Gestão do Governo Ratinho Júnior o PCC e a Operação “Carbono Oculto” no Paraná
- Marcio Nolasco

- 1 de set.
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Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP

Resumo Executivo
O presente relatório técnico-analítico investiga a natureza da conexão entre a administração do governador do Paraná, Carlos Massa Ratinho Júnior, e a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), com base em uma série de operações policiais e no processo de privatização de ativos estaduais. A análise dos materiais de pesquisa disponíveis revela que a ligação não se estabelece por meio de um conluio direto, pessoal ou corrupto entre o governo e a organização criminosa. Em vez disso, a evidência aponta para uma intersecção de eventos: uma política pública de privatização de infraestrutura portuária pelo governo do Paraná coincidiu com a infiltração de capital ilícito da facção no mercado econômico-financeiro, resultando na investigação de um ativo recém-privatizado.
A Operação "Carbono Oculto", deflagrada em 2025, expôs um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro e fraude no setor de combustíveis operado pelo PCC.
O Porto de Paranaguá foi identificado como o principal ponto de entrada de metanol, um solvente tóxico, importado ilegalmente para adulterar combustíveis. A investigação, que mira fundos de investimento e empresas envolvidas na lavagem de R$ 30 bilhões em patrimônio, revelou que esses fundos participaram da aquisição do terminal PAR 50 do Porto de Paranaguá, que foi leiloado pelo governo estadual em 2023. Enquanto o governo promoveu o leilão como um sucesso de gestão e atração de investimentos, os órgãos de investigação apontaram que a área privatizada se tornou um ponto nevrálgico do esquema criminoso. A situação demonstra uma vulnerabilidade estrutural: a exploração, por parte de uma organização criminosa, de um ativo legítimo que foi objeto de uma política de governo.
Introdução: O Cenário da Infiltração Criminosa no Setor Econômico
A Operação "Carbono Oculto" representa um dos maiores e mais complexos esforços de combate ao crime organizado já realizados no Brasil, unindo o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Receita Federal do Brasil, com apoio da Polícia Federal (PF) e outras forças de segurança. O alvo da operação é uma sofisticada rede criminosa liderada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que conseguiu se infiltrar no setor de combustíveis, utilizando uma complexa arquitetura de fraudes, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. As investigações, que se estenderam por vários estados, incluindo o Paraná, miraram mais de 350 alvos entre pessoas físicas e jurídicas.

A escala da operação e a natureza dos crimes investigados revelam uma evolução na estratégia da facção criminosa. Os auditores-fiscais da Receita Federal identificaram um esquema que movimentou impressionantes R$ 52 bilhões por meio de cerca de mil postos de combustíveis entre 2020 e 2024, com uma sonegação tributária estimada em R$ 7,6 bilhões. O capital ilícito era lavado através de fintechs que atuavam como "bancos paralelos," com uma delas movimentando, sozinha, R$ 46 bilhões não rastreáveis no período. O dinheiro era então reinvestido em ativos legítimos, como 1.600 caminhões, quatro usinas de álcool e 100 imóveis, além de ser ocultado em pelo menos 40 fundos de investimento com um patrimônio estimado em R$ 30 bilhões.
A operação demonstra uma mudança significativa no modus operandi do crime organizado, que passou de atividades violentas e de baixo impacto financeiro para uma infiltração estratégica no sistema econômico-financeiro. A utilização de instrumentos complexos, como fundos de investimento, para adquirir ativos legítimos e consolidar poder e riqueza sugere uma abordagem de longo prazo da facção. A investigação, liderada por órgãos com expertise em crimes financeiros e fiscais, indica que o combate a essas organizações exige uma colaboração interinstitucional robusta que transcenda a segurança pública tradicional, envolvendo também as esferas de fiscalização econômica.
O Elo Geográfico e Estratégico: O Porto de Paranaguá
A Operação "Carbono Oculto" estabeleceu uma conexão central com o estado do Paraná ao identificar o Porto de Paranaguá como um ponto logístico crucial para o esquema criminoso. As investigações da Polícia Federal revelaram que o porto servia como a principal porta de entrada para a importação irregular de metanol, uma substância altamente inflamável e tóxica que era desviada para a adulteração de combustíveis. O esquema consistia em importar o metanol sob a fachada de destinatários legítimos nas notas fiscais, mas a carga era desviada e transportada clandestinamente, em total desacordo com as normas de segurança.
A escolha do Porto de Paranaguá como hub da atividade criminosa não foi aleatória. Sua localização estratégica e suas conexões logísticas, incluindo as rodovias BR-277, PR-401 e a malha ferroviária, o tornam um ponto ideal para a entrada e distribuição de produtos em escala para diversos estados, incluindo São Paulo, onde a maior parte da rede de postos criminosos operava. A infraestrutura portuária, que o Governo do Paraná promove como um fator decisivo para o crescimento econômico e logístico do estado, foi a mesma que a organização criminosa explorou para viabilizar suas operações bilionárias. A situação, portanto, não denota um conluio, mas sim uma vulnerabilidade estrutural na cadeia de fiscalização e segurança.
A Privatização do Terminal PAR 50 e a Intersecção com a Operação
A alegada ligação do governo estadual com o PCC se manifesta, de forma factual, na intersecção entre a política de privatização e a subsequente investigação. Em 2023, sob a gestão do governador Ratinho Júnior, o terminal PAR 50 do Porto de Paranaguá, destinado à movimentação e armazenagem de granéis líquidos, foi leiloado na Bolsa de Valores de São Paulo (B3). O arremate, realizado pelo grupo FTS, que, por sua vez, opera a empresa Liquipar, foi feito por um valor de R$ 1 milhão, com a obrigação de um investimento mínimo de R$ 338,2 milhões para ampliação da capacidade operacional. O governo do Paraná celebrou o leilão como um marco inédito, tornando o Porto de Paranaguá o primeiro porto público 100% regularizado do Brasil e atraindo R$ 2,2 bilhões em novos investimentos privados.

