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A VERGONHA NA SAÚDE PÚBLICA DE CIANORTE

há 4 horas
9 min de leitura

Enquanto vídeos oficiais vendem a imagem de uma gestão “espetacular”, o próprio Portal da Transparência expõe uma realidade que não cabe em propaganda: 769 crianças aguardam, em média, 393 dias por uma consulta com neuropediatra. E a pergunta é simples: quem está cuidando dessas crianças? Onde esta o Conselho Tutelar? Onde estão os diretos absolutos de nossas crianças? Onde estão os vereadores?


Por Marcio Nolasco — Analista de Políticas Públicas.


Existe um momento em que a propaganda deixa de ser narrativa política e começa a bater de frente com a realidade.


Em Cianorte, esse momento chegou!!


E não chegou por meio de uma denúncia anônima, de uma postagem em rede social ou de uma informação de bastidor.


Chegou pelo próprio Portal da Transparência da Saúde Pública do município.


Os números estão ali, para qualquer cidadão ver!


E são assustadores.


Imagem criada por I.A para essa matéria
Imagem criada por I.A para essa matéria

Nos documentos consultados e nos prints obtidos pelo Portal Bisbilhoteiro, o sistema apresenta 769 pacientes aguardando consulta em Neurologia Infantil (Neuropediatria), com tempo médio de espera de 393 dias.


São aproximadamente 13 meses de espera.


Treze meses.


Mais de um ano.


Para uma criança ser avaliada por um neuropediatra. MAIS DE 1 ANO!!!!


E antes que alguém tente transformar esta reportagem em disputa política, é preciso deixar algo absolutamente claro:


Os números não são do Portal Bisbilhoteiro.


São números exibidos pelo sistema oficial de transparência municipal.


Neuropediatria - 769 crianças na fila - 393 dias de espera para cada uma!!!! VERGONHA...
Neuropediatria - 769 crianças na fila - 393 dias de espera para cada uma!!!! VERGONHA...

Link oficial destes dados aqui - Portal da Transparência da Saúde de Cianorte


Mais dxe 1000 dias - 3 anos para ser atendido por um Dentista - VERGONHA!
Mais dxe 1000 dias - 3 anos para ser atendido por um Dentista - VERGONHA!

Se estiverem corretos, são gravíssimos.


Se estiverem errados, então temos outro problema igualmente grave:


Por que o Portal da Transparência da Saúde de Cianorte continua apresentando dados que podem induzir a população ao erro?



NÓS JÁ AVISAMOS


Não é de hoje que o Portal Bisbilhoteiro questiona o sistema de informação da saúde municipal.


Em agosto de 2025, o Portal reuniu vereadores e uma representante do Poder Executivo em uma reunião realizada na sala de Marcio Nolasco.


Naquela ocasião, foi apresentado um problema concreto no Portal da Transparência da Saúde.


Havia inconsistências no processamento das informações.


O sistema apresentava alterações nos números de pacientes, consultas e exames nas filas.


A cada consulta, determinados dados poderiam aparecer de maneira diferente.


Houve debate.


Houve resistência.


Houve vereadores ligados à base do prefeito que não aceitavam a possibilidade de existir um erro no sistema e defendiam a administração municipal.


Mas o tempo passou.


E, posteriormente, o próprio prefeito Marco Franzato veio a público reconhecer a existência do problema e afirmar que havia planejamento e ações para enfrentar as filas.


Ou seja:


Aquilo que alguns tentavam negar acabou sendo reconhecido pelo próprio Executivo.


E aqui está o ponto mais importante:


passado mais de um ano, a fila continua.


O BUG PODE TER MUDADO. A FILA NÃO.


É preciso fazer uma pergunta incômoda:


o problema era apenas o sistema?


Porque, se era, alguém precisa explicar por que os problemas continuam aparecendo nos números atuais.


E se os números atuais estiverem corretos, a situação é ainda mais preocupante.

