BRASIL É TERRA DE JESUS — MAS DE QUEM É A TERRA?
Entre a fé, a propriedade e a reforma agrária, existe uma pergunta que a política brasileira ainda precisa responder: quem deve ter acesso à terra e sob quais condições?
Por Marcio Nolasco
“Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.”
A frase foi dita pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, em agosto de 2026, e posteriormente sua equipe afirmou que a declaração tinha caráter simbólico, ligada a uma oração ou manifestação de fé.

Mas existe uma pergunta que ultrapassa a disputa religiosa e entra diretamente no território da política pública:
Se o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, o que isso significa quando falamos da terra brasileira?
Porque o Brasil não é apenas um mapa. É território, propriedade, produção, moradia, agricultura familiar, agronegócio, comunidades tradicionais, povos indígenas e milhões de brasileiros que ainda não possuem um pedaço de chão para produzir ou viver.
E é justamente aí que a frase ganha uma dimensão política.
DE QUEM É A TERRA?
A Constituição Federal não estabelece que a terra pertence a uma religião, a uma igreja, a um partido ou a um grupo político.
Ela estabelece direitos e deveres relacionados à propriedade.
O artigo 186 determina que a propriedade rural deve cumprir sua função social, observando, entre outros pontos, o aproveitamento racional e adequado, a utilização adequada dos recursos naturais, o cumprimento das normas trabalhistas e uma exploração que favoreça o bem-estar de proprietários e trabalhadores.
E a própria Constituição prevê a possibilidade de desapropriação, mediante indenização, de imóvel rural que não cumpra sua função social, nos termos constitucionais e legais.
Portanto, quando se fala em reforma agrária, a discussão não deveria ser reduzida ao velho confronto entre “quem é a favor da propriedade” e “quem é contra a propriedade”.
A propriedade privada existe. Mas também existem obrigações constitucionais relacionadas a ela.
JESUS, A TERRA E OS INVISÍVEIS
Existe ainda uma dimensão moral nessa discussão.
Independentemente da religião de cada brasileiro, a figura de Jesus é frequentemente associada, no discurso cristão, à preocupação com os pobres, os excluídos e aqueles que vivem à margem da sociedade.
Por isso, quando um candidato afirma que pretende colocar o Brasil sob uma declaração de fé, é legítimo perguntar:
Que Brasil seria esse?
Um Brasil em que grandes propriedades produtivas continuam produzindo?
Um Brasil em que propriedades improdutivas podem ser submetidas aos mecanismos constitucionais de reforma agrária?
Um Brasil em que pequenos agricultores recebem crédito, assistência técnica e infraestrutura?
Um Brasil em que trabalhadores rurais conseguem acesso à terra?
Ou um Brasil em que a propriedade é tratada exclusivamente como um direito individual, sem que se discuta sua função social?
São perguntas diferentes — e nenhuma delas pode ser respondida apenas com um versículo, um slogan eleitoral ou uma declaração de campanha.
A REFORMA AGRÁRIA NÃO É SINÔNIMO DE CONFISCO
Esse é outro ponto que precisa ser colocado sobre a mesa.
A reforma agrária brasileira possui mecanismos definidos constitucionalmente. Não significa simplesmente “tomar terras”.
A Constituição estabelece limites e proteções, inclusive para determinadas propriedades, e prevê requisitos para a desapropriação destinada à reforma agrária.
Ao mesmo tempo, a política fundiária brasileira continua sendo objeto de disputa política.
Em 2026, o governo federal afirma ter incluído 266 mil famílias em diferentes modalidades da política de reforma agrária desde o início da atual gestão, incluindo novos assentamentos, reconhecimento de propriedades e regularização de lotes. O governo também afirma ter destinado bilhões de reais à política.
Esses números são apresentados pelo próprio governo e devem ser analisados à luz dos critérios utilizados para contabilizar cada modalidade.
E aqui está o ponto central:
reforma agrária não deveria ser apenas distribuição de lotes.
Se uma família recebe terra, mas não recebe estrada, crédito, assistência técnica, água, energia, educação, saúde e condições de comercialização, a política pública fica incompleta.
Dar terra sem dar condições de produzir pode transformar um sonho em outra forma de abandono.
E O AGRONEGÓCIO?
Também seria intelectualmente desonesto tratar o agronegócio como inimigo da reforma agrária.
O Brasil depende fortemente de sua produção agropecuária.
Grandes produtores, médios produtores, agricultores familiares e cooperativas cumprem papéis diferentes dentro de uma cadeia econômica gigantesca.
A questão, portanto, não deveria ser:
“agronegócio ou reforma agrária?”
A pergunta mais importante deveria ser:
“Como garantir produção, segurança jurídica, desenvolvimento econômico e justiça fundiária ao mesmo tempo?”
Essa é uma discussão muito mais difícil.
E justamente por isso é uma discussão que merece ser feita.
SE O BRASIL É DE JESUS, ELE NÃO PODE SER DE POUCOS
A frase de Flávio Bolsonaro pode ser entendida como uma manifestação de fé.
Sua equipe, inclusive, apresentou essa interpretação após a repercussão da declaração.
Mas, quando uma frase religiosa é colocada dentro de uma campanha presidencial, ela inevitavelmente provoca perguntas políticas.
E uma delas é sobre a terra.
Porque o Brasil possui uma história marcada pela concentração fundiária, conflitos rurais, regularização de propriedades, grilagem, disputas indígenas, agricultura familiar e diferentes modelos de produção.
A discussão não pode ser resolvida dizendo simplesmente que “a terra é de Deus”.
Porque, na vida real, existem escrituras, títulos, contratos, assentamentos, impostos, leis, produtores, trabalhadores e decisões judiciais.
E existe a Constituição.
A PERGUNTA QUE FICA
Se Flávio Bolsonaro pretende transformar a declaração de que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo” em uma referência simbólica de seu governo, talvez seja justamente a política concreta que precise responder ao significado dessa frase.
Como será sua política de terras?
Qual será o papel do Incra?
Como ficará a reforma agrária?
Qual será a política para agricultores familiares?
Como serão tratados os conflitos fundiários?
Como equilibrar direito de propriedade e função social?
Como combater a grilagem sem criminalizar quem produz legalmente?
Como garantir segurança jurídica sem abandonar quem não possui terra?
E, principalmente:
que Brasil será esse que se pretende entregar a Jesus?
Porque uma coisa é utilizar a fé como símbolo político.
Outra, muito diferente, é transformar valores religiosos em políticas públicas concretas.
No fim, a terra brasileira continuará submetida à Constituição, às leis e às instituições da República.
E talvez essa seja a grande questão que a eleição de 2026 coloque diante do eleitor:
o Brasil pode ser um país profundamente religioso — mas o Estado brasileiro continuará sendo de todos.
E quando o assunto é terra, propriedade e reforma agrária, não basta dizer a quem pertence o Brasil.
É preciso explicar como ele será dividido em direitos, oportunidades, responsabilidades e cidadania.

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