Conservador
Na campanha política deste ano de 2026 está ocorrendo algo novo no campo da direita, algo que parecia impossível há alguns anos: há uma disputa pelo que se considera a “verdadeira” direita. Já vi propagandas nas ruas de uma candidata que se autodenomina “a verdadeira voz conservadora”, e na TV um partido político se intitula “o verdadeiro partido conservador”, e, ainda, um candidato a presidente se diz “o primeiro que combateu a esquerda no Brasil”. Mas, o que isso significa? É o que tentarei refletir um pouco hoje.

Nas campanhas de 2018 e 2026, em que se tornou usual candidatos se afirmarem de direita, se dizerem a favor da família, da tradição, da religião, e serem contra a esquerda e contra o comunismo, não havia muito a preocupação em disputar o espaço dos votos, pois, na prática, eram ainda relativamente poucos os que se arriscavam na onda bolsonarista, apesar de muitos serem eleitos. Para a atual eleição, apesar de não me valer de nenhum levantamento específico, me parece óbvio que a maioria dos candidatos e candidatas se definem como sendo de direita, daí a necessidade de alguns de se defenderem como os legítimos conservadores; ora, se há os verdadeiros, é porque, para eles existem os falsos, os oportunistas que querem surfar na onda da direita somente para serem eleitos.
É no mínimo curioso acompanhar tal movimento eleitoral, pois é de se supor que um número considerável de candidatos que se filiam ao campo ideológico da direita o faz por motivos eleitoreiros, pois é maior a chance de ser eleito. O eleitor, de uns tempos para cá parece decidir seu voto por motivações ideológicas, afetivas e religiosas, e não pela capacidade de resolver os problemas sociais, econômicos e políticos que verdadeiramente afetam a população de forma geral. Nessa esteira, para os que querem os votos dos eleitores que se dizem conservadores, o mote principal da campanha deve ser a clara filiação ao conservadorismo, de preferência radical, virulento, histriônico e até caricatural. Portanto, hoje parece não bastar se dizer conservador, mas é preciso se mostrar como o verdadeiro, o legítimo conservador. Em alguns momentos essa disputa me faz lembrar a propaganda do Bombril, dos anos 1980, em que mostrava o produto como a verdadeira lã de aço com suas 1001 utilidades.
A esquerda brasileira também passou por uma fase de disputa para ver quem era a verdadeira voz da mudança social e política. Quando o PT surgiu, os partidos tradicionais comunistas, como o PCB e o PCdoB, o olharam não como alternativa de esquerda, mas como um partido que se mostrava mais reformista do que revolucionário. Assim também o PT olhou algumas das alternativas de esquerda que surgiram nos anos 1990 para frente. Como parte do eleitorado ainda não se definia claramente como sendo conservador de direita, a disputa pelos votos se dava majoritariamente por candidatos que se diziam defensores das reformas sociais e defensores do público em detrimento do privado. E, também na busca eleitoreira de votos, uma boa parte de candidatos se elegeu e defendeu apenas seus interesses e de seus grupos em seus mandados, contribuindo para o desgaste da imagem dos políticos e do sistema, o que abriu uma brecha grande e larga para os candidatos conservadores de direita que se dizem contrários ao sistema, mas que desejam se eleger para mudar o sistema por dentro. Parece que a história dos oportunistas se repetirá, com roupas diferentes.
Para mim, devo confessar, o conservadorismo em si não é um problema, pois sempre defendi que as pessoas têm o direito de, por diversas razões, serem conservadoras nos costumes, na religião e na moral; o problema, na minha opinião, é quando o conservadorismo está a serviço de uma extrema direita e, assim, se presta a justificar a violência, em vários níveis, e se coloca como um projeto de poder que quer subordinar as relações sociais e políticas aos ditames da religião. Esse conservadorismo que está em disputa agora me parece muito mais pernicioso, pois, além de ser um projeto de poder, quer passar a impressão de ser antissistema apenas para se aproveitar, ainda mais, de brechas criadas no próprio sistema, como é o caso das emendas pix, uma fonte de privilégios e de defesa de interesses e currais eleitoreiros.
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