmoniosas com os algoritmos que lhes deram asas e votos em 2026, principalmente nas eleições proporcionais.


A tradução deste fenômeno é, todavia, ainda muito complexo. É preciso entender que não há uma relação direta entre número de seguidores e votos, nada linear porque a base aponta apenas para a capacidade de distribuição, sem relação direta com resultado, inclusive porque oscila em cada case individualizado. A verificação da distribuição uniforme, em quantidade, de candidatos de direita (55%) e de esquerda (45%) entre a centena que contempla mais interações, contrasta com a aparente maior taxa de retorno dos candidatos de direita, como Nicolas Ferreirra (Federal MG) e Lucas Pavanato (federal SP), ambos com mais de 3 milhões de votos, exigindo uma reflexão sobre a hipotética relação entre pautas e algoritmo.


Lógico que fatores mais objetivos continuam tendo muita relevância. Postagens polêmicas, debates antagônicos e eleição de bandeira popular e inimigo definido tendem a potencializar a força dos mensageiros, da mesma maneira que o marketing tradicional sempre orientou seus atores políticos, inclusive com a ocupação inteligente de nichos promissores, com a leitura direta da tendência das pessoas aprovarem pautas que combinam com suas crenças.


Sem dúvidas, a eleição proporcional de 4 de outubro oferece uma observação que faltava às projeções anteriores: votos para deputado podem ser cotejados com campanhas e presença digital. A pergunta, entretanto, não é simplesmente se políticos populares nas redes venceram. É quanto da votação teria ocorrido sem aquela exposição, e os resultados disponíveis não isolam esse efeito. Em algum momento à frente, teremos dados mais consistentes que permitam mensurar o peso das redes, permitindo inclusive perceber a real dimensão do fenômeno, porque, no primeiro momento, salta aos olhos as candidaturas vencedoras, muito mais visíveis que os derrotados e sem parâmetro, por enquanto, para estabelecer as razões e as porcentagens destes êxitos.


Um olhar sobre o histórico de várias eleições importantes espalhadas pelo planeta aponta para o sempre presente receio de interferência externa, como de resto, sobre nossa eleição pairou a águia americana. Ouso levantar a hipótese que os mecanismos anteriores de interferência, apoio militar, financeiro ou de inteligência, são, atualmente, mais arriscados que a forma sutil de se aliar aos capitães das Big Techs, com um instrumento invisível e muito eficiente; os algoritmos das redes sociais.


Mesmo alguma experiência profissional e uma rápida passagem acadêmica pela área de comunicação, não me habilitam a me expressar com autoridade, todavia, minha cultura mínima da teoria das comunicações me ensinou que a mente de cada um de nós está sempre ávida a consumir conteúdos que combinem com nossas crenças e as consome com volúpia, consolidando posições e as fortalecendo com novos argumentos, ainda que limitados em veracidade, podem ser absorvidos pelo velho método da repetição .... se me acompanham o raciocínio, podem avaliar o potencial dos algoritmos das redes, se submetidos à diretrizes unilaterais, possuem amplo poder de interferir no resultado eleitoral, ainda que de forma residual.


Em valores, foram mais de 167 milhões investidos pelos partidos políticos em impulsionamento nas plataformas digitais, uma soma considerável, mas será que algum de nós tem elementos para parametrizar a taxa de retorno ou o impacto de cada real investido? Ou seria apenas com


Se sabemos que a lógica central dos algoritmos é priorizar o engajamento genuíno e a retenção da atenção que indica a prioridade para conteúdos autênticos e relevantes para produzir mais interações e atenção do usuário, seria absurdo imaginar que os algoritmos das redes sociais, baseados em inteligência artificial e machine learning que filtram, classificam e recomendam mensagens para quantidades variáveis de usuários, não podem ser manipulados a favor de interesses ideológicos?


É só uma hipótese, talvez mais um capítulo das teorias das conspirações, mas acho razoável que especialistas se debrucem sobre o tema pelo evidente potencial destes mecanismos afetarem os processos democráticos de qualquer país.

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