Daltonismo afetivo
Dias desses ouvi em algum podcast, dos vários que ouço enquanto me exercito na academia, alguém falando da pessoa que sofre de uma espécie de daltonismo afetivo ou sentimental, ou seja, a pessoa que não lê corretamente os sinais que chegam a ela e, como consequência, pode fazer más escolhas em sua vida, especialmente em termos afetivos e sentimentais. A pessoa daltônica, sabemos, troca as cores ou é incapaz de diferenciá-las, especialmente o verde e o vermelho. Por isso que pessoas daltônicas até pouco tempo atrás não poderiam dirigir, pois poderiam confundir as cores do semáforo e causar acidentes. Se tomarmos as cores vermelha e verde como tradicionais sinais de parar e avançar, podemos fazer uma analogia interessante com uma espécie de daltonismo sentimental ou afetivo.

Muito se divulga, ultimamente, acerca das “etapas” em que se desenvolve um relacionamento abusivo que pode terminar de forma trágica, em feminicídio. As primeiras etapas são marcadas por algum tipo de violência por parte do homem e, depois, um gesto de arrependimento que pode, inclusive, ser por meio de entrega de flores. Tal gesto, na dinâmica, sempre complexa e não-linear, dos relacionamentos, é identificado como de carinho, de amor e, como consequência, de pedido de perdão pelo ato violento praticado. O perdão acontece e, não demora muito, a violência irrompe novamente de forma mais forte. O sinal vermelho do gesto de arrependimento é interpretado como verde; ao invés de parar, se avança; ao invés de frear, se acelera.
Reconhecer os verdadeiros sinais, as verdadeiras cores, sempre é difícil quando se está muito envolvido ou quando se está num grau elevado de carência ou, ainda, quando a autoestima está baixa. Gestos lidos como de carinho, de atenção, de respeito, podem muito bem ser a porta de entrada de dominação, de agressão, de violência. Talvez um exemplo bem significativo do daltonismo sentimental seja o ciúme. Tal afeto, em geral, é interpretado como sinônimo de amor, e estou falando aqui do ciúme tido como normal, e não do ciúme excessivo. Qualquer forma de demonstração de ciúme, na minha opinião, é um gesto que não deveria ser lido como de amor, ou seja, da cor verde, mas sim, como uma manifestação de domínio, de tentativa de subjugação, ou seja, deveria ser lido como sendo da cor vermelha, ou, no mínimo, da cor amarela, de atenção.
O ciúme é um sentimento ligado à posse de algo que expressa a própria pessoa que possui ou deseja possuir. O ciúme é o medo que a outra pessoa não valorize o amor que se diz ter. O ciúme é uma espécie de antecipação de se sentir desvalorizado. O ciúme é o desespero de ser rejeitado. Quando as manifestações ciumentas são excessivas é sempre mais fácil ligar o sinal de alerta, de ver a cor vermelha piscando a indicar que pisemos no freio imediatamente. O problema é quando o ciúme é brando, até delicado, quando é travestido de preocupação, pois daí ele é visto da cor verde e, assim, nós continuamos acelerando a nossa relação, acelerando até que talvez seja tarde para evitar um acidente de proporções drásticas.
Como escrevi acima, nem sempre é fácil evitar o daltonismo sentimental ou afetivo, pois parece que tendemos a acreditar em sinais que indicam, à primeira vista, que somos acolhidos e amados. Nem sempre conseguimos ver o que é verde e o que é vermelho de fato. Talvez em boa parte das vezes confundimos o verde e o vermelho, especialmente em momentos em que há interesse na confusão. No entanto, diferente do daltonismo congênito ou orgânico, em que não há cura, em que a pessoa deve se acostumar com sua condição e ficar sempre atenta, pois sabe que não vê as cores como realmente são, o daltonismo afetivo pode ser “revertido”; podemos nos esforçar para ficar mais atento ao conjunto dos sinais que nos chega e, quem sabe, possamos ver o verde como verde e o vermelho como vermelho e, assim, parar enquanto houver tempo.
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