Chá revelação... de tudo...
- Célio Juvenal Costa

- há 2 horas
- 3 min de leitura
Guy Debord, um escritor francês, publicou, em 1967, o livro A Sociedade do Espetáculo, em que defende, resumidamente, que a modernidade capitalista criou a ideia de que a realidade passe a ser vivida por meio das representações, a realidade mediada por imagens, as quais se transformam em mercadorias a serem consumidas por meio de modismos criados. A nossa realidade hoje, praticamente 60 anos após a publicação do livro, elevou à enésima potência o que Debord anunciava, pois vivemos, no nosso cotidiano, da produção e circulação de modismos que se configuram como verdadeiros espetáculos. Quero refletir hoje sobre um deles: os chás revelação.

A impressão que temos é que os chás revelação sempre existiram, mas de uns tempos para cá saber, por exemplo, o sexo de um bebê passou a ser um espetáculo a parte, pois todos já participamos, ou vimos algum vídeo, em que as cores azul ou cor-de-rosa saem de balões, de bolos, da água da piscina, de fumaças etc.. A mim sempre me incomodou essa forma pública e performática de revelar algo que é, em si, íntimo de um casal ou de famílias. Da mesma forma que sempre me incomodou (e desculpem amigas e amigos que fizeram ou fazem isto) comemorar o chamado mêsaniversário de um bebê, pois parece que os pais, familiares e amigos não conseguem conter a ansiedade de esperar pelo tradicional 1 aninho, e acabam por sucumbir a uma moda que, na realidade, se torna uma mercadoria a ser consumida, no caso, mensalmente.
Agora a moda, por incrível que possa parecer, é realizar chá revelação para descobrir diagnósticos de neurodivergências. É isso mesmo, agora pessoas estão recebendo o seu diagnóstico médico precedido por fumaça colorida, bolo e papel picado. É a espetacularização dos problemas neurodivergentes. Vi uma reportagem em que pessoas que assistiam as revelações faziam apostas para ver se acertavam o diagnóstico ou os diagnósticos. “Vai sair Autismo junto com TDAH”; “Tá com cara de ter TDL associado com TDAH”; “Certeza que vai dar autismo”... as pessoas fazem torcida e comemoram os resultados. De certa forma, é a banalização de problemas sérios; parece que virou coisa chique ter alguma neurodivergência.
Para além da discussão sobre o quão reconfortante (e problemático) pode ser ter um diagnóstico que valida o ser diferente na nossa sociedade da performance cada vez mais (auto)exigente, o que já esbocei em outro texto aqui, o fato é que as pessoas que se propõe a fazer da descoberta de seu (no caso, bem vindo) diagnóstico um espetáculo com pirotecnia e com convidados, contribui para um empobrecimento das consequências de qualquer problema neurodivergente, de suas restrições sociais, de suas limitações intelectuais, da dependência de pessoas e situações. A espetacularização é uma espécie de glamourização do problema, e a glamourização convida as pessoas a desejarem receber, com alegria e distinção, seus diagnósticos.
Só quem tem, de fato, alguma neurodivergência sabe o quanto é difícil conviver com ela, como restritiva se torna a vida, e o tamanho da exigência (e da autoexigência) que se requer para tentar levar uma vida dentro de certa normalidade de independência e autonomia. Se pensarmos, então, no TEA, nos graus 2 e 3, que necessitam de um maior suporte, comemorar com bolo, fumaça colorida e papel picado um diagnóstico assim, me parece uma grande ofensa à dignidade das pessoas que estão no TEA e de todas as pessoas envolvidas no seu suporte.
Meu Instagram: @costajuvenalcelio



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