O mesmo Portal da Transparência consultado pelo Bisbilhoteiro apresenta, por exemplo:


  • Neurologia Infantil (Neuropediatria): 769 pacientes — 393 dias de espera média;

  • Médico Neurologista: 1.538 pacientes — 677 dias de espera média;

  • Médico Clínico – pós-graduado em Neurologia: 2.011 pacientes — 486 dias;

  • Médico Neurocirurgião: 692 pacientes — 316 dias;

  • Cirurgião Dentista – Ortopedista e Ortodontista: 7 pacientes — 1.068 dias;

  • Urologista: 10 pacientes — 935 dias;

  • Ginecologista e Obstetra: 7 pacientes — 926 dias;

  • Alergista e Imunologista: 75 pacientes — 860 dias.


E, no quadro geral mostrado pelo sistema, aparecem 13.558 pacientes aguardando primeira consulta e 11.279 aguardando consulta de retorno.


Se esses números estiverem corretos, não estamos falando de uma pequena dificuldade administrativa.


Estamos falando de um problema estrutural.


769 CRIANÇAS NÃO SÃO UM NÚMERO


Aqui está o ponto que deveria tirar o sono de qualquer gestor público:


769 crianças não são 769 números em uma planilha.


São crianças.


São mães.


São pais.


São famílias.


São histórias.


São crianças que podem estar aguardando avaliação especializada para investigar alterações neurológicas, desenvolvimento, aprendizagem, comportamento, epilepsia, transtornos do neurodesenvolvimento ou outras condições que precisam de avaliação médica adequada.


E cada mês perdido pode representar uma família angustiada tentando descobrir o que está acontecendo com seu filho.


Por isso, 393 dias não podem ser tratados como mera estatística administrativa.


O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que é dever da família, da sociedade e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos relacionados à vida e à saúde.


É justamente por isso que a pergunta precisa ser feita:


Como pode existir prioridade absoluta para a criança se uma fila de neuropediatria chega a 769 pacientes, com espera média de 393 dias?


E O CONSELHO TUTELAR?


Aqui surge outra pergunta que o Portal Bisbilhoteiro considera inevitável.


Qual é a posição do Conselho Tutelar de Cianorte diante de uma fila dessa dimensão?


O questionamento não é sobre substituir a Secretaria Municipal de Saúde.


É sobre proteção de direitos.


O próprio ECA estabelece entre as atribuições do Conselho Tutelar a possibilidade de requisitar serviços públicos na área da saúde e, diante do descumprimento injustificado de suas deliberações, representar à autoridade judiciária. Também pode encaminhar ao Ministério Público notícia de fato que constitua infração administrativa ou penal contra direitos da criança e do adolescente.



Portanto, a pergunta do Portal é legítima:


O Conselho Tutelar está acompanhando essa situação?


Está cobrando providências?


Está requisitando atendimento para crianças que não podem esperar indefinidamente?


Está cobrando uma solução da Prefeitura?


E, principalmente:


Quantos casos de crianças esperando por atendimento especializado chegaram ao Conselho Tutelar?


Não estamos afirmando que o Conselho Tutelar esteja sendo omisso.


Estamos perguntando.


E esperamos uma resposta pública.


AME: INAUGURADO, MAS E O ATENDIMENTO?


A situação ganha outro contorno quando lembramos que Cianorte inaugurou, em março de 2026, o novo Ambulatório Médico de Especialidades (AME), com investimento anunciado de aproximadamente R$ 17,5 milhões, 22 consultórios e sete salas de exames e procedimentos. A estrutura foi apresentada pelo Governo do Paraná como reforço para o atendimento especializado de média complexidade da região.


Então a pergunta é inevitável:


se a estrutura existe, onde está a solução para as filas?


Uma cidade pode inaugurar prédios.


Pode inaugurar unidades.


Pode fazer solenidades.


Pode cortar fitas.


Pode produzir vídeos.


Mas saúde pública não se mede pela quantidade de fotografias de inauguração.


Mede-se pela quantidade de pessoas efetivamente atendidas.


E, principalmente, pela quantidade de pessoas que deixam de esperar.


E O HOSPITAL IRMÃ BENIGNA?


O Hospital Irmã Benigna também é apresentado há anos como uma das grandes soluções para a saúde regional.


Em 2024, a própria Prefeitura informou que a segunda etapa da obra estava avaliada em R$ 62,78 milhões, com previsão de conclusão em 18 meses. O projeto prevê 242 leitos, incluindo UTI adulta e neonatal, além de maternidade, pediatria, cirurgias e diversos serviços diagnósticos.


Em 2023, o município havia anunciado convênio de R$ 68,5 milhões para a conclusão da obra.


