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A REPÚBLICA DOS ASPONES

Como cabos eleitorais pagos pelo contribuinte se espalham pelo interior do Paraná em ano eleitoral


Editorial investigativo

Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP



Existe uma engrenagem silenciosa funcionando dentro da máquina pública brasileira.


Ela não aparece nos discursos oficiais.Não está nos programas de governo. E raramente é mencionada nas campanhas eleitorais.


Mas ela existe.


E custa caro.


Muito caro.


No interior do Paraná, especialmente em regiões como Cianorte, Umuarama, Campo Mourão, Tapejara, Cidade Gaúcha, São Tomé e Rondon, ela ganha um nome popular que circula nos corredores da política há décadas:


ASPONE


Uma palavra que nasceu da indignação popular e virou gíria política.


Significa, na tradução crua e direta dos bastidores do poder:


“Assessor de coisa nenhuma.”


Pode parecer exagero. Não, a realidade muitas vezes não está muito distante disso.



A tropa invisível do sistema político


Todo governo possui cargos de confiança.


Isso é normal.


Secretários precisam de assessores.Departamentos precisam de coordenação.


O problema começa quando os cargos deixam de servir ao Estado e passam a servir exclusivamente à política eleitoral.


É aí que surgem os aspones.


Figuras conhecidas nos bastidores:


  • ex-vereadores derrotados

  • ex-prefeitos sem mandato

  • radialistas aliados

  • cabos eleitorais antigos

  • lideranças políticas locais


Pessoas que, de repente, aparecem nomeadas em secretarias estaduais, autarquias ou órgãos públicos.


Com salários que variam entre:


R$ 6 mil e R$ 15 mil por mês.


Dinheiro público.


Pago religiosamente todos os meses pelo contribuinte.


Ano eleitoral: quando a máquina acorda


Em anos eleitorais, essa estrutura ganha vida.


É quando os aspones saem da sombra.


Eles aparecem em reuniões políticas.Circulam em eventos.Visitam prefeitos, vereadores e lideranças locais.


Estão sempre presentes onde há voto.


Porque, na prática, muitos deles exercem uma função muito clara:


operadores políticos de deputados e caciques partidários.


O cargo público vira instrumento político.


O salário público vira combustível eleitoral.


E o contribuinte — como sempre — paga a conta.



Quanto custa essa festa


A matemática é simples.


Se um único cargo comissionado custa entre R$ 6 mil e R$ 15 mil por mês, então o custo anual de apenas um servidor pode variar de:


  • R$ 72 mil

  • até R$ 180 mil por ano


Agora multiplique isso por dezenas de nomeações políticas espalhadas pelo interior.


O resultado pode ultrapassar facilmente milhões de reais por ano.


Somente na região noroeste do Paraná, estimativas informais indicam que os custos dessas estruturas podem ultrapassar R$ 10 milhões anuais.


Em Cianorte e cidades da região noroeste, por exemplo, observadores da política local apontam que o conjunto de cargos comissionados ligados a articulações políticas pode chegar perto de R$ 1 milhão por ano. Poderíamos aqui dar nomes aos nossos ASPONES do Noroeste mais nosso problema não é com eles e sim com o dinheiro público e essa conta paga pelo povo...


Dinheiro suficiente para custear:


  • equipes médicas

  • programas sociais

  • melhorias em infraestrutura

  • investimentos em educação


Mas que muitas vezes acaba financiando articulação política profissionalizada.


A Constituição que poucos respeitam


A Constituição brasileira não deixa margem para dúvidas.


O Artigo 37 da Constituição Federal determina que a administração pública deve obedecer a cinco princípios básicos:


LegalidadeImpessoalidadeMoralidadePublicidadeEficiência


Esse conjunto de regras não é apenas teoria jurídica.


É o que deveria impedir que a máquina pública fosse transformada em instrumento de poder político.


Quando cargos são utilizados para recompensar aliados ou operar campanhas eleitorais, especialistas em direito administrativo apontam um conceito grave:


desvio de finalidade.


E o desvio de finalidade pode configurar improbidade administrativa.


A Lei nº 8.429/1992, conhecida como Lei de Improbidade Administrativa, determina que constitui infração grave:


“violar os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade e lealdade às instituições.”

Ou seja:


o cargo público existe para servir à população.


Não para servir a padrinhos políticos.



O uso eleitoral da máquina


A situação se torna ainda mais sensível em período eleitoral.


A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) proíbe o uso da estrutura pública para beneficiar candidatos.


Entre as práticas vedadas estão:


  • utilização de servidores públicos em campanha

  • uso de estruturas administrativas para favorecer candidaturas

  • utilização indireta de recursos públicos para fins eleitorais


E então surge a pergunta que ninguém quer responder em voz alta:


quantos desses cargos existem apenas para manter redes políticas funcionando durante as eleições?


A cultura da conveniência


No interior, a política funciona muitas vezes em um sistema de favores.


Deputados indicam cargos.Prefeitos oferecem apoio.Lideranças locais mobilizam votos.


É um ciclo antigo.


Um sistema onde o poder político é mantido por uma rede de dependências.


Os aspones são apenas uma peça dessa engrenagem.


Mas uma peça cara.


E paga com dinheiro público.


O silêncio conveniente


Apesar de amplamente comentado nos bastidores, o assunto raramente ganha destaque público.


Por quê?


Porque mexe com interesses poderosos.


Denunciar essas estruturas significa confrontar:


  • deputados

  • grupos políticos

  • estruturas partidárias


Em cidades pequenas, isso pode significar isolamento político ou retaliação institucional.


Por isso, muitas vezes, o tema permanece apenas no campo da indignação silenciosa.



A pergunta que precisa ser feita


Enquanto essa engrenagem gira silenciosamente, a população enfrenta problemas bem reais:


  • hospitais sobrecarregados

  • estradas deterioradas

  • serviços públicos insuficientes


E então surge a pergunta inevitável:


quantos serviços públicos poderiam ser melhorados com o dinheiro que hoje sustenta essa rede política?


Chegou a hora de dizer basta


A democracia exige transparência.


Exige responsabilidade.


E exige respeito com o dinheiro público.


O contribuinte brasileiro já paga uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo.


Ele não deveria ser obrigado a financiar redes de cabos eleitorais disfarçadas de cargos públicos.


A política precisa de assessores técnicos.


Precisa de profissionais competentes.


Mas o que ela não pode continuar sustentando é uma estrutura paralela de conveniência política paga pelo bolso da população.


Porque, no final das contas, existe uma verdade simples que nenhum discurso consegue esconder:


todo aspone custa caro.


E quem paga essa conta — sempre — é o cidadão.

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Charge - Nolasco

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