Acumular carisma(ou, farmar aura)
- Célio Juvenal Costa

- há 1 dia
- 2 min de leitura
Confesso que estou entre aquelas pessoas que não sabiam o significado de “Farmar aura”. Quando eu ouvi pela primeira vez, não faz muito tempo, eu jurava que estava gramaticalmente errado, que deveria ser “formar aura”, ou coisa que o valha. Quando vi que havia campeonatos organizados em várias cidades, inclusive na que eu moro, me dei conta que era “farmar” mesmo, e daí acabei vendo uma reportagem que explicava que o nome vem do mundo dos games e que farmar significa acumular e aura significa carisma, o que de fato não achei estranho. O estranho é a concepção de que se pode acumular carisma, ou de que é possível farmar aura a partir de torneios específicos para isso.

A nossa sociedade hoje é, cada vez mais, produtora de espetáculos. Parece que precisamos transformar tudo o que seja possível em eventos, torneios, campeonatos, para que determinados indivíduos que se destacam em algo possam ter um público para os aplaudir e reconhecer as suas qualidades. Talvez um exemplo interessante desse fenômeno são os torneios de Breaking, dança que veio da cultura hip-hop que, de expressões restritas a guetos culturais passou a ser uma modalidade olímpica; como modalidade olímpica, tem regras específicas para se ganhar as notas, exigindo habilidade, técnica, execução, musicalidade, originalidade e personalidade. Ou seja, não é apenas ficar balançando os braços, movimentando o corpo e fazendo caretas.
Mas é no mínimo curioso como certas ondas se espalham rapidamente pelos lugares, como, por exemplo, esses campeonatos de Farmar Aura. Existem jurados, existem critérios, os quais são basicamente subjetivos em seu julgamento, como criatividade, postura e originalidade. Existem, portanto, os vencedores e, consequentemente, os perdedores, ou seja, existem aqueles que acumularam carisma e aqueles que, no mínimo, perderam carisma. Mas, a pergunta que me faço é se existe uma forma de quantificar, em torneios, o carisma de alguém? Se é preciso fazer poses, danças, gestos, caretas, fazer o tal six seven para ser considerado uma pessoa carismática?
Por mais que tenha tudo para ser uma nova modinha que tende a ser esquecida, como os bebês reborns, por exemplo, quando algo vira um fenômeno de massa, é preciso prestar atenção pois, no mínimo, está sinalizando um caminho, um sintoma, uma escolha, uma ideologia social. Nós vivemos uma época de gourmetização de várias coisas, desde comidas, roupas, lugares etc., e agora tentamos gourmetizar o carisma. Meu receio é que aqueles carismas que eram aliados aos talentos intelectuais, artísticos, profissionais de uma pessoa não sejam suficientes para reconhece-los como “aura” e, portanto, pessoas assim passem a ser desinteressantes, pois não se dispõe a competir com outros para ver quem tem o carisma maior. Competir para ver quem acumula mais carisma, ou, nas palavras de hoje, para farmar aura é, no mínimo, se render, uma vez mais, à pirotecnia de uma sociedade que valoriza cada vez mais o empreendedor individual e aquele que vence com seu próprio esforço, seu próprio mérito, nem que seja de fazer mais caretas e mexer mais os braços...
Meu Instagram: @costajuvenalcelio



.png)






Comentários