Desinteresse como armadilha
Em uma das últimas pesquisas Quaest para presidência da república antes do primeiro turno teve um dado que me chamou muito a atenção, pois trata-se do nível de interesse na eleição que as pessoas que responderam a pesquisa afirmaram. Os números são, no mínimo, preocupantes, pois mais de 30% demonstram nenhum interesse nas eleições e, no caso de jovens entre 16 e 25 anos este número subiu para pouco mais de 40%. O que o desinteresse tem a ver com a eleição de fato e, especialmente, com os candidatos a serem escolhidos? O desinteresse pode se manifestar na abstenção dos votos, mas também, pode resultar na escolha de candidatos que se portam como antissistema, o que, de fato, vira uma grande armadilha.

O desinteresse pela política não é algo novo, pois sempre existiu uma parcela da população que simplesmente não tem preocupação com quem nos governa e como somos governados e, portanto, as eleições, de forma geral, não mobilizam as pessoas que fazem parte desse grupo. Isso pode ser verificado no alto índice de não comparecimento às urnas no último dia 04/10, em que em torno de 30 milhões de eleitores se abstiveram de votar. O não comparecimento não se explica em sua totalidade pelo desinteresse, pois no cômputo geral dos eleitores estão aqueles que não são obrigados a votar pela idade ou por serem analfabetos ou, ainda, porque estavam impossibilitados de comparecer aos locais de votação. De qualquer forma, creio que não é exagero afirmar que milhões de pessoas não votaram por desinteresse mesmo.
O que pode causar o desinteresse tão alto, como foi levantado na pesquisa citada, especialmente entre os mais jovens? As pessoas não conseguem sentir que suas vidas são impactadas pelas atuações, boas ou más, dos políticos e nem pelas políticas públicas que são realizadas pelos governantes, seja em nível municipal, estadual ou nacional. Quando se tem o sentimento de que a vida caminha de forma totalmente independente de quem está nos governos, seja no poder executivo, legislativo ou judiciário, não interessa, de fato, quem vai estar nessas esferas de governo depois das eleições, por isso boa parte das abstenções e dos votos brancos e nulos. Quanto a este tipo de desinteresse não creio que se possa fazer algo de concreto para restabelecer o interesse; o que se pode fazer é tentar dialogar com tais pessoas e procurar mostrar que a vida de todos nós acaba por ser, de forma mais ou menos intensa, afetada pelos nossos governos. O valor do salário mínimo, o tempo para aposentadoria, a regulamentação dos direitos trabalhistas, a autorização e regulamentação dos serviços como Uber, IFood etc, as políticas públicas relativas à saúde e à educação, são exemplos de coisas que afetam nossa vida cotidianamente e que, por si só, deveriam despertar o interesse pela eleição de quem serão os responsáveis por essas coisas que nos afetam.
No entanto, o que mais me preocupa é o desinteresse produzido intencionalmente para afastar as pessoas do que realmente interessa. Há algum tempo apareceram pessoas, e isso em vários países do mundo, se dizendo antissistema, e passaram a denunciar o que, do ponto de vista interessado delas, seria o político tradicional, aquele que sendo ou de esquerda ou de direita, se alimentava do sistema e não queria romper com ele. O que de fato ocorreu, e ainda ocorre, é que justamente essas pessoas, que hoje pertencem em sua grande maioria aos partidos de extrema direita, querem fazer parte do sistema, querem ganhar com o que o sistema pode oferecer de vantagem pessoal. Por isso que o desinteresse provocado pelo discurso antissistema é uma armadilha, pois, perversamente, utiliza de um certo bom senso que o eleitor tem de não querer ser conivente com o sistema e acaba induzindo o seu voto nesse tipo de candidato. Não tenho números para comprovar o que afirmo aqui, mas tenho a impressão de que muitos votos que foram dados em candidatos do PL e do Novo, por exemplo, o foram porque muitos eleitores consideraram que eles seriam contra o sistema. Lego e perigoso engano, pois aqueles que se dizem contra o sistema podem ser os que mais irão se locupletar com ele.
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