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CIANORTE VIROU “TERRA DE NINGUÉM” NA POLÍTICA?

há 7 horas
5 min de leitura

Às vésperas da eleição, a pergunta que ninguém quer fazer: por que uma cidade com força econômica, empresários, entidades, igrejas, associações, vereadores e milhares de eleitores ainda encontra tanta dificuldade para construir uma representação política própria?


Por Marcio Nolasco


Existe uma pergunta que Cianorte precisa fazer antes de depositar o voto na urna neste domingo, 4 de outubro:


Quem está pensando politicamente em Cianorte — e quem está pensando apenas no próprio grupo?


Não se trata de defender partido, candidato ou ideologia. Trata-se de discutir uma questão que ultrapassa nomes e eleições: a capacidade de uma cidade construir sua própria identidade política.


Nas Eleições Gerais de 2026, os cianortenses escolherão também deputado estadual. O cargo é definido pelo voto direto e secreto, e a eleição ocorrerá em 4 de outubro.


Mas Cianorte chega a esta eleição diante de um velho problema: a fragmentação política.


De um lado, grupos disputam espaço, influência, poder e segurança política. De outro lado, candidatos de fora encontram em Cianorte terreno fértil para buscar votos.


E aqui está o ponto mais incômodo:


Se existe espaço para tantos projetos políticos externos, por que não existe a mesma disposição para construir um projeto político genuinamente cianortense?


A questão não é impedir ninguém de votar em quem quiser. Isso seria justamente negar a democracia.


O eleitor é livre.


O voto é secreto.


E cada cidadão tem o direito de escolher o candidato que considerar mais adequado.


O problema começa quando uma cidade inteira não consegue sequer discutir seriamente qual representação deseja construir para si mesma.



A política de Cianorte está dividida?


Talvez a palavra mais adequada seja fragmentada.


Empresários, lideranças políticas, entidades de classe, associações, igrejas, organizações da sociedade civil, Poder Executivo, Poder Legislativo e a própria comunidade possuem influência sobre o ambiente político local.


Mas influência sem convergência pode produzir exatamente o contrário do que uma cidade precisa.


Enquanto grupos disputam quem terá maior protagonismo, outros candidatos chegam de fora e encontram espaço para construir seus próprios projetos eleitorais.


E então surge uma consequência que precisa ser debatida:


Cianorte pode acabar tendo muitos cabos eleitorais de candidatos diferentes, mas nenhum projeto político comum para a cidade.


É a velha lógica do:


“Meu candidato primeiro. Cianorte depois.”


E talvez esteja aí uma das raízes do problema.


O voto de Cianorte precisa ser respeitado — inclusive quando contraria os interesses locais


É importante deixar claro: não existe voto “certo” ou “errado”.


O eleitor não é propriedade de prefeito, vereador, empresário, pastor, padre, associação, partido, sindicato ou liderança política.


Ninguém é dono do voto.


A democracia existe justamente para impedir que qualquer grupo tenha controle absoluto sobre a consciência eleitoral de uma população.


Mas democracia também exige responsabilidade.


E responsabilidade significa perguntar:


Qual é o projeto político que estamos construindo para Cianorte?


Porque uma coisa é escolher livremente um candidato de outra cidade.


Outra é uma cidade inteira não conseguir construir, ao longo dos anos, uma representação política própria capaz de dialogar com Curitiba, defender seus interesses e disputar recursos, obras, investimentos e políticas públicas.


Cianorte tem nomes próprios


Em 2026, há candidatos a deputado estadual nascidos em Cianorte. Entre eles estão Sergio Pereira, o Serginho, candidato pelo Republicanos, e Afonso Sergio Lima, candidato pelo Avante e Robertpo Aciolli, candidato pelo PODEMOS. Ambos aparecem nas bases eleitorais consultadas como naturais de Cianorte.



Isso torna ainda mais pertinente a discussão.


Não porque o eleitor tenha obrigação de votar neles.


Não tem.


Mas porque a cidade precisa discutir por que, mesmo tendo nomes locais, sua força eleitoral continua tão pulverizada entre diferentes projetos.


E quando os votos se dividem entre vários candidatos locais, enquanto candidatos externos recebem estruturas, apoios e votos em diferentes regiões, a consequência política pode ser a ausência de representação própria.


Essa não é uma acusação contra um candidato específico.


É uma questão de estratégia política coletiva.


E se Cianorte perder novamente?


Se depois de 4 de outubro Cianorte não tiver um deputado estadual eleito pela cidade, será preciso olhar para o espelho.


Não para procurar um único culpado.


Mas para perguntar:


O que fizemos para que isso acontecesse?


  • Foram os políticos?


  • Foram os empresários?


  • Foram as entidades?


  • Foram as lideranças religiosas?


  • Foram os grupos organizados?


  • Foram os partidos?


  • Foram os eleitores?


Ou foi justamente a soma de todos esses interesses separados?


Talvez seja essa a pergunta mais difícil.


Porque é muito mais fácil culpar o adversário do que reconhecer que a falta de unidade política também pode ser uma escolha coletiva.


Cianorte pode estar construindo sua própria regressão política


Uma cidade não perde representação apenas quando não elege alguém.


Ela perde representação quando deixa de pensar estrategicamente sobre seu futuro.


  • Quando cada grupo constrói sua própria candidatura.


  • Quando cada liderança olha para o próprio espaço.


  • Quando cada empresário escolhe sua conveniência.


  • Quando cada entidade permanece silenciosa.


  • Quando cada eleitor vota sem sequer discutir o impacto regional de sua escolha.


E quando a política passa a funcionar apenas como disputa pelo controle do poder.


É nesse momento que nasce a sensação de uma cidade “sem assinatura política própria”.


Uma cidade onde todos querem influência, mas poucos conseguem construir convergência.


Uma cidade onde muitos querem indicar caminhos, mas poucos conseguem construir um caminho comum.


Uma cidade que pode se tornar, politicamente, uma espécie de terra de ninguém.


Domingo não é apenas dia de votar. É dia de escolher que tipo de representação queremos.


No dia 4 de outubro, o eleitor cianortense terá liberdade para escolher.


E essa liberdade precisa ser preservada.


Não existe voto obrigatório em candidato local.


Não existe candidato “da cidade” que tenha direito automático ao voto.


Não existe liderança que possa determinar a consciência de ninguém.


Mas existe uma responsabilidade coletiva:


Pensar Cianorte antes de pensar nos grupos.


Porque uma cidade que não consegue construir representação política própria corre o risco de passar anos apenas assistindo outros municípios decidirem quem terá força dentro da Assembleia Legislativa.


E depois reclamar da falta de recursos, influência e voz.


Talvez Cianorte precise parar de perguntar apenas:


“Em quem eu vou votar?”


E começar a perguntar:


“Que representação política quero que minha cidade tenha depois desta eleição?”


A resposta pertence exclusivamente ao eleitor.


E justamente por isso ela é tão importante.


Porque democracia não é votar obedecendo ao grupo.


Democracia é votar livremente, sabendo que cada voto ajuda a desenhar o futuro político da cidade.


Neste domingo, Cianorte terá novamente essa oportunidade.


Depois das urnas, não adianta reclamar.


Será hora de olhar para o resultado e perguntar:


Cianorte escolheu sua própria representação — ou mais uma vez permitiu que outros projetos políticos ocupassem o espaço que a própria cidade não conseguiu preencher?


É assim que é.

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