A rede Vorcaro: como o dinheiro do Banco Master atravessou o Planalto, o Congresso e o Supremo
- Marcio Nolasco

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BISBILHOTEIRO
INVESTIGAÇÃO POLÍTICA
Mensagens, áudios e depoimentos reunidos pela Polícia Federal desenham o mapa de um banqueiro que financiou, hospedou e telefonou para quase todo o espectro político brasileiro — de ministros do STF a candidatos à Presidência
Por Marcio Nolasco, analista de políticas públicas · 3 de setembro de 2026

Há um número que resume o tamanho do estrago: R$ 47 bilhões. É o buraco que a quebra do Banco Master deixou no Fundo Garantidor de Créditos, o mecanismo que deveria proteger os depósitos de poupadores comuns. Mas o rombo financeiro é só a ponta visível de um iceberg que a Polícia Federal vem escavando desde novembro de 2025 — e que, mensagem após mensagem extraída do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, revelou algo mais perturbador do que uma fraude bancária: uma classe política inteira, de direita e de esquerda, circulando pelo mesmo cofre.
A fuga que não deu certo
A história pública do escândalo começa na noite de 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi detido no aeroporto de Guarulhos tentando embarcar num jato particular com destino a Dubai, com escala em Malta. No bolso, um celular. Dentro dele, uma mensagem enviada horas antes por um contato salvo como "Moraes" perguntava se havia "novidade" e se era possível "bloquear" alguma coisa — sem que se saiba o que, porque a conversa rodava em modo de visualização única, que apaga o texto assim que é lido. O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes nega ter trocado essas mensagens. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master.

A Polícia Federal batizou a apuração de Operação Compliance Zero e, meses depois, descreveu uma organização criminosa dividida em quatro frentes: uma para fraudar o sistema financeiro, uma para cooptar servidores do Banco Central, uma para lavar dinheiro por meio de empresas de fachada e uma quarta, mais sombria, dedicada a vigiar e intimidar opositores, jornalistas e autoridades — um núcleo que os investigadores apelidaram de "The Crew".
O ministro que investiga e o ministro que foi jantar
Se há um símbolo da promiscuidade entre o Master e o poder, é a dobradinha Moraes–Mendonça. André Mendonça, ministro do STF, é hoje o relator do inquérito que apura o próprio banco — e foi ele quem decidiu tirar o sigilo do relatório que expôs as mensagens entre Vorcaro e Moraes. Um gesto de transparência, à primeira vista. Só que a reportagem revelou, dias depois, que o próprio Mendonça se reuniu pessoalmente com Vorcaro em março de 2025, num encontro que a defesa do ministro descreve como pedido do banqueiro e sem relação com o caso do Banco Central. Áudios de um advogado que intermediou o encontro sugerem outra versão: que Mendonça já sabia "da situação do Banco Central toda" antes mesmo de sentar à mesa.

O detalhe que incomoda quem acompanha o processo é o calendário: o encontro aconteceu duas semanas antes de o Banco de Brasília anunciar a compra de 58% do capital social do Master, negócio de cerca de R$ 2 bilhões que dependia justamente da boa vontade regulatória do Banco Central. Passado um ano e meio, Mendonça também autorizou, em agosto, um depoimento reservado de Vorcaro em seu próprio gabinete — marcado, por coincidência ou não, para a mesma manhã em que o banqueiro deveria depor à Polícia Federal por videochamada. Vorcaro simplesmente não entrou na chamada da PF, alegando falha técnica na unidade prisional.

Enquanto isso, Alexandre de Moraes segue sendo citado não só pela mensagem apagada, mas por um contrato entre o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master — além de cartões da instituição emitidos para dois filhos do casal. O ministro nega irregularidades.
O filho do presidente e o fundo que quis comprar o banco
Do outro lado do espectro partidário, o nome que mais incomoda o Palácio do Planalto é Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O filho do presidente é hoje alvo de três inquéritos ligados à Operação Sem Desconto, que apura fraudes em descontos do INSS, depois que seu nome passou a aparecer repetidamente em mensagens de uma lobista próxima a ele, Roberta Luchsinger. Antes disso, Lulinha já havia atuado como consultor da Fictor, o grupo de investimentos que — na véspera da primeira prisão de Vorcaro — anunciou publicamente a intenção de comprar o Banco Master, negócio que nunca se concretizou e que terminou em recuperação judicial da própria Fictor, com dívidas acima de R$ 4,2 bilhões.

A defesa de Lulinha nega qualquer ilegalidade e afirma que ele já entregou ao STF dados bancários e fiscais completos. Mas o episódio deu munição política valiosa em ano eleitoral: adversários usam o caso para questionar a proximidade do núcleo familiar do presidente com o dinheiro de Vorcaro, enquanto aliados do Planalto devolvem a pergunta na direção da família Bolsonaro.
Os R$ 61 milhões do filme sobre o pai
E é aí que entra o capítulo mais cinematográfico — literalmente — do escândalo. Mensagens vazadas mostram o senador Flávio Bolsonaro pedindo a Vorcaro US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para financiar "Dark Horse", longa-metragem biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao menos US$ 10,6 milhões — R$ 61 milhões — teriam sido efetivamente transferidos ao longo de seis remessas entre fevereiro e maio de 2025. Flávio negou a informação assim que ela veio a público, chamando-a de mentira; horas depois, mudou o discurso e confirmou por escrito ter pedido o dinheiro, descrevendo o episódio como um patrocínio comum, "um filho procurando patrocínio" para o filme sobre o pai.
O problema é que a produtora responsável pelo filme nega publicamente ter recebido qualquer valor do banqueiro. E parte do dinheiro — cerca de US$ 2 milhões — não foi para o Brasil: seguiu para um fundo sediado no Texas, o Havengate Development Fund LP, que tem entre seus responsáveis legais o próprio advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto. A Polícia Federal investiga agora se a produção do filme funcionou como fachada para desviar recursos e se parte desse dinheiro serviu para bancar a estadia do deputado licenciado nos Estados Unidos, onde vive desde que deixou o Brasil. Os dois irmãos negam qualquer destinação irregular dos recursos.

