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A REMUNERAÇÃO QUE MOVE A EMPRESA

Por: Kaio Feroldi Motta.

Administrador, Especialista e Mestre em Organizações & Empreendedorismo.

 

À primeira vista, o universo corporativo pode parecer uma engrenagem fria, movida a balanços, metas e KPIs[1]. A que prioriza a lógica sobre as emoções é a que tradicionalmente dominou a administração e as organizações durante décadas no século XX (algo que estudei muito nos anos de faculdade, nas disciplinas de TGA – Teoria Geral da Administração e Administração da Produção). Contudo, em pleno século XXI, os livros (e a realidade empresarial) nos ensina que a miopia estratégica pode ignorar um motor fundamental para qualquer empresa, de qualquer porte e ramo de atividade: a energia humana. Ainda que o foco em resultados seja vital, ele não pode ser o único balizador (do contrário, os fins justificariam os meios, fossem eles quais fossem). A verdadeira sustentabilidade e crescimento empresarial dependem da capacidade de reconhecer que a força de trabalho é composta por indivíduos com sentimentos, insights e uma necessidade intrínseca de pertencimento. O fator humano não é um obstáculo à eficiência; é, ironicamente, o que a torna possível (vi isso nas disciplinas de Psicologia Organizacional, Antropologia e Sociologia, e vi também na prática, nos meus 15 anos de atuação em empresas).


[1] Key Performance Indicator, ou Indicador-Chave de Desempenho, são indicadores utilizados para avaliar o desempenho de um processo ou negócio em relação a metas e objetivos específicos.

 

Obviamente que um salário justo acompanhado de alguns benefícios são pilares básicos da relação empregatícia, cobrindo as necessidades materiais e representando o valor em si do trabalho. No entanto, sua capacidade de gerar um engajamento duradouro é limitada. Depois de um certo tempo, o salário por si perde o poder de reter ou inspirar o colaborador insatisfeito no dia a dia (e engana-se quem pense que dar um aumento resolve o problema; isso é tratar o sintoma, e não a causa do problema). A lealdade e o esforço extra, aqueles que impulsionam a inovação e superam crises (o que faz o funcionário “vestir a camisa”) não estão vinculados ao fator monetário; são conquistados. O ‘X’ da questão está em um ambiente que nutra o profissional em sua totalidade, não apenas em sua função, mas no conjunto como um todo.

 

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Um ambiente que silencia as emoções, que amordaça o feeling e trata o profissional como um mero recurso, pavimenta o caminho para a estrada do outro emprego. O desinteresse, a apatia e o famoso "quiet quitting" (desligamento silencioso) são sintomas claros dessa desconexão. Quando o colaborador percebe que a empresa não dá ouvidos a ele, não aceita suas ideias (sequer se dispõe a ouvi-las), não valoriza seu bem-estar e sua individualidade, o pedido de demissão sai do campo da possibilidade e entra na esfera da temporalidade (se torna questão de tempo) e, quando isso acontece, o aumento salarial não vai resolver (e, se o funcionário aceitar continuar, em poucos meses esse descontentamento voltará a acontecer, uma vez que foi tratado o sintoma – o desânimo – e não a causa – a raiz do problema). Além do custo de turnover (rotatividade), a perda de talentos leva consigo o capital intelectual, a memória da empresa e, o mais importante, a energia que impulsiona seu crescimento.

 

Não estou falando que o salário não seja importante, mas olhar apenas para ele é que é, em si, o erro. Uma sondagem inédita feita pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) [https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202408/sondagem-inedita-feita-pelo-mte-aponta-principais-motivos-para-pedidos-de-demissao] em 2024 revelou que o baixo salário é um dos motivos de pedidos de demissão (32,5%), mas a maior parte das demais questões (não reconhecimento, falta de ética, relacionamento com a chefia       e rigidez) totalizaram mais de 80%!!! O que, então, retém e motiva? A resposta está no soft power[2] da organização: o clima do ambiente de trabalho e a cultura organizacional. É o bom humor do dia a dia, a sensação de segurança psicológica para expressar ideias e discordâncias; é o conjunto de valores institucionais que guiam as ações, definindo o "como fazemos as coisas aqui". Quando uma empresa possui isso claro e bem definido (como ética, respeito e transparência) e os pratica de fato, o colaborador sente que faz parte de algo maior e, assim, a conexão emocional com o propósito da empresa é gerada e fortalecida, transformando o dever em propósito, a obrigação em ação, e a função em missão.


[2] Capacidade de influenciar positivamente outras pessoas através da atração, em vez de coerção ou incentivos financeiros. Isso se baseia na reputação, valores, cultura e propósito da empresa, que geram uma conexão emocional e de confiança.

 

É justamente o fator "humano", aquele que pulsa e sente, que fornece o diferencial em momentos críticos. O feeling, a intuição baseada em anos de teoria e prática (estudo e experiência) e na conexão emocional com o negócio, muitas vezes, é o que guia as tomadas de decisões mais assertivas, aquelas que os indicadores frios jamais capturariam. Organizações que abraçam a totalidade de seus colaboradores, permitindo que a energia flua e criam um ambiente de trabalho onde o funcionário é mais que um empregado, mas é, de fato, um colaborador, colhem resultados mais criativos, inovadores e sustentáveis. O indicador de desempenho mais poderoso que qualquer KPI de curto prazo é a admiração pelo local de trabalho.

 

O novo paradigma do mundo corporativo exige uma mudança de foco: do capital financeiro para o capital humano. Empresas que investem ativamente em um clima positivo, em uma cultura de inclusão e em valores que ressoam com a dignidade humana não estão apenas sendo éticas; estão sendo inteligentes! Constroem um ambiente onde os melhores talentos querem permanecer, onde a motivação floresce e onde a busca por resultados é um subproduto natural de um time que se sente valorizado e engajado com uma causa.

 

O futuro da empresa depende de seu(s) dono(s), diretor(es) e/ou gestor(es) entender(em) que o que impulsiona uma organização vai muito além do fator monetário.

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