Desidentidades
- Célio Juvenal Costa

- há 2 horas
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Há um movimento na sociedade de pessoas que acreditam que não vivem suas verdadeiras identidades, ou que há um conflito entre o que elas creem que são e a sua situação atual. De certa forma essa sensação não deixa de ser corriqueira em nossas vidas, pois em algum momento, ou em vários momentos, podemos ter o incômodo de achar que estamos vivendo uma vida que não é nossa. No entanto, o que quero discutir hoje vai além de sentimentos individuais, mas de comunidades que se formam de pessoas que creem que há uma desidentificação dos seus corpos com o que realmente eles são.

Há, basicamente, quatro tipos de movimentos desidentificatórios que são locais, mas que se unem em comunidades inclusive internacionais. Em síntese temos: os “Therians”, pessoas que tem uma profunda identificação com animais, que acreditam que são animais no corpo humano, e algumas até modificam o corpo para se parecerem com os animais que creem que são; os “Plantkins”, pessoas que se identificam espiritualmente e psicologicamente com plantas; os “Exilionistas”, pessoas que, nascidas em um determinado país, acreditam que estão exiladas de sua verdadeira pátria em um corpo e em uma família que não são seus, e alguns até falam com sotaque dos países de onde creem que são; os “Starseeds”, pessoas que creem que são seres de outros planetas e que vivem na Terra para alguma missão ou para conhecer bem a vida aqui para relatar depois para seus superiores extraterrestres.
Para além de simplesmente julgar essas pessoas como insanas, o que me chama a atenção, em algumas entrevistas que assisti, é a convicção e a naturalidade com que falam sobre o assunto, e não encaram sua identidade como algo problemático ou patológico. Deixo possíveis investigações sociológicas e psicanalíticas mais acuradas para os especialistas. O que quero abordar é a sociedade hoje que produz tais comportamentos individuais. Me parece que as exigências, cada vez mais aceleradas, que a sociedade do consumo nos coloca hoje em dia, provoca reações diversas a ela. Já se sabe, por estatísticas e diversos meios, que um número cada vez maior de trabalhadores se afasta por causa do burnout; segundo a OMS, mais de um bilhão de pessoas no mundo sofrem de algum tipo de transtorno mental, sendo a depressão e a ansiedade os mais frequentes.
Uma sociedade extremamente competitiva, que estabelece padrões altos de realização pessoal e profissional, que criou mecanismos de comunicação e cobranças ultra rápidos e eficientes, que criou a ilusão da meritocracia, que criou uma imensa variedade de mercadorias sofisticadas e de acesso a pouquíssimas pessoas, esta sociedade também cria os seus desajustados. Tais desajustes se manifestam em doenças e transtornos emocionais, em enfrentamentos, e, também, em comportamentos que repercutem uma recusa à identificação padrão de corpos e emoções. Todos os movimentos citados acima têm em comum um estranhamento do corpo, das emoções e da alma; a partir do estranhamento, criam-se novas identidades a partir do que toca a sensibilidade dos indivíduos. Animais, plantas, extraterrestres, países, me parecem ser expressões ou até, em último caso, metáforas, de uma negação do que está aí. Para além de comportamentos radicais e até preconceituosos dessas pessoas, a identificação delas é, no fundo, uma desidentificação com os padrões sociais atuais.
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