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Célio Juvenal Costa, professor da UEM

Odisseu(s)

 

O filme Odisseia, de Christopher Nolan, arrecadou até agora quase 1,4 bilhão de dólares. Um sucesso de bilheteria e, diga-se de início, um sucesso absolutamente merecido. A grandiosidade do filme está na história contada, na forma com ela contada e filmada, nos equipamentos utilizados, nas atrizes e atores de primeira grandeza, enfim, um verdadeiro épico. Creio que as pessoas que me leem sabem que o filme conta a história do retorno de Odisseu (cuja versão na língua latina é Ulisses) para Ítaca, terras em que era seu rei. Após o cerco de Troia em que, após 10 anos, os gregos venceram os troianos com o ardil daquilo que passou a ser conhecido como Cavalo de Tróia, os heróis gregos, dentre eles Odisseu, empreenderam o seu retorno aos seus reinos. O retorno de Odisseu levou outros 10 anos; ou seja, entre sua partida para a guerra e seu retorno se passaram 20 anos. Em Ítaca o esperavam sua esposa, a rainha Penélope, e seu filho Telêmaco. As duas grandes aventuras foram transmitidas para a posteridade a partir de dois grandes poemas épicos: Ilíada e Odisseia, que teriam sido compostos por Homero. Mas, o que eu quero comentar hoje é sobre a recepção do filme, especialmente por parte de um público de estudiosos da cultura grega, de seus mitos e de sua poesia.

 

 

A Odisseia foi originalmente composta na forma de poema oral, antes ainda de a escrita ter sido inventada e utilizada nas regiões continental e insular da Grécia. Homero teria vivido por volta do final do século IX e início do século VIII a.C., e os episódios narrados tanto em Ilíada quanto em Odisseia, teriam se passado entre os séculos XIII e XII a.C., portanto, dois ou até três séculos antes da suposta existência de Homero. Os atos heroicos e a guerra que se sucedeu ao rapto da grega Helena por parte do troiano Páris, foram perpetuados nos poemas, bem mais tarde na forma escrita, por volta do século VI a.C.. Há inúmeros estudiosos dos textos homéricos, há inúmeras tradutores para diversas línguas dos originais gregos e, portanto, na prática, há mais de uma Ilíada e mais de uma Odisseia, pois toda vez que se quer passar a linguagem originalmente falada, depois escrita, para uma linguagem visual, fílmica, teremos algumas implicações e algumas versões.

 

Quando eu fui assistir Faroeste Caboclo, o filme da música da Legião Urbana, me dei conta de que cada fã da banda e da música tinha, em sua mente, em sua imaginação, uma história, com personagens, paisagens e panos de fundos próprios e singulares. Alguma estaria errada? Absolutamente não; a música já é um roteiro de filme, mas a linguagem visual ficava a cargo de cada um, até que alguém, Rene Sampaio, resolveu fazer um filme que, como era de se esperar, recebeu muitos elogios, mas muitas críticas também, especialmente de quem tinha o “seu” filme e julgou melhor do que o exibido nos cinemas. De certa forma, o que acontece com o filme do Nolan é muito parecido, pois a linguagem fílmica da história de Ulisses, ou Odisseu, não teria como ser fiel a todas as etapas da viagem de retorno ao seu reino; o filme teria que durar umas 5 horas ao invés das quase 3 horas que ele tem.

 

Além da história em si da Odisseia de Homero ser mais complexa e com mais detalhes e personagens do que a Odisseia de Nolan, a escolha que o diretor fez das representações dos personagens principais e periféricos parece não ter agradado os estudiosos no assunto. O gigante Polifemo, os Lestrigões, as Sereias, a feiticeira Circe, os monstros Cila e Caribdis, a ninfa Calipso, foram apresentados e ganharam uma forma que o diretor entendeu ser a melhor para cada um deles (menos as sereias, que não apareceram no filme). Como cada estudioso também tem a sua imagem preferida de cada ser mitológico que está na história, é bem possível que o desencontro de fantasias tenha gerado algumas críticas também. A imagem do Hades que Nolan trouxe no filme talvez seja a que mais tenha incomodado os estudiosos, pois não houve a necessidade de “descer” à mansão dos mortos, pois eles vieram, aparentemente sem autorização do deus Hades, para a região dos vivos.

 

Mas, talvez o que mais tenha gerado discussão entre os estudiosos do mundo grego e as correspondentes críticas ao filme, e aí críticas boas e ruins, tenha sido a opção de Nolan por centrar o filme numa crítica à guerra de Tróia, ou mais propriamente, ao espírito e ao tempo guerreiro grego, e uma subjetivação do personagem Odisseu no seu épico retorno ao seu lar. O Odisseu de Nolan, como crítico de seu tempo e de si próprio, é mais parecido com quem faz um discurso hoje em dia crítico à guerra como opção de disputa entre países e a instrumentalização que se faz do ser humano a serviço de interesses econômicos e políticos. Talvez o Ulisses do filme seja exatamente o próprio Nolan que, ao filmar uma bela e épica história, quer mostrar um dos maiores heróis gregos na sua crua e frágil humanidade, mas com coragem e lucidez para entender que o tempo dos heróis guerreiros já estava se acabando, e no nosso caso, o tempo das guerras já deveria ter acabado...

 

 

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

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