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A teoria psicológica que sustenta a polarização entre Flávio e Lula.

Se recuarmos alguns meses, seria muito natural considerar a direita com amplo favoritismo nas eleições majoritárias nacionais, mas, com a profusão de erros que se seguiu, agora, no fim de julho de 26, ainda que as eleições permaneçam em aberto, o atual presidente Lula desponta na frente de todas as pesquisas.



O erro inicial da direita foi a decisão fisiológica do ex-presidente Jair Bolsonaro que colocou, de novo, a família à frente da política, atropelou a candidatura natural, e favorita, do governador paulista Tarcísio de Freitas e impôs o nome de seu filho Flávio, abandonando inclusive outros nomes da direita testados nas urnas e nos cargos e, naturalmente, com muito mais aptidão ao cargo que o ungido sustentado pelo sobrenome.


Desde então se sucedem uma série de trapalhadas, quase todas decorrentes da tibieza e contradições do candidato. Com um passado nebuloso que inclui rachadinhas, compras de imóveis em dinheiro vivo, relação com milicianos, condecorações até à nomes ligados ao sindicato do crime, relações “estranhas” com a parcela criminosa da política carioca, Flávio conseguiu ampliar o desgaste com sua amizade e gentilezas com Daniel Vorcaro (Banco Master) e até mesmo fotos em confraternização com o famoso sicário de Daniel. É muita confusão e pouca explicação para quem quer ser presidente da República.


Talvez ainda mais grave, as seguidas interações com o governo americano, com a possível participação nas taxações que vão penalizar a economia brasileira, a inaceitável subserviência e idolatria ao presidente americano Donald Trump que contribuem para a surpreendente rejeição, maior até do que do petista Lula, que soma a natural herança do pai, que entrega todo o pacote, votos e rejeição, mas potencializada pela inabilidade do candidato.


Em situação normal de temperatura e pressão, isto seria definitivo, impondo uma sentença cruel nas urnas, mas, como o adversário é petista, a disputa segue em aberto.


A questão é que no polo da esquerda, a situação também não é confortável, ainda que muito melhor que as projeções do ano passado. Atentam contra o favoritismo de Lula uma série de fatores, amplamente conhecidos do eleitor brasileiro. Na memória de grande parcela do eleitor, e não entro no mérito, a associação entre PT e corrupção é automática, consolidada pelas intensas disputas anteriores e, logicamente, pelo imenso rol de escândalos que se acumulam desde a primeira gestão, com a ressalva que os últimos e mais impactantes no curto prazo, escândalo do INSS e Banco Master, tem, com muito mais ênfase, as impressões digitais de lideranças da direita e, principalmente, do Centrão.


A economia, tradicional fator de definição de voto, emite sinais contraditórios para a leitura popular. Ainda que as taxas de emprego estejam no teto, a inflação abaixo do teto da meta, crescimento no trimestre no pódio mundial, talvez por culpa do juro excessivo e da limitada circulação de dinheiro, o bolso da classe média e baixa não reconhece a reação da economia e a sensação é próxima de um cenário de pré-recessão, com endividamento elevado e com os rendimentos ainda sem vencer o mês, prejudicando um eventual ganho eleitoral com os índices financeiros.


O quadro se agrava porque os macros fatores econômicos externos apontem para um cenário ainda pior no segundo semestre, com a possibilidade do barril de petróleo sustentar a marca de cem dólares, que deve gerar uma pressão sobre os preços internos, aliada aos desgastes da taxação americana, indicada em 29 de julho, que tem priorizado respostas eleitoralmente satisfatórias em detrimento de um diálogo e medidas atenuantes para a crise entre os dois países. Enquanto as pesquisas qualitativas continuarem apontando para o desgaste de Flávio e aprovação da postura altiva de Lula, ideia central de todas as suas intervenções, as respostas seguirão a prioridade eleitoral.


Como item mais sensível para observadores lúcidos, a gestão Lula falhou tristemente na missão imprescindível de combater o déficit fiscal que segue em lenta ascensão e deve sofrer nova inflexão positiva com a sequência do “pacote de bondades”, componente sempre presente no período que antecede as eleições, e que provoca calafrios em economistas ao avaliarem o cenário de 2027 e 2028.


Ainda resta a questão da idade e da saúde de Lula que, por mais que sinais de vitalidade sejam exibidos, é sempre uma preocupação no Brasil, onde as vitórias eleitorais são troféus individuais, com pouca relevância de equipes ou partidos, como se observa no discurso de ambos, Flávio e Lula, quase que integralmente focados no personalismo, com raríssimas chances do eleitor identificar ideias ou projetos que justifiquem a opção eleitoral. Querem o voto porque são o “Lula” ou o “Bolsonaro” da vez e seus cientistas políticos sabem que a paixão define o voto e a razão estará sempre em segundo plano e isto implica em priorizar o discurso emocional, exaltando o medo e urgência em salvar a Pátria, cientes que será a rejeição o fator de definição das eleições.


Seria necessário a ajuda de elementos da psicologia para entender a inviabilidade da terceira via. O brasileiro está preso na armadilha da polarização, profundamente envolvido com narrativas, de ambos os sinais. Mudar de opinião, migrar para outra opção eleitoral é entendido pelos mecanismos cerebrais como uma traição, uma ameaça às relações pessoais e uma quebra do sentimento de pertencimento ao seu grupo social. Abandonar um dos polos para outro nome, é quase um “divórcio” social, implicando em profunda desaprovação de seu próprio grupo, como um soldado que abandona o campo de batalha e, até que se prove o contrário, não há argumento no arsenal disponível no marketing político de instrumento que favoreça esta migração de voto, exceto por um profundo desgaste ocasionado pelo próprio candidato, algo improvável, mas não impossível quando se avalia o histórico recente dos candidatos.


Ainda nem começou oficialmente a disputa eleitoral, mas as perspectivas são péssimas. A valorização das pretensas qualidades pessoais e o uso de estratégias para otimizar a rejeição do adversário serão as armas prioritárias do marketing, sem espaço para projetos, exceto o mínimo de exposição, seguindo a lógica nacional de que ideias não somam, mas devem ser circuladas com a preocupação de evitar polêmicas ou contestações, só justificáveis para quem está correndo por fora do jogo.


Objetivamente, esperava muito mais destas eleições, mas vejo que, de novo, a opção é a escolha do menor dano, face às evidentes limitações das únicas duas opções com viabilidade. Infelizmente, é justo que cada um torça por seu escolhido, mas seria mais útil que optasse pelas orações.


O Brasil, mais uma vez, não elegerá um salvador da Pátria, mas, desde já, deve pedir que Deus exerça sua cidadania e proteja seu país na próxima gestão. Sem dúvida, é a alternativa mais segura.

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