Crise não forma, revela
- Bruno Oliveira

- há 9 horas
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Por que, numa crise, o líder não derrama o que o atingiu, e sim o que vinha guardando

Imagine que você está atravessando um corredor com uma xícara cheia de café. Não é uma cena heroica; é terça-feira. Alguém vem distraído na direção contrária, olhando o celular, e esbarra em você. O café salta, descreve um arco curto e ridículo no ar e vai parar na sua roupa, no chão, na manga de quem passava. O primeiro pensamento é quase sempre o mesmo, e quase sempre o errado: “olha o que você me fez fazer”.

Vale parar nessa frase, porque ela carrega uma mentira pequena e confortável. Por que o café se derramou? A resposta óbvia é o esbarrão, e a resposta óbvia, como de hábito, é a que esconde o essencial. O esbarrão não pôs café nenhum no chão. Ele apenas inclinou a xícara. O que caiu foi o que já estava dentro. Se ali houvesse leite, seria leite; se houvesse chá, seria chá. O empurrão não inventa o conteúdo, apenas obriga o conteúdo a aparecer. Posto assim, soa como sabedoria de adesivo de geladeira, dessas que a gente curte, repassa e esquece antes de o café esfriar. Mas, olhada de perto, a fábula não consola: acusa.
Agora troque a xícara por uma pessoa, que é o que esta crônica sempre quis fazer. A vida vive esbarrando na gente, na forma de um cliente que cancela, de um filho que responde mal, de um colega que leva o crédito do seu trabalho, de um carro que fecha o seu na avenida. Esses empurrões não estão sob o nosso controle, e gastamos uma energia absurda indignados com isso, como se fôssemos os primeiros a descobrir que o mundo é desajeitado. O empurrão vem, sempre vem. A única pergunta que importa, e que poucos querem fazer, é outra: o que transborda quando ele vem?
Porque o que transborda não é o esbarrão. É o estoque. Aquele cumprimento seco que escapa numa manhã ruim, a impaciência que sobra justamente para quem menos merecia, a resposta ácida redonda demais para ter sido improvisada na hora: nada disso foi criado pelo tranco. Já estava pronto, curtido, à espera de endereço. Costumamos dizer que perdemos a paciência, como se a paciência fosse uma carteira que cai do bolso. Não perdemos nada; apenas mostramos, sem querer, o que vínhamos guardando.
E não adianta apontar de fora, como se isso fosse defeito alheio: todos carregamos um copo cheio de coisas que preferiríamos não ver derramadas, e quase sempre só descobrimos o que havia nele pela pior via, no dia em que entornou. Ninguém acorda numa quarta-feira e decide ser ressentido; o conteúdo de uma pessoa é o saldo silencioso de mil decisões que ela nem percebeu tomar, muito antes de o mundo esbarrar.
Há dois poetas, distantes seis séculos e um oceano um do outro, que pensaram nisso com mais cuidado do que qualquer fábula. O primeiro é Saadi de Shiraz, persa do século XIII, autor do Gulistan, o jardim de pequenas histórias e máximas que o Oriente leu por setecentos anos como manual de bom senso. Numa de suas sentenças mais secas, ele lembra que o almíscar se reconhece pelo próprio perfume, “não pelo que o perfumista anuncia”. Ou seja, o que você é se denuncia sozinho. Pode-se descrever longamente a própria virtude, mas o esbarrão não lê legendas, e o que estiver dentro vai cheirar no primeiro tranco.
O segundo é Walt Whitman, americano do século XIX, autor de Folhas de Relva, o livro que alargou a poesia moderna ao trocar a métrica certinha por um verso do tamanho de um continente novo. Onde Saadi é contido, Whitman é expansivo, quase escandaloso. Em Canção de Mim Mesmo, depois de afirmar coisas que se contradizem, ele não pede desculpa; abre os braços: “sou vasto, contenho multidões”. Um pede que o conteúdo seja verdadeiro; o outro, que seja muito. Quem se encolhe para nunca derramar termina autêntico e oco, um copinho impecável sem nada digno de cair.
O que Saadi e Whitman cobram de qualquer um vale em dobro para quem carrega um copo do qual muita gente depende. Num cidadão comum, o derrame é tolerável: a vida esbarra, ele entorna rancor e estraga um jantar. Muda de figura quando o copo é o de quem governa, de quem faz a gestão. Aí o que cai escorre por cima de uma cidade inteira, às vezes de um país, e o reflexo de culpar o tranco vira doutrina: foi a oposição, foi a imprensa, foi o governo anterior, foi a herança maldita. Qualquer coisa, menos a hipótese incômoda de que aquilo que escorreu já estava dentro do copo, à espera do primeiro encontrão para aparecer.
E nada sacode um gestor como uma crise de verdade. A enchente, a epidemia, o orçamento que estoura, o comércio parado, as empresas que não escolhem o estado ou a cidade, o subemprego escondido nos índices de empregabilidade, o hospital sem leito: nenhum desses trancos cria o conteúdo do líder. Eles só forçam para fora o que foi estocado antes, quando ninguém olhava e parecia que nada contava. Não se enche a xícara durante o terremoto.
O preparo se acumula em prestações tediosas, em decisões pequenas e sem plateia, em instituições que alguém teve a paciência de construir ou a esperteza de esvaziar. Quem chega ao abalo com o copo cheio de improviso e vaidade vai derramar exatamente isso, e a conta não vem para ele: vem para quem dependia do copo.
Por isso, em quem governa, o esbarrão não é metáfora; é o exame mais honesto que há. O discurso na bonança não prova nada, porque é ensaiado, e firmeza prometida em tempo de paz sai barato. O que conta é o que escorre no susto: técnica ou pânico, responsabilidade ou caça ao culpado, o interesse de quem o elegeu ou o reflexo de se salvar primeiro. E se um dia for você a segurar a xícara diante de todos, pare de ensaiar a coragem para a hora do tranco. O tranco não cria coragem nenhuma; apenas inclina o copo. O que vai cair você decide agora, neste expediente sem importância, gota a gota. A crise não vai te testar. Vai só abrir a tampa.














Excelente reflexão!
Parabéns pela sensibilidade e pela profundidade desse texto. Você conseguiu transformar uma situação cotidiana em uma reflexão que realmente faz sentido para a vida. Gostei muito!