A conexão entre essa política pública e a atividade criminosa foi exposta com a Operação "Carbono Oculto". As investigações miram os fundos de investimentos envolvidos na aquisição do terminal PAR 50 e apontam que integrantes do PCC atuavam na importação irregular de metanol por essa área. Assim, a "ligação" é uma coincidência temporal e funcional: a decisão de privatizar um ativo estratégico criou uma nova estrutura de propriedade que foi, posteriormente, infiltrada por capital ilícito. A investigação não acusa o governo de corrupção no leilão em si, mas aponta que a aquisição do terminal, um ato legítimo, foi executada por uma rede criminosa como parte de sua estratégia de lavagem de dinheiro.
O Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR) negou uma denúncia do Sindicato da Indústria de Fabricação de Álcool do Paraná (Sialpar) contra o processo licitatório, atestando a lisura do leilão do ponto de vista formal. 1 A decisão do TCE reforça que o processo cumpriu os requisitos legais e administrativos. No entanto, a investigação da PF e da Receita Federal sobre a origem do capital que arrematou o terminal levanta uma questão sobre a eficácia dos mecanismos de verificação de due diligence e de combate à lavagem de dinheiro em leilões de ativos estratégicos. O caso do terminal PAR 50, se as alegações criminais forem comprovadas, serviria como um estudo de caso sobre como a legalidade formal de um processo pode ser explorada para fins ilícitos.

A seguir, a Tabela 1 oferece uma cronologia dos principais eventos, ilustrando a intersecção entre a privatização e a operação policial.

Fontes:
A Infraestrutura Financeira do PCC e a Rede de Participações
A Operação "Carbono Oculto" detalhou o funcionamento da infraestrutura financeira do PCC, uma rede complexa que utiliza mecanismos legais para lavar capital ilícito. O esquema utilizava fintechs como "bancos paralelos" para processar bilhões de reais em transações não rastreáveis, e o dinheiro era então injetado em fundos de investimento. Esses fundos, como o Mabruk II e o Celebration, eram utilizados para a aquisição de ativos, como usinas de álcool e imóveis. A investigação também aponta para a atuação de indivíduos como Mohamad Hussein Mourad, que utilizava esses fundos para adquirir empresas em recuperação judicial, como o Grupo Virgolino de Oliveira (GVO).
A conexão com o terminal PAR 50 reside na alegação de que fundos de investimento investigados estão envolvidos na sua aquisição. No entanto, é importante notar que as informações disponíveis não estabelecem uma ligação direta e explícita entre o grupo arrematante (FTS Group/Liquipar) e os fundos específicos Mabruk II ou Celebration. A narrativa da investigação é que o capital criminoso, diluído e disfarçado por meio dessa rede de participações, mirou a aquisição de ativos estratégicos, e o terminal do Porto de Paranaguá se encaixou nesse perfil. A complexa estrutura de participações, que cria um véu de legalidade sobre a origem do dinheiro, dificulta a identificação dos verdadeiros beneficiários e torna o rastreamento um desafio para as autoridades.
Esse cenário sublinha a necessidade de marcos regulatórios mais rigorosos para transações de grande escala, especialmente em leilões de infraestrutura crítica. A situação ilustra a lacuna entre a conformidade com as regras formais de uma licitação e a ausência de mecanismos de verificação aprofundada sobre a origem do capital. O caso pode servir como um exemplo para aprimorar os controles em leilões de bens públicos, garantindo que o capital que os adquire não esteja contaminado por atividades criminosas.
Reações e Respostas Institucionais e Políticas
O desdobramento da Operação "Carbono Oculto" no Paraná foi recebido com respostas distintas e, em alguns casos, cooptado para narrativas políticas pré-existentes. O Governo do Paraná, por meio de sua agência de notícias, manteve o foco na narrativa de sucesso da gestão. As comunicações oficiais destacam a eficiência logística e o recorde de movimentação do Porto de Paranaguá, além de ressaltarem a capacidade do estado em atrair investimentos bilionários através de leilões. O governo promoveu os leilões como um exemplo de política pública que impulsiona o crescimento econômico e moderniza a infraestrutura.

