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A árvore que dava macarrão

ou de como a verdade se veste de quem a diz


Por Bruno Oliveira - Diretor da UNIPAR


Em 1º de abril de 1957, o programa jornalístico Panorama, da BBC, foi ao ar com uma reportagem de três minutos sobre uma família suíça colhendo espaguete direto da árvore, no cantão de Ticino. O apresentador Richard Dimbleby, a voz mais respeitada do jornalismo britânico naquele momento, narrava com a gravidade de quem cobre uma crise diplomática que o final de março é sempre um período de grande ansiedade para os colhedores de espaguete, por causa do risco de geadas tardias, que prejudicam o sabor e derrubam os preços no mercado internacional.



Não havia nada sutil na farsa. Só a extrema seriedade com que foi contada.


Na época, o macarrão ainda era exótico na Grã-Bretanha, conhecido sobretudo em lata, misturado a molho de tomate, e a ideia de que viesse de uma árvore não parecia, a quem nunca o havia visto cru, mais absurda do que a ideia de que viesse de qualquer outro lugar. Oito milhões de pessoas assistiram. Centenas telefonaram à BBC no dia seguinte, e a maioria das ligações não era para reclamar da brincadeira: era para perguntar onde podiam comprar a muda e como cultivar espaguete no próprio quintal.


A BBC respondeu com a frase mais britânica já pronunciada por uma emissora pública: "Coloque um ramo de espaguete numa lata de molho de tomate e espere pelo melhor."


É a piada perfeita: absurda o suficiente para ser engraçada, verossímil o suficiente para ser acreditada, e reveladora o suficiente para incomodar. Porque o mecanismo por trás dela não ficou em 1957. Aliás, nunca esteve tão vivo.


Quem inventou a farsa foi o cinegrafista Charles de Jaeger, austríaco, que se lembrou de uma frase que um professor lhe repetia na infância, em Viena: "Vocês são tão burros que acreditariam se eu dissesse que espaguete cresce em árvore." Décadas depois, De Jaeger transformou a provocação em imagem. Mas o detalhe que faz a anedota virar crônica não é a ideia dele: é a voz de Dimbleby. Se a mesma reportagem tivesse sido narrada por um desconhecido, em um canal menor, teria sido recebida como piada e esquecida antes do jantar. A diferença entre a piada e a fraude foi apenas a reputação de quem a disse.


A pergunta que a BBC não fez, mas que um psicólogo de Yale não conseguiu evitar, era simples: por que funcionou? Carl Hovland passou boa parte da vida estudando exatamente isso. Nos anos 1950, pesquisando como filmes de propaganda afetavam soldados americanos, Hovland descobriu algo que parece óbvio mas tem consequências devastadoras: a mesma mensagem, palavra por palavra, convence ou não convence dependendo de quem a assina.


Quando os pesquisadores atribuíram uma frase de Thomas Jefferson sobre a necessidade de pequenas revoltas a Vladimir Lenin, os estudantes a rejeitaram com veemência. Quando a devolveram a Jefferson, aplaudiram. Mesma frase, mesmas palavras, sentidos opostos.


Nós não avaliamos o conteúdo. Avaliamos o remetente. E quando o remetente é confiável, a avaliação do conteúdo praticamente desaparece: o selo substitui a leitura. Quantas vezes aceitamos um argumento não porque era bom, mas porque vinha assinado pelo nome certo?


O mais sutil das descobertas de Hovland foi o que batizou de efeito adormecido. Com o tempo, o ouvinte esquece quem disse, mas lembra do que foi dito. A informação sobrevive, a fonte se dissolve. E o resultado prático é perturbador: uma ideia inicialmente rejeitada porque veio de alguém sem credibilidade pode, semanas depois, ganhar força na cabeça do ouvinte, porque ele lembra da ideia e já não lembra que deveria desconfiar dela. O contrário também vale: uma bobagem dita pela voz certa, como espaguete crescendo em árvore, se instala primeiro pela credibilidade do selo e, quando o selo se desgasta, já fez a viagem inteira.


Pense na quantidade de coisas em que você acredita sem nunca ter verificado, apenas porque ouviu da fonte certa. A maioria do que sabemos, se formos honestos, não foi conferida: foi endossada. Acreditamos porque fulano disse, porque saiu naquele jornal, porque estava no livro tal, porque o sujeito tem o título x. Quando a fonte é boa, a conferência parece desnecessária. E é exatamente nessa desnecessidade que a árvore de espaguete floresce.


De Jaeger, o cinegrafista, sabia de tudo isso por instinto. Não estudou Hovland, não leu artigo nenhum. Apenas entendeu, com a inteligência prática de quem fabrica imagens para viver, que a mesma mentira muda de natureza conforme a moldura. Um colega de bar contando que espaguete nasce em árvore é anedota; Richard Dimbleby contando a mesma coisa na BBC é informação. O conteúdo é idêntico. O que muda é a embalagem, e a embalagem, para a maioria das pessoas, é o conteúdo.


Convém, no entanto, não transformar a história em álibi para o cinismo. A credibilidade existe por boas razões. Um jornal sério acerta mais do que erra; um especialista sabe mais do que o leigo; um diploma sinaliza estudo que de fato aconteceu. O problema não é confiar. O problema é delegar o julgamento inteiro à confiança e aposentar a verificação. A verificação é o que separa a confiança saudável da ingenuidade, e custa muito pouco: basta perguntar, diante de qualquer afirmação que se apresente vestida de autoridade, se a aceitaria do mesmo modo se viesse sem a roupa.


Quem nunca faz essa pergunta acaba, mais cedo ou mais tarde, pedindo muda de espaguete.


A BBC, diga-se, nunca se desculpou pela brincadeira. Pelo contrário: a reportagem foi eleita o maior trote já produzido por uma organização jornalística séria, título que ela carrega até hoje com um orgulho discretamente britânico. E a lição mais durável da farsa talvez seja a mais simples: as oito milhões de pessoas que assistiram à reportagem não eram estúpidas. Eram confiantes. E confiança sem verificação é apenas outro nome para a lata de molho de tomate onde se espera que o espaguete germine.

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