Ao vencedor, as contas
A promessa foi para a vitrine. A conta ficou no estoque.
Machado de Assis inventou um filósofo meio desequilibrado, Quincas Borba, que explicava o mundo com uma história de batatas. Duas tribos famintas disputam um campo que só alimenta uma delas. Se dividirem, morrem as duas de fome. Então guerreiam, e quem vence come. “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”
Lembrei dele esta semana. No domingo, dia 25, o Brasil decide quem fica com as batatas. No primeiro turno a diferença foi de menos de dois pontos, e desde então cada tribo jura que o campo já é seu. O que ninguém mostra no horário eleitoral é o estado da plantação.
Fui olhar.
A dívida bruta do governo passou de 82% do PIB em julho, o nível mais alto em mais de cinco anos, e o próprio Tesouro calcula que o ano termine perto de 83,5%. A conta de juros da dívida beira R$ 1,2 trilhão. É mais do que o PIB inteiro do Paraná, que somou R$ 765 bilhões em 2025. Seria o estado todo trabalhando um ano só para pagar juro, e ainda faltaria troco.
O vencedor leva as batatas, é verdade. Só que boa parte delas já vem empenhada ao credor.
Repare, leitor, como quase nada disso apareceu na campanha. Houve jingle, vídeo curto, recorte de debate, ataque e resposta ao ataque. Muito marketing. Dos números por trás do governo, quase ninguém falou. E são eles, bem mais do que qualquer slogan, que decidem quanto vai custar a feira e quanto sobra do salário até o próximo pagamento.
Na noite do dia 18, no primeiro debate frente a frente, a economia enfim subiu ao palco. Subiu, mas de roupa de campanha. Boa parte do tempo foi gasta com acusações de corrupção, Banco Master de um lado, fraude no INSS do outro.
Quando o assunto virou dinheiro, Flávio prometeu que o governo vai comprar dos bancos, com desconto, a dívida de famílias e empresas, com meses de carência, e falou numa dívida pública a caminho dos R$ 11 trilhões. Lula respondeu que a saída é o país crescer entre 4% e 5% ao ano e lembrou o salário mínimo reajustado acima da inflação. Fiquei esperando a parte seguinte, aquela em que alguém explica de onde sai o dinheiro para comprar a dívida de milhões de brasileiros, ou como se cresce 5% com a Selic em 13,75%. Não veio, de nenhum dos dois. A promessa foi para a vitrine. A conta ficou no estoque.
Lido com gestão e comunicação há muitos anos e não desprezo uma boa campanha. Ela ganha eleição. Mas no dia 1º de janeiro a agência de publicidade vai embora, e o que fica é a planilha, que não se deixa convencer por vídeo bem editado nem "likes" em rede social.
E a planilha entra na sua casa por um caminho que pouca gente nota: a inflação.
O brasileiro tem com ela uma relação de vizinho brigado. Sabe que mora ao lado e finge que não vê. Quem viveu os anos 1980 lembra da maquininha de etiqueta correndo pela prateleira duas vezes por dia. Mário Henrique Simonsen, que comandou a Fazenda nos anos 1970, deixou uma frase que os economistas repetem até hoje: “A inflação aleija, mas o câmbio mata.” Depois do Real, a gente decorou a segunda metade e se acostumou a mancar. Hoje 4,58% ao ano parece número de jornal, coisa de economista. Ninguém sente 4,58%. Sente a conta de luz.
A de setembro veio pesada. Com o fim do bônus de Itaipu, a energia subiu quase 8% num mês só. Na prática, quem pagou R$ 250 de luz em agosto recebeu uma fatura perto de R$ 270 em setembro, sem ter acendido uma lâmpada a mais. A comida, que vinha caindo havia três meses, voltou a subir, e todos os nove grupos que o IBGE pesquisa ficaram mais caros: comida, moradia, transporte, roupa, saúde, educação, comunicação, artigos para a casa e despesas pessoais. Não sobrou um. Quem deixou R$ 10 mil na poupança viu entrar R$ 67 de rendimento enquanto a inflação levava R$ 82. Perdeu R$ 15 sem tocar no dinheiro.
E não é coisa de um mês. Nos últimos quatro anos fechados, de 2022 a 2025, a inflação oficial somou 21%. Mas cada canto da casa sentiu de um jeito. Imagine alguém que teve o salário corrigido exatamente pela inflação, nem um centavo a mais. No papel, ficou empatado. Na vida real, depende do que ele compra:
O que você compra | Quanto subiu | Comparado à inflação | Seu poder de compra |
Saúde e cuidados pessoais | 33% | 12 pontos acima | perdeu 9% |
Educação | 32% | 11 pontos acima | perdeu 8% |
Roupa | 31% | 10 pontos acima | perdeu 8% |
Despesas pessoais | 26,5% | 5,5 pontos acima | perdeu 4% |
Comida | 25% | 4 pontos acima | perdeu 3% |
Moradia | 16% | 5 pontos abaixo | ganhou 5% |
Transporte | 13% | 8 pontos abaixo | ganhou 7,5% |
Artigos para a casa | 9% | 12 pontos abaixo | ganhou 11% |
Comunicação | 6% | 15 pontos abaixo | ganhou 15% |
Traduzindo: com o mesmo dinheiro corrigido, a família compra hoje 9% menos de plano de saúde e remédio, 8% menos de escola e de roupa e 3% menos de comida. Em compensação, o celular e a internet ficaram relativamente mais baratos. O problema é que ninguém deixa de pagar a farmácia porque a conta do telefone aliviou. Os itens que mais subiram são justamente os que não dá para cortar.
