Como é fácil ser candidato de extrema-direita...
Muitas coisas podem motivar as pessoas a se candidatarem a algum cargo público. Representatividade, ideologia, defesa de uma causa, vaidade e oportunismo, com certeza estão entre as várias motivações para alguém se lançar, ou continuar, no mundo da política. Conheço pessoas que exerceram cargos públicos e que nunca se beneficiaram dos seus mandatos, como foi o caso de meu pai, por exemplo, que foi o primeiro prefeito da cidade onde eu nasci, e que não ficamos ricos por causa disso, ele não comprou casas e nem lojas de chocolate. Mas, o que quero falar hoje é daquelas pessoas que são oportunistas mesmo, e essas pessoas geralmente se candidatam por aquele(s) partido(s) que esta(ão) na moda e que não exige preparo intelectual e nem propostas mais elaboradas e realistas para disputar os votos dos eleitores.

A conclusão que eu chego é que é muito fácil ser candidato(a) da extrema-direita, se não vejamos o que tivemos nas eleições de primeiro turno agora pouco: “vou acabar com a violência”, como se fosse possível acabar com um problema tão sério no Brasil, apenas falando grosso, tendo patente de PM ou do exército, ou elaborando leis como diminuição da idade penal e do fim das chamadas “saidinhas”; “vou acabar com o crime organizado”, usando dos mesmos embustes histriônicos (um candidato a presidente chegou a falar, várias vezes, que somente pelo fato de ele ser eleito os criminosos ficariam com medo e deixariam de cometer crimes); “vou defender a família brasileira”, que é “atacada” pela ideologia de gênero, como se a família brasileira tradicional não produzisse os seus próprios algozes, como mostram as estatísticas, em que pais, avós, tios, padrastos, que geralmente vão no culto ou missa toda semana, são os grandes agentes das violências contra crianças e mulheres; “vou defender o Brasil do comunismo que prega a esquerda”, colocando todas as pessoas e instituições que questionam a extrema-direita como comunistas e ateus e que deveriam ser extirpados da sociedade, como se nós, de fato, tivéssemos o comunismo como uma real alternativa política; “vamos acabar com a corrupção”, que, para mim, é o discurso mais hipócrita, pois a grande maioria dos casos de denúncia de corrupção de agentes públicos no Brasil nos últimos anos são de pessoas de partidos de extrema-direita.
Os problemas que afligem a sociedade brasileira definitivamente não são de fácil solução, como nunca foram os problemas sociais mais gerais e profundos em qualquer sociedade e em qualquer época. Por isso, as propostas simplistas são, no mínimo ingênuas, mas, no caso da extrema-direita, são resultado de uma desonestidade intelectual muito grave, além de ser, no geral, produtos de hipocrisia. Governos sérios criaram e criam políticas públicas para combater os efeitos danosos da inflação, para gerar novos empregos, para aumentar o poder aquisitivo dos salários, para combater a violência, em seus diversos níveis. Mas, sabemos que nem sempre se consegue os resultados que se almejava, pois os problemas são complexos e de difícil solução mesmo. Os governos sérios sabem que não há solução fácil e, por isso mesmo, sabem que precisam dialogar incessantemente com a sociedade civil e política para estabelecer as melhores políticas públicas.
Por isso mesmo que as propostas dos candidatos de extrema-direita são vazias, são superficiais, são personalistas e, na prática, não funcionarão. Acho mesmo que não há qualquer pretensão de que as propostas de campanha sejam exequíveis, pois candidato e eleitor sabem, no fundo, que as propostas pouco importam; eleitor e candidato sabem que o mais importante é a ideologia a ser defendida, que é muito mais importante do que, de fato, elaborar propostas que possam, de fato, ser colocadas em prática. Por isso mesmo é que é muito fácil ser candidato de extrema-direita, pois não há necessidade de se diferenciar pela qualidade e sim pelo tom de voz e pelo ato de fé no conservadorismo, mesmo que, no fundo, nem se saiba direito o que é isso.
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