Cianorte Festival 2026 acabou: mas, afinal, a festa deu lucro?
- Marcio Nolasco

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Artigo de opinião
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
O Cianorte Festival 2026, que celebrou os 73 anos da cidade, encerrou sua programação no fim de julho depois de quase um mês de eventos — missas, cavalgada, feira do agronegócio (FEAPAM), Vila do Sabor, parque de diversões, Recicla Cianorte Festival, shows nacionais gratuitos e o tradicional Festival Gastronômico Solidário. Nos cinco primeiros dias, a Prefeitura já contabilizava mais de 110 mil pessoas circulando pelo Novo Centro — número que, se repetir o ritmo de edições anteriores (a de 2025 reuniu cerca de 280 mil visitantes ao longo de todo o mês), coloca o evento entre os maiores de portões abertos do Paraná.

Diante de festa desse tamanho, a pergunta que fica no ar é direta: valeu a pena financeiramente? A festa deu lucro? Se sim, quanto foi arrecadado, e para onde vai esse dinheiro?
E é exatamente aqui que a resposta simples não existe — e talvez seja esse o ponto mais importante a discutir.
"Lucro" não é bem a palavra certa
O Cianorte Festival não é um empreendimento comercial com bilheteria e balanço de resultado. É um evento público, gratuito, organizado pela Prefeitura de Cianorte em parceria com o Programa de Ação Solidária (PAS) — ou seja, financiado por recursos municipais, patrocinadores e apoiadores locais. Não existe ingresso de entrada, então não há receita de bilheteria a ser contabilizada como "lucro" do evento em si.
O que existe, e que a própria organização costuma divulgar, é uma estimativa de impacto econômico — ou seja, quanto dinheiro a festa faz circular no comércio, na hotelaria, na alimentação e nos serviços da cidade. Na edição de 72 anos (2025), a Prefeitura projetou uma movimentação de R$ 22 milhões na economia local — número bem mais robusto do que a estimativa de R$ 2,5 milhões divulgada meses antes pela própria Secretaria de Cultura para a mesma edição. Essa discrepância, por si só, já é sintomática: mesmo as projeções oficiais variam enormemente conforme a fonte e o momento em que são divulgadas, o que dificulta qualquer comparação séria de "resultado" entre uma edição e outra.
Até o fechamento deste artigo, não foi localizado nenhum balanço oficial e consolidado — auditado ou não — sobre os custos totais da edição de 2026 (montagem de estrutura, contratação de shows, segurança, limpeza, cachês) frente ao retorno gerado. Ou seja: a conta de quanto a Prefeitura gastou organizando a festa, comparada ao quanto ela efetivamente devolveu à cidade em movimento econômico, segue sendo uma incógnita pública.
O único "caixa" que existe de fato: o Festival Gastronômico Solidário
Se há uma arrecadação concreta e rastreável dentro do Cianorte Festival, ela está no Festival Gastronômico Solidário, realizado este ano no espaço da AABB. Nele, entidades assistenciais e clubes de serviço da cidade vendem pratos típicos — sukiyaki, costela no fogo de chão, leitoa à pururuca, picanha na chapa — e ficam com a renda arrecadada em seus próprios pontos de venda.
Segundo a coordenadora do PAS, Iraci de Sarges, essa é justamente a lógica do evento: cada entidade fica com o que arrecadou no seu prato, revertendo o valor diretamente para suas próprias ações sociais. Não existe, portanto, um "caixa único" do festival sendo redistribuído pela Prefeitura — é uma arrecadação pulverizada, entidade por entidade, sem consolidação pública de valor total arrecadado. Isso significa que perguntar "quanto o Festival Gastronômico arrecadou" tem, na prática, seis ou mais respostas diferentes (uma para cada entidade participante), e nenhuma delas costuma ser divulgada em número fechado.
Outras frentes do festival também mexem com dinheiro sem que isso configure "lucro" da Prefeitura:
O parque de diversões, em edições recentes, cobrava ingressos (entre R$ 8 e R$ 15) — mas é operado por empresa terceirizada, não pela administração municipal.
A Vila do Sabor e a feira de expositores movimentam comerciantes locais, que embolsam sua própria receita.
O Recicla Cianorte Festival, iniciativa de sustentabilidade que arrecadou mais de 2.400 garrafas PET nesta edição, gera impacto ambiental, não financeiro.
Por que isso importa
Não é exagero dizer que a pergunta "a festa deu lucro?" só parece simples porque estamos acostumados a pensar em eventos como negócios. Mas quando o evento é público, pago (ao menos em parte) com dinheiro do contribuinte, a pergunta que realmente importa não é "deu lucro", e sim: o investimento público valeu a pena e foi bem prestado de contas?
E é nesse ponto que, na minha avaliação, o Cianorte Festival ainda deixa a desejar em transparência. A cidade sabe, com boa precisão, quantas pessoas passaram pelo evento e quais shows tocaram. Sabe até quantas garrafas PET foram recicladas. Mas não tem acesso fácil a uma prestação de contas clara: quanto custou organizar a festa, quanto entrou de patrocínio privado, quanto saiu do orçamento municipal e qual foi o retorno real mensurado — não estimado — para o comércio local.
Divulgar apenas projeções de impacto econômico (que mudam de edição para edição sem explicação da metodologia) é insuficiente para quem paga a conta. Uma festa desse porte, que consome semanas de estrutura, segurança e mão de obra pública, merece um relatório pós-evento tão detalhado quanto a programação foi antes dele: valores efetivamente gastos, valores arrecadados pelas entidades sociais no Festival Gastronômico, e destino de eventuais excedentes ou parcerias comerciais.
Até que isso exista, a resposta honesta para "a festa deu lucro?" é: não se aplica — e essa é justamente a informação que falta a Cianorte para debater o assunto com dados, e não com estimativas soltas.
Este texto é uma análise opinativa baseada em informações públicas disponíveis até 4 de agosto de 2026. Números oficiais e definitivos sobre custos e arrecadação da edição de 2026 do Cianorte Festival não haviam sido divulgados pela Prefeitura até a publicação deste artigo.



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