A oposição política, por sua vez, utilizou a operação para questionar a política de privatizações e a gestão do governo Ratinho Júnior. Deputados como Requião Filho (PT) têm criticado o que consideram um "governo de marketing e propaganda" e apontam inconsistências na gestão fiscal, além de se manifestarem contra outras privatizações, como a das escolas públicas. As críticas se estendem à ideia de que a privatização de setores estratégicos, como os portos, favorece grupos empresariais sem o devido debate e fiscalização, potencialmente abrindo portas para a infiltração de capital de origem duvidosa.
Enquanto o TCE-PR atestou a legalidade formal do leilão do PAR 50 , a situação se tornou um campo de batalha política, onde a complexidade da investigação criminal foi simplificada para fortalecer posições ideológicas. O governo evitou abordar diretamente as alegações de infiltração criminosa no terminal recém-privatizado, preferindo destacar os benefícios econômicos de sua política. A oposição, por sua vez, usa a investigação como uma oportunidade para validar suas críticas de longa data sobre a gestão. Esse cenário de polarização dificulta uma compreensão pública clara e matizada da situação, pois o debate se distancia dos fatos e se concentra em uma disputa política sobre o modelo de gestão pública.

Fontes:
Conclusão
A análise dos eventos e dados disponíveis não permite estabelecer uma ligação direta de corrupção ou conluio entre o Governo Ratinho Júnior e o PCC. A "ligação" é de natureza estrutural, resultado da convergência de uma política de Estado e da operação de uma rede criminosa. O governo, ao promover a privatização do terminal PAR 50 do Porto de Paranaguá, criou um ambiente de negócios que foi explorado por uma organização criminosa que já havia se sofisticado a ponto de usar fundos de investimento e outras ferramentas financeiras para lavar dinheiro e adquirir ativos.
O caso ilustra um desafio sistêmico para as administrações públicas no Brasil. Em um contexto de abertura econômica e atração de investimentos privados para a infraestrutura, torna-se imperativo que os mecanismos de due diligence e de combate à lavagem de dinheiro sejam robustos e capazes de rastrear a origem do capital que adquire bens públicos de valor estratégico. A mera legalidade formal de um leilão, embora essencial, não é suficiente para proteger o patrimônio e a economia nacional da infiltração de capital ilícito.
A Operação "Carbono Oculto" serve como um alerta para a necessidade de os órgãos de controle, como a Receita Federal e a Polícia Federal, atuarem em conjunto com as esferas de fiscalização de leilões e licitações para garantir que a origem do capital seja investigada de maneira a se aprofundar. A forma como a questão foi tratada no debate público também demonstra o risco de que investigações complexas sejam instrumentalizadas para fins políticos, obscurecendo os desafios reais de governança e de combate à criminalidade organizada em seu novo e sofisticado formato de atuação.
Síntese dos Fatos e Conexões
Ao consolidar as informações, percebo que a suposta ligação do governo do Paraná com o PCC é de natureza indireta e circunstancial. As investigações federais, como a 'Operação Carbono Oculto', apontam para a aquisição de um terminal portuário privatizado pelo governo por fundos de investimento com suposta ligação à facção. Consegui identificar que o Fundo Mabruk II e o empresário Mohamad Hussein Mourad estão entre os investigados, reforçando a linha de que o PCC estaria infiltrado no setor de combustíveis por meio de fundos. A conexão com o governo se dá apenas pelo fato de que a privatização do terminal ocorreu durante a atual gestão. Marcio Nolasco - Portal bisbilhoteiro.com.br














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