Ciúmes
- Célio Juvenal Costa

- há 15 horas
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“Se você demora mais um pouco \ Eu fico louco esperando por você \ E digo que não me preocupa \ Procuro uma desculpa, mas todo mundo vê \ Que é ciúme \ Ciúme de você \ Ciúme de você \ Ciúme de você”. Este é um trecho da música Ciúme de Você, lançada por Roberto Carlos em 1968, e regravada pelo grupo Raça Negra em 1993. No nosso imaginário romântico, o ciúme é sinônimo de amor. Só tem ciúmes quem tem amor, é o que muitos acham. O ciúme faz parte do amor, é que muitos afirmam. Se você não tem ciúmes é porque não me ama, é porque não liga para mim e para o que eu faço, é que se ouve em muitos relacionamentos. Mas, também, há vozes que criticam o ciúme como sendo sinal de insegurança; mas, normalmente se critica o ciúme exagerado, pois um pouco de ciúme parece sempre ser admitido. Mas, será que ciúme tem a ver com amor, e vice-versa?

A rigor, nós temos ciúmes daquilo que nos pertence ou achamos que nos pertence. Ou melhor dizendo, aquilo que julgamos nos pertencer, ou pertence de fato, gera um medo de perder, e a esse medo damos o nome de ciúme. Portanto, o sentimento de possibilidade de perda é confundido com o sentimento do ciúme. A possibilidade de perda gera medo, insegurança, ansiedade e até raiva; uma mistura de afetos que pode gerar uma reação, por vezes, violenta. Para evitar isso, o ciumento encontra na eterna vigilância do ser amado ou possuído, uma forma de controle e de aquietar seu coração sofredor. Mas, a vigilância, o controle, só fazem aumentar o sentimento de que se pode perder o objeto amado.
As pessoas têm ciúmes de coisas e de pessoas. Ciúmes do carro, dos óculos, do celular, de qualquer coisa em que há um apego tal que não se confia em outra pessoa para usá-la, pois há um sentimento de certeza que a outra pessoa irá estragar o objeto amado; portanto, o ciúme do objeto é pela possibilidade de estraga-lo ou perde-lo. Com relação ao ciúme de pessoas, diferentemente do objeto, a pessoa amada pode, por sua decisão, trair, abandonar, romper a relação; diferente do objeto, o ciúme de pessoas gera a necessidade de controlar o que a pessoa sente, assiste, com quem se relaciona, e até, quem sabe, o que pensa. Há um investimento de energia tão grande na manutenção da relação, por meio da vigilância, do controle, da desconfiança, da chantagem, que, em alguns casos, a pessoa não consegue se ver existindo sem a pessoa amada. Tal investimento, se não correspondido, torna-se potencialmente letal, para a pessoa amada e para a própria pessoa que ama.
No fundo, o ciúme não é do objeto amado e nem da pessoa amada, o medo não é de perder a pessoa ou o objeto amados; o que não se admite perder é a própria pessoa que ama. É ela quem está em risco. Para além da insegurança, o ciúme é algo mais profundo, pois é o medo de perder a sua própria imagem na ausência especialmente da pessoa amada. O investimento é feito, no fundo, na busca, talvez ilusória, de uma autoestima, que se mede na capacidade que o ciumento sente de ter conquistado o objeto amado ou a pessoa amada. O apego que se tem a partir daí é pela manutenção de uma situação, de uma relação, que justifica e dá sentido à existência. Por isso, o ciúme, em qualquer nível, tem um potencial de violência pela manutenção da própria existência.
Infelizmente o ciúme recebeu uma aura de um ato ou comportamento romântico. Infelizmente, porque o ciúme nada tem a ver com amor, pois nada tem a ver com liberdade, com desejo, com trocas. O ciúme pode revelar uma pessoa que, em nome do amor, pode ser capaz de fazer sofrer, pode ser capaz de atos de violência moral e física. Quem tem ciúmes sofre e pode fazer sofrer...
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