"Debate" da Band termina sem vencedor claro e com mais ataques do que propostas
Analistas se dividem, a Quaest vê Flávio “ligeiramente superior”, as redes ficam em disputa e o efeito no voto ainda é incerto a seis dias da eleição
Por Marcio Nolasco
Portal Bisbilhoteiro • Segunda-feira, 19 de outubro de 2026
O primeiro confronto direto entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, realizado no domingo (18), nos estúdios da Band, em São Paulo, deixou mais dúvidas do que certezas. Analistas, institutos de pesquisa e redes sociais divergem sobre quem se saiu melhor, mas há um ponto de convergência: foi um debate duro, de nível baixo e com poucas propostas concretas.

O cenário e o formato
O encontro durou duas horas, das 20h às 22h, e foi dividido em blocos que combinavam confronto direto, com tempo livre para respostas e réplicas, e perguntas de jornalistas do Grupo Bandeirantes e do pool de veículos formado por TV Gazeta, TV Cultura, Jovem Pan e O Estado de S. Paulo.
A disputa chegou ao debate apertada. No primeiro turno, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Na semana passada, o Datafolha mostrou Flávio com 47% e Lula com 45% no segundo turno, e a Quaest registrou 46% a 44%, ambos empates técnicos. O clima de suspense incluiu até uma sinuca de bico: Flávio chegou a dizer que não iria ao debate, mas recuou depois que Lula confirmou presença.
Um debate de acusações
O tom foi de enfrentamento pessoal. Segundo a cobertura, Flávio levou ao palco o caso envolvendo a lobista Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e cobrou explicações do presidente, que respondeu que o assunto deve ser tratado pela Polícia Federal. Lula, por sua vez, tentou associar o adversário às suspeitas envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e criticou a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
A Exame destacou uma tática de Flávio: ficar atrás de Lula, dentro do enquadramento das câmeras, fazendo caretas e gestos de deboche enquanto o presidente falava. O recurso irritou Lula e sua equipe, que reclamou à organização, mas, na avaliação da análise, acabou rendendo memes e sendo exagerado pelo senador. A mesma análise observa que Lula começou defendendo um debate civilizado, entrou no jogo do adversário e só recuperou a compostura nos blocos seguintes.

O que dizem os analistas
A leitura dos especialistas está dividida, com ligeira tendência a favor de Flávio:
• Cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil não chegaram a consenso. Parte avaliou que Flávio dominou a pauta, ao focar em segurança e nas denúncias envolvendo o filho de Lula; Yuri Sanches, da AtlasIntel, apontou mais clareza nas falas do senador e um desempenho repetitivo de Lula. Outros acharam que o presidente se portou melhor, mesmo sem criar um fato novo.
• Colunistas de O Globo deram a Flávio nota média 2,3, numa escala de 1 a 5, contra 2,2 para Lula, uma diferença mínima.
• A pesquisa qualitativa da Quaest, feita durante o debate com 30 grupos de eleitores, concluiu que Flávio foi “ligeiramente superior”: visto como mais seguro e direto, sobretudo em segurança pública. Lula foi melhor em saúde, mas parte dos participantes achou suas respostas confusas e carregadas de números. O instituto não viu virada de percepção.
• Comentaristas da Jovem Pan deram a vitória a Flávio. Vale lembrar que o canal tem linha editorial mais próxima da direita.
Já a imprensa internacional, segundo o resumo do DOL, destacou a predominância de acusações e provocações sobre propostas. O La Nación notou que o debate gerou muitos trechos aproveitáveis para as redes, mas nenhum erro decisivo capaz de mudar claramente o rumo da eleição.
A guerra nas redes
Nas redes, o debate virou matéria-prima de memes e cortes. A hashtag #OBrasilAcabou entrou entre os assuntos mais comentados do X depois de uma frase de Lula nas considerações finais, e apoiadores do presidente exploraram uma declaração de Flávio sobre não ter nada contra mulheres por ser casado.
Um levantamento da Palver, publicado pela Folha de S.Paulo, mostrou que, entre as opiniões sobre o desempenho nos grupos de WhatsApp monitorados, 62% apontaram Lula como melhor e 31%, Flávio. A própria nota metodológica ressalva que o dado mede manifestações em grupos e não é pesquisa eleitoral. Também houve mobilização organizada: o Poder360 relatou que o deputado André Janones orientou seguidores a impulsionar hashtags e buscas negativas sobre Flávio após o debate.
Antes do confronto, um estudo da empresa Bites indicava que Lula havia perdido parte da vantagem nas redes: nas 24 horas anteriores, foram 10,1 milhões de interações para Lula e 9,5 milhões para Flávio. Sobre audiência, o site GPS Brasília citou dados preliminares de pico acima de 5,3 milhões de conexões simultâneas no YouTube da Band Jornalismo. Como encontrei apenas uma fonte para esse número, ele deve ser lido com cautela.
Mexeu no voto?
Esse é o ponto mais incerto. Os cientistas políticos ouvidos pela BBC avaliam que o debate terá pouco impacto na definição do voto e pode até reforçar a abstenção e os votos brancos ou nulos. A pesquisa qualitativa interna do PT, divulgada pelo Metrópoles, vai na mesma linha: entre os indecisos, Flávio foi visto como agressivo e desrespeitoso e Lula como nervoso e com poucas propostas, e poucos disseram ter decidido o voto após o confronto.
A medição quantitativa vem a seguir. O Datafolha divulga na quinta-feira (22) a primeira pesquisa feita inteiramente depois do debate, com 2.520 entrevistados. Na sexta (23), há novo debate, na TV Globo, e o segundo turno acontece em 25 de outubro.
O que fica
Se havia expectativa de que a Band entregasse um confronto de ideias, ela não se cumpriu. O saldo é um debate que rendeu frases de efeito, memes e leituras opostas, mas que, pelos indícios disponíveis, não produziu um vencedor nítido nem uma virada. Para o eleitor que ainda decide, o risco apontado por analistas é justamente esse: as campanhas disputarem engajamento entre convencidos e deixarem em segundo plano quem precisa de informação para escolher.
Nota: pesquisas qualitativas têm amostras pequenas e não substituem pesquisas eleitorais; dados de WhatsApp e hashtags refletem o público engajado, que tende a já ter lado. Os números de pesquisa e audiência citados são os divulgados até a manhã de 19/10/2026.

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