Em 2025, a Prefeitura também informou o recebimento de aproximadamente R$ 9 milhões destinados à saúde e utilizados no contexto do andamento do Hospital Irmã Benigna.


Tudo isso demonstra que existe investimento.


Mas existe uma diferença brutal entre investir em estrutura e entregar atendimento.


Hospital anunciado não atende paciente.


AME inaugurado não resolve fila sozinho.


UBS bonita não substitui médico especialista.


E placa de inauguração não consulta criança.


A CIDADE DAS PRAÇAS OU A CIDADE DAS FILAS?


Enquanto isso, Cianorte continua recebendo anúncios de grandes obras, revitalizações, praças, parques e projetos urbanos.


Nada disso é ilegítimo.


Uma cidade precisa de lazer, urbanismo, cultura e espaços públicos.


Mas existe uma pergunta que precisa ser feita sempre que o dinheiro público entra em discussão:


qual é a prioridade?


O Portal Bisbilhoteiro também questiona o anúncio de uma licitação de Natal que prevê até R$ 4,5 milhões, conforme notícia publicada em outubro de 2026. O valor citado é teto de contratação, não necessariamente o valor final que será efetivamente gasto.


E é justamente por isso que a comparação incomoda.


De um lado, milhões para projetos, decoração e embelezamento da cidade.


Do outro, centenas de crianças esperando mais de um ano por um especialista.

A questão não é ser contra o Natal.


Não é ser contra praça.


Não é ser contra parque.


É perguntar:


qual é a ordem de prioridade de uma administração pública?


A FANTASIA DA GESTÃO ESPETACULAR


É aqui que chegamos ao título desta reportagem.


A fantasia da gestão municipal.


Porque existe a Cianorte apresentada nas redes sociais.


A Cianorte das obras.


A Cianorte da transformação.


A Cianorte das inaugurações.


A Cianorte dos discursos.


E existe a Cianorte que aparece quando o cidadão abre o Portal da Transparência.

São duas cidades diferentes?


Ou estamos diante de uma mesma cidade, onde a propaganda consegue esconder temporariamente aquilo que a fila revela diariamente?


A administração pode discordar do Portal Bisbilhoteiro.


Pode contestar os números.


Pode dizer que o sistema possui inconsistências.


Pode explicar que existem diferentes classificações, encaminhamentos, pactuações regionais ou formas de contabilização.


E deve explicar.


Mas não pode simplesmente ignorar.


SE O PORTAL ESTÁ ERRADO, CORRIJAM. SE ESTÁ CERTO, RESOLVAM.


Esta é talvez a frase mais importante desta reportagem:


SE O PORTAL DA TRANSPARÊNCIA ESTÁ ERRADO, CORRIJAM.


SE ESTÁ CERTO, RESOLVAM.


O que não pode acontecer é a população ficar no meio do caminho.


Se há erro tecnológico, que se identifique o responsável, corrija-se o sistema e publique-se uma explicação transparente.


Se os dados são verdadeiros, que a Secretaria de Saúde apresente um plano emergencial.


Se não existem neuropediatras suficientes em Cianorte, que o município explique:


por que não contratar?


por que não credenciar?


por que não ampliar a oferta?


por que não buscar atendimento regional?


por que não comprar serviços especializados?


por que não estabelecer convênios?


por que não utilizar outras cidades da região?


Qual é exatamente o obstáculo?


Porque uma coisa é afirmar que existe dificuldade para contratar especialistas.

Outra, muito diferente, é simplesmente aceitar que uma criança espere mais de um ano por uma consulta especializada como se isso fosse normal.


A SECRETARIA DE SAÚDE PRECISA RESPONDER


O Portal Bisbilhoteiro deixa aqui perguntas objetivas para a Secretaria Municipal de Saúde de Cianorte:


  1. Os 769 pacientes da fila de Neurologia Infantil são reais?

  2. O tempo médio de 393 dias está correto?

  3. Quantas crianças foram atendidas por neuropediatras nos últimos 12 meses?

  4. Quantos neuropediatras estão atualmente contratados ou credenciados pelo município?

  5. Quantas consultas de neuropediatria são ofertadas mensalmente?

  6. Quantas crianças foram encaminhadas para atendimento fora de Cianorte?

  7. Existe contratação emergencial ou plano para reduzir essa fila?

  8. Qual é a previsão para zerar ou reduzir significativamente a fila?

  9. Os números atuais do Portal da Transparência são confiáveis?

  10. Quais medidas foram efetivamente adotadas desde a reunião realizada em agosto de 2025, quando o problema do sistema foi apresentado?


