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André Mendonça declara guerra à cúpula da PF e joga o Supremo numa crise sem precedentes

há 3 dias
5 min de leitura

Em decisão monocrática e tomada por conta própria, ministro afasta diretor-geral da Polícia Federal e escancara disputa pessoal com Alexandre de Moraes. Treze ex-ministros do STF já cobram resposta de Fachin.


Por Marcio Nolasco   |   Buenos Aires - Argentina   |   08 de setembro de 2026


Marcio Nolasco - Portal Bisbilhoteiro
Marcio Nolasco - Portal Bisbilhoteiro

Pega o café, senta e segura na cadeira, porque o Supremo Tribunal Federal está mais uma vez no olho do furacão — e dessa vez o estopim tem nome, sobrenome e toga: André Mendonça. Nesta terça-feira (8), acompanhando aqui de Buenos Aires as movimentções em Brasília, pude observar que o ministro tomou uma decisão que ninguém, nem os bisbilhoteiros mais graduados de Brasília, viu vir com essa intensidade: mandou afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e também o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. Sozinho. Por conta própria. Sem que ninguém tivesse pedido isso a ele oficialmente — bem, quase ninguém: o partido Novo entrou com um requerimento pedindo até a prisão de Rodrigues, e Mendonça aproveitou a deixa.


Só que o caldo já estava entornando havia dias. A confusão começou quando Alexandre de Moraes tornou público um relatório da PF sugerindo que as investigações do caso do Banco Master estariam sendo direcionadas contra desafetos políticos do próprio Mendonça. O documento nem tinha assinatura nem cabeçalho oficial — detalhe nada irrelevante — mas foi suficiente para Mendonça sair batendo o pé e classificando o episódio como de “superlativa gravidade”. Ele foi além: revelou que pelo menos seis relatórios de inteligência foram produzidos tendo ele mesmo como alvo, recebidos pelo diretor-geral da PF entre 3 e 31 de agosto. Traduzindo o bisbilhotês: um ministro do STF estava sendo monitorado havia mais de um mês, e ele descobriu.


A bomba que ninguém sabia que ia explodir


O detalhe mais picante dessa história toda é que a decisão foi tomada de ofício — ou seja, Mendonça agiu por iniciativa própria, sem provocação formal de nenhuma das partes do processo. Juristas ouvidos pela imprensa especializada não pouparam adjetivos: chamaram o movimento de inédito na história da Suprema Corte. E não é força de expressão.


“Especialistas ouvidos avaliam que o ato de ofício de Mendonça contraria a lógica do sistema processual acusatório, no qual cabe ao Ministério Público acusar, pedir sanções e ao juiz julgar.”  — análise jurídica publicada no dia 8/9


O advogado Marcelo Peruchin, pós-doutor em Democracia e Direitos Humanos, apontou dois ineditismos na jogada: o afastamento da cúpula da PF por decisão monocrática e a ausência total de oitiva prévia dos afastados. Ou seja: Mendonça bateu o martelo, mandou embora e só depois perguntou se tinha alguém para se defender.


Já o jurista Alfredo Attié, presidente da Academia Paulista de Direito, colocou o dedo na ferida com aquela pergunta que ninguém tinha coragem de fazer em voz alta: poderia o próprio Mendonça decidir sobre fatos nos quais ele mesmo aparece, seja como acusado, seja como vítima? Attié ainda achou “muito duvidoso” que um partido político tivesse legitimidade para propor uma ação dessas, e classificou o afastamento sem defesa prévia como “potencialmente ilegal”.


O Planalto entra na roda


Óbvio que o Palácio do Planalto não ia ficar de braços cruzados vendo o presidente da República perder, na prática, o controle sobre quem comanda a Polícia Federal. A área técnica já estuda acionar a Advocacia-Geral da União para contestar a decisão, alegando “violação de competência” — afinal, nomear e exonerar o diretor-geral da PF é prerrogativa exclusiva do presidente, não do Judiciário. Lula, aliás, chamou a AGU para uma conversa no Palácio da Alvorada, o que os bisbilhoteiros do Planalto leram como sinal claro de que o governo vai brigar por esse território.


E não faltou quem torcesse o nariz dentro da própria Polícia Federal: onze diretores da corporação saíram em apoio público a Andrei Rodrigues e Leandro Almada, num movimento que analistas classificaram como corporativista, mas que também reflete a surpresa geral com a dimensão da decisão.


Até a Segunda Turma travou


Achou que ia ser fácil? A confirmação da decisão foi levada à Segunda Turma do STF, que formou maioria com os votos de Luiz Fux e Kassio Nunes Marques a favor de manter o afastamento — só que o julgamento foi suspenso por um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. Ou seja: nem entre os próprios colegas de toga o assunto está pacificado. Enquanto isso, o afastamento continua valendo, e só uma nova decisão — inclusive do presidente da Corte, Edson Fachin — poderia reverter o quadro.


Treze aposentados batem à porta de Fachin


E se você achava que a treta parava por aí, espera só. Em movimento raro, treze ex-ministros aposentados do STF assinaram uma carta conjunta endereçada a Edson Fachin. A lista de nomes é de dar respeito: Néri da Silveira, Francisco Rezek, Sydney Sanches, Celso de Mello, Carlos Velloso, Ilmar Galvão, Nelson Jobim, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Ayres Britto, Joaquim Barbosa, Eros Grau e Rosa Weber.


“A “mais aguda crise” da história da Corte — e cobram que Fachin convoque, “com toda a urgência”, uma sessão pública do plenário para uma “imediata e rigorosa apuração” dos fatos.”  — trecho da carta dos ex-ministros a Fachin


Curiosamente, três nomes de peso ficaram de fora da assinatura: Luís Roberto Barroso, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello. Barroso, inclusive, fez questão de explicar publicamente sua ausência — disse preferir não fazer cobrança pública e apostar no diálogo direto com os ministros atuais, incluindo conversas recentes com Alexandre de Moraes e o próprio André Mendonça, hoje em lados opostos da queda de braço.


E agora, o que pode acontecer?


O professor de Direito Constitucional da PUC-SP Pedro Estevam Serrano trouxe um contraponto interessante ao clima de linchamento: para ele, seria “exagerado” abrir uma investigação formal contra Mendonça, já que não vê gravidade suficiente caracterizada em sua conduta. Mas reconhece que o comportamento do ministro foi “inadequado” em relação à própria Corte e sugere uma saída mais moderada — tirá-lo simplesmente da relatoria do caso Master.


Enquanto isso, o episódio já extrapolou os corredores do Supremo e ganhou as ruas: análises apontam que a crise serviu de combustível político para a militância bolsonarista nas manifestações de 7 de Setembro, reforçando o discurso de campanha em torno do nome de Flávio Bolsonaro.


Resumindo o rolo para quem chegou agora: um ministro do STF afastou sozinho a cúpula da Polícia Federal, o governo ameaça judicializar a briga, a própria Segunda Turma travou o julgamento, treze ex-ministros já cobram satisfação de Fachin — e ninguém, absolutamente ninguém, sabe exatamente onde essa novela vai parar. Uma coisa é certa: o Supremo nunca esteve tão longe de parecer supremo.


Marcio Nolasco é colunista e editor do Portal Bisbilhoteiro.

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