A REPÚBLICA DOS ASPONES
- Marcio Nolasco

- há 16 horas
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Como cabos eleitorais pagos pelo contribuinte se espalham pelo interior do Paraná em ano eleitoral
Editorial investigativo
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP

Existe uma engrenagem silenciosa funcionando dentro da máquina pública brasileira.
Ela não aparece nos discursos oficiais.Não está nos programas de governo. E raramente é mencionada nas campanhas eleitorais.
Mas ela existe.
E custa caro.
Muito caro.
No interior do Paraná, especialmente em regiões como Cianorte, Umuarama, Campo Mourão, Tapejara, Cidade Gaúcha, São Tomé e Rondon, ela ganha um nome popular que circula nos corredores da política há décadas:
ASPONE
Uma palavra que nasceu da indignação popular e virou gíria política.
Significa, na tradução crua e direta dos bastidores do poder:
“Assessor de coisa nenhuma.”
Pode parecer exagero. Não, a realidade muitas vezes não está muito distante disso.

A tropa invisível do sistema político
Todo governo possui cargos de confiança.
Isso é normal.
Secretários precisam de assessores.Departamentos precisam de coordenação.
O problema começa quando os cargos deixam de servir ao Estado e passam a servir exclusivamente à política eleitoral.
É aí que surgem os aspones.
Figuras conhecidas nos bastidores:
ex-vereadores derrotados
ex-prefeitos sem mandato
radialistas aliados
cabos eleitorais antigos
lideranças políticas locais
Pessoas que, de repente, aparecem nomeadas em secretarias estaduais, autarquias ou órgãos públicos.
Com salários que variam entre:
R$ 6 mil e R$ 15 mil por mês.
Dinheiro público.
Pago religiosamente todos os meses pelo contribuinte.
Ano eleitoral: quando a máquina acorda
Em anos eleitorais, essa estrutura ganha vida.
É quando os aspones saem da sombra.
Eles aparecem em reuniões políticas.Circulam em eventos.Visitam prefeitos, vereadores e lideranças locais.
Estão sempre presentes onde há voto.
Porque, na prática, muitos deles exercem uma função muito clara:
operadores políticos de deputados e caciques partidários.
O cargo público vira instrumento político.
O salário público vira combustível eleitoral.
E o contribuinte — como sempre — paga a conta.

Quanto custa essa festa
A matemática é simples.
Se um único cargo comissionado custa entre R$ 6 mil e R$ 15 mil por mês, então o custo anual de apenas um servidor pode variar de:
R$ 72 mil
até R$ 180 mil por ano
Agora multiplique isso por dezenas de nomeações políticas espalhadas pelo interior.
O resultado pode ultrapassar facilmente milhões de reais por ano.
Somente na região noroeste do Paraná, estimativas informais indicam que os custos dessas estruturas podem ultrapassar R$ 10 milhões anuais.
Em Cianorte e cidades da região noroeste, por exemplo, observadores da política local apontam que o conjunto de cargos comissionados ligados a articulações políticas pode chegar perto de R$ 1 milhão por ano. Poderíamos aqui dar nomes aos nossos ASPONES do Noroeste mais nosso problema não é com eles e sim com o dinheiro público e essa conta paga pelo povo...
Dinheiro suficiente para custear:
equipes médicas
programas sociais
melhorias em infraestrutura
investimentos em educação
Mas que muitas vezes acaba financiando articulação política profissionalizada.
A Constituição que poucos respeitam
A Constituição brasileira não deixa margem para dúvidas.
O Artigo 37 da Constituição Federal determina que a administração pública deve obedecer a cinco princípios básicos:
LegalidadeImpessoalidadeMoralidadePublicidadeEficiência
Esse conjunto de regras não é apenas teoria jurídica.
É o que deveria impedir que a máquina pública fosse transformada em instrumento de poder político.
Quando cargos são utilizados para recompensar aliados ou operar campanhas eleitorais, especialistas em direito administrativo apontam um conceito grave:
desvio de finalidade.
E o desvio de finalidade pode configurar improbidade administrativa.
A Lei nº 8.429/1992, conhecida como Lei de Improbidade Administrativa, determina que constitui infração grave:
“violar os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade e lealdade às instituições.”
Ou seja:
o cargo público existe para servir à população.
Não para servir a padrinhos políticos.

O uso eleitoral da máquina
A situação se torna ainda mais sensível em período eleitoral.
A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) proíbe o uso da estrutura pública para beneficiar candidatos.
Entre as práticas vedadas estão:
utilização de servidores públicos em campanha
uso de estruturas administrativas para favorecer candidaturas
utilização indireta de recursos públicos para fins eleitorais
E então surge a pergunta que ninguém quer responder em voz alta:
quantos desses cargos existem apenas para manter redes políticas funcionando durante as eleições?
A cultura da conveniência
No interior, a política funciona muitas vezes em um sistema de favores.
Deputados indicam cargos.Prefeitos oferecem apoio.Lideranças locais mobilizam votos.
É um ciclo antigo.
Um sistema onde o poder político é mantido por uma rede de dependências.
Os aspones são apenas uma peça dessa engrenagem.
Mas uma peça cara.
E paga com dinheiro público.
O silêncio conveniente
Apesar de amplamente comentado nos bastidores, o assunto raramente ganha destaque público.
Por quê?
Porque mexe com interesses poderosos.
Denunciar essas estruturas significa confrontar:
deputados
grupos políticos
estruturas partidárias
Em cidades pequenas, isso pode significar isolamento político ou retaliação institucional.
Por isso, muitas vezes, o tema permanece apenas no campo da indignação silenciosa.

A pergunta que precisa ser feita
Enquanto essa engrenagem gira silenciosamente, a população enfrenta problemas bem reais:
hospitais sobrecarregados
estradas deterioradas
serviços públicos insuficientes
E então surge a pergunta inevitável:
quantos serviços públicos poderiam ser melhorados com o dinheiro que hoje sustenta essa rede política?
Chegou a hora de dizer basta
A democracia exige transparência.
Exige responsabilidade.
E exige respeito com o dinheiro público.
O contribuinte brasileiro já paga uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo.
Ele não deveria ser obrigado a financiar redes de cabos eleitorais disfarçadas de cargos públicos.
A política precisa de assessores técnicos.
Precisa de profissionais competentes.
Mas o que ela não pode continuar sustentando é uma estrutura paralela de conveniência política paga pelo bolso da população.
Porque, no final das contas, existe uma verdade simples que nenhum discurso consegue esconder:
todo aspone custa caro.
E quem paga essa conta — sempre — é o cidadão.
