E há uma pergunta maior:


O que a Prefeitura pretende fazer pelas 769 crianças que aparecem hoje nessa fila?


NÃO É ATAQUE. É FISCALIZAÇÃO.


O Portal Bisbilhoteiro não está afirmando que cada número do sistema representa exatamente a realidade individual de cada paciente.


Pelo contrário.


É justamente por isso que estamos cobrando explicações.


A própria Prefeitura já reconheceu anteriormente problemas no sistema de informações.


Então, diante dos novos números, a administração tem duas escolhas:


explicar tecnicamente os dados ou confirmar que eles representam a realidade.

O que não pode acontecer é silêncio.


Porque quando o assunto é criança, saúde e dinheiro público, silêncio não é resposta.


CIANORTE NÃO PRECISA DE MAIS FANTASIA. PRECISA DE RESULTADO.


Uma gestão pública não pode ser avaliada somente pela quantidade de obras anunciadas.


Não pode ser avaliada pelo número de vídeos publicados.


Não pode ser avaliada pela quantidade de discursos.


Não pode ser avaliada pela estética da cidade.


Ela precisa ser avaliada pela vida real.


E a vida real está mostrando uma fila.


Uma fila de idosos.


Uma fila de pacientes neurológicos.


Uma fila de consultas.


Uma fila de procedimentos.


E agora, segundo o próprio sistema municipal, uma fila de 769 crianças esperando por neuropediatria.


Se o dado estiver correto, é uma situação que exige resposta imediata.


Se o dado estiver errado, exige correção imediata.


Nos dois casos, existe um problema.


E alguém precisa assumir a responsabilidade de explicar.


PORQUE CRIANÇA NÃO PODE ESPERAR A PRÓXIMA ELEIÇÃO


Uma criança não pode esperar a próxima gestão.


Não pode esperar a próxima licitação.


Não pode esperar a próxima inauguração.


Não pode esperar o próximo vídeo.


Não pode esperar a próxima promessa.


E muito menos pode esperar 393 dias para descobrir quando terá acesso a um especialista.


O ECA não fala em prioridade absoluta apenas quando é conveniente.


A Constituição também não.


O direito à saúde não é peça publicitária.


É direito.


E é dever do Poder Público.


Por isso, esta reportagem não termina com uma acusação.


Termina com uma cobrança.


Prefeitura de Cianorte: expliquem os números.


Secretaria de Saúde: expliquem a fila.


Conselho Tutelar: expliquem o que está sendo feito para proteger essas crianças.


Câmara Municipal: fiscalizem.


Gestão municipal: apresentem resultados.


Porque, no final das contas, não importa quantas vezes alguém diga que a gestão é espetacular.


A fila não assiste ao vídeo.


A criança não vive de propaganda.


E o cidadão não pode ser obrigado a escolher entre acreditar na publicidade ou acreditar no próprio Portal da Transparência.



A VERDADE QUE A FILA REVELA


769 crianças.


393 dias de espera média.


Mais de um ano.


Neuropediatria.


Se esses números estiverem certos, Cianorte tem um problema grave de saúde pública que não pode mais ser tratado como detalhe administrativo.


Se estiverem errados, Cianorte tem um problema igualmente grave de transparência e informação pública

.

Em qualquer uma das duas hipóteses, alguém precisa explicar.

E rápido.


DOCUMENTAÇÃO


Os números referentes às filas de atendimento citados nesta reportagem foram extraídos dos prints do Portal da Transparência da Saúde de Cianorte fornecidos à redação, nos quais aparecem, entre outros dados, 769 pacientes em Neurologia Infantil e tempo médio de espera de 393 dias.


O Portal oficial é o sistema de transparência do Município de Cianorte. Portal da Transparência de Cianorte


O Portal Bisbilhoteiro permanece aberto ao contraditório e publica eventual manifestação da Prefeitura, da Secretaria Municipal de Saúde e do Conselho Tutelar de Cianorte.

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