Na mesa, setembro também cobrou a sua parte. O tomate subiu quase 38% num mês, a batata 24% e o arroz mais de 4%. O frango foi dos poucos que baratearam, quase 2%, e salvou o almoço de muita família. Quem ganha salário mínimo precisou trabalhar, em média, 102 horas só para comprar a cesta básica, o equivalente a metade do salário líquido. Em Curitiba, a cesta já custava R$ 798,87 em agosto, ou 108 horas de trabalho. A salada virou item de luxo, e nenhum candidato gravou vídeo sobre isso.
Graciliano Ramos conhecia bem esse mecanismo. Em Vidas Secas, Fabiano vai acertar contas com o patrão e o resultado nunca bate com o que Sinha Vitória calculou em casa, separando sementes de feijão. O patrão explica que a diferença são os juros. Fabiano não entende, desconfia, protesta um pouco e acaba abaixando a cabeça.
Fabiano continua entre nós. Hoje ele faz a conta pela parcela: se cabe no mês, compra, e ninguém pergunta quanto aquilo custa de verdade. Mil reais hoje compram o que R$ 956 compravam há um ano. Quem paga R$ 1.500 de aluguel vai ouvir do proprietário, no reajuste, que agora são uns R$ 1.570. O salário, quando é corrigido, chega atrasado, pelo índice do ano anterior, e a diferença some no carrinho do supermercado sem que ninguém perceba direito para onde foi.
O resultado está nos números. Em agosto, eram 83,9 milhões de brasileiros negativados, metade da população adulta. As empresas também sofrem: 9,1 milhões de CNPJs têm dívida em atraso, a maioria de pequenos negócios. E o rotativo do cartão passa de 400% ao ano. Traduzindo: uma fatura de R$ 1.000 empurrada para o mês seguinte volta uns R$ 150 mais gorda. O patrão de Fabiano teria vergonha de cobrar isso.
E uma coisa puxa a outra. Inflação acima do teto da meta segura a Selic em 13,75%. Juro alto deixa o crédito caro, e crédito caro é justamente o que mantém essa multidão presa ao cartão.
Aí vem o paradoxo que confunde as conversas de padaria: o emprego vai bem. O desemprego no Brasil ficou em 5,4% no segundo trimestre, o menor para o período desde que o IBGE começou a medir. No Paraná, 3,1%, com renda média de R$ 4.204, a quarta maior do país. Já se fala em mais vagas do que gente para preenchê-las, e aqui em qualquer empresário confirma isso sem precisar de pesquisa. O brasileiro trabalha, ganha um pouco melhor e, mesmo assim, deve.
Isso não se resolve com propaganda.
Ganhe quem ganhar, há serviço a fazer. Primeiro, uma regra fiscal em que o mercado acredite, o que exige mexer em despesa obrigatória e em benefício tributário que ninguém lembra mais por que existe. Juro só cai de verdade quando quem empresta ao governo perde o medo. Depois, a reforma tributária, já aprovada e saindo do papel aos poucos. Se a transição for mal conduzida, vira briga judicial por uma década.
E há o tema que me toca de perto. O Paraná cresce acima da média e já esbarra no limite de gente preparada. Faz décadas que o Brasil cresce colocando mais pessoas para trabalhar e quase nunca fazendo cada uma render mais. Com desemprego em 3%, essa fonte secou. Daqui em diante é qualificação ou estagnação, e isso passa por ensino técnico e por universidade que converse de verdade com quem contrata.
Por fim, o mais difícil. A parábola de Quincas Borba tem um defeito que Machado certamente conhecia: ela supõe que a tribo vencida desaparece. Num país, não desaparece. Continua morando na casa ao lado, pagando a mesma conta de luz. Em janeiro de 1985, eleito depois de mais de duas décadas de regime militar, Tancredo Neves pediu ao país uma coisa simples: “Não vamos nos dispersar.” Não chegou a tomar posse, mas a frase ficou. Quem vencer no domingo vai governar também para quem votou contra, e vai precisar conversar com essa gente. Não dá curtida, mas sem isso o resto não anda.
Cada um vota com a sua consciência, e eu vou votar com a minha. Só peço que, passada a apuração, a gente cobre do eleito os números e não o comercial. Ao vencedor, as batatas. A nós, como sempre, a conta, que chega todo mês, chova ou faça sol, e não aceita jingle como forma de pagamento.
Bruno Oliveira
Administrador, Mestre em Gestão do Conhecimento, MBA em Controladoria e Presidente da Academia de Letras de Cianorte

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