O deputado dos áudios e o pastor no meio do caminho
Nikolas Ferreira também aparece na trama, embora em escala menor. Áudios divulgados na imprensa mostram o deputado pedindo a Vorcaro ajuda para viabilizar a venda de um "ativo minerário" em nome de um conhecido, além de uma mensagem em que se desculpa por ter criticado publicamente, sem saber de quem era, um evento jurídico realizado em Londres e patrocinado pelo Master — evento que reuniu ministros de tribunais superiores e o diretor-geral da Polícia Federal. Em outra conversa, revelada separadamente, o próprio Vorcaro comenta com um terceiro ter custeado "todos os voos" usados por Nikolas, sem detalhar quantos ou em que período. O deputado confirma os contatos, intermediados por um pastor, e o uso de aeronaves do banqueiro durante atos de campanha em 2022, mas nega ter recebido dinheiro ou fechado qualquer contrato com Vorcaro.

A lista não para: um mapa bipartidário do poder
O que torna o caso Master diferente de outros escândalos recentes é justamente a ausência de time. A apuração da CPMI do INSS reuniu mais de 200 pedidos de indiciamento, entre eles Vorcaro e Lulinha. O senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, é suspeito de ter recebido pagamentos mensais do banqueiro para atuar como uma espécie de braço legislativo do Master no Congresso — o que ele nega. O senador petista Jaques Wagner é investigado por suposto recebimento de vantagens indevidas, incluindo um apartamento em Salvador e R$ 3,5 milhões.
O ex-ministro Guido Mantega teria sido contratado para articulações políticas milionárias em nome do banco. Governadores de estados e partidos diferentes — Cláudio Castro, no Rio, Ronaldo Caiado, em Goiás, e Romeu Zema, em Minas — também entraram na mira da PF, seja por aplicações bilionárias de fundos de previdência estadual, seja por legislações sobre crédito consignado que teriam beneficiado produtos do Master. Outros ainda como Ratinho Junior do Paraná também com envolvimento com Daniel Vorcaro.
No Judiciário, além de Moraes e Mendonça, os ministros Dias Toffoli — relator anterior do caso — e Nunes Marques foram citados por conexões indiretas ou contratos envolvendo familiares. Nomes como o ex-presidente Michel Temer, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto e o então presidente do União Brasil também apareceram como beneficiários de recursos do banco.

E TEM MUITO MAIS
A cada dia surge o nome de algum “figurão” da República no entorno do dono do Master, o que demonstra o tamanho da influência de Daniel Vorcaro nesse meio
Numa conta de padaria, com um papel e uma caneta na mão se chega ao número de altas autoridades que, de uma maneira ou outra, está sob a influência de Daniel Vorcaro, o banqueiro controlador do Master. A cada dia surge o nome de algum “figurão” da República no seu entorno, o que não significa que tem relação com as acusações que o envolvem. Mas mostram o tamanho de sua influência.
Vorcaro, mesmo uma figura pública desconhecida, construiu uma teia relações importantes, que vão de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a políticos influentes no Congresso Nacional e também no Palácio do Planalto. O número de altas autoridades nesse rol de proximidade com Vorcaro ultrapassa, ao menos, duas dezenas, vinte nomes. Alguns deles:
Dias Toffoli – relator do caso Master no STF, avocou para si o inquérito, ofusca o trabalho da Polícia Federal e com mantém vínculo com um resort, que já teria sido de seus irmãos, onde recebeu empresários;
Alexandre de Moraes – a mulher do ministro, Viviane Barci, fez um contrato de R$ 131 milhões com o Master; o ministro estaria estimulando Toffoli a seguir como relator do caso, apesar de todo noticiário desfavorável; Agora se descobriu que os filhos de Morais tinham credito de 300 mil em cartões do Banco Master.
Ibaneis Rocha – o governador do Distrito Federal está envolvido nas investigações que apuram a venda do Master para o BRB, frustrada pelo Banco Central; é alvo de impeachment da oposição;
Cláudio Castro – operação da PF no Rio apura suspeitas de irregularidades no Rioprevidência, fundo de previdência do servidores do Estado; o presidente do fundo, Deivis Antunes, foi um dos alvos da ação e indicado pelo governador;
Ricardo Lewandowski – mesmo como ministro da Justiça, seu escritório atuou para o Banco Master, com uma pagamento mensal de R$ 250 mil; quando assumiu a pasta, ele deixou o escritório, administrado por sua mulher e filho;
Ciro Nogueira – o senador e presidente do Progressistas tem amizade com Vorcaro e chegou a articular no Congresso ampliação de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de pagamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que dá lastro para cobrir rombos dos bancos;
Jhonatan de Jesus – o ministro do TCU questionou a razão de o Banco Central liquidar o Master, depois de alvo de críticas, recuou; era deputado e chegou ao tribunal indicado pelo ex-presidente Arthur Lira, e foi aprovado pelo Congresso;
Guido Mantega – ex-ministro da Fazenda no governo do PT, Guido Mantega foi contratado pelo Master e chegou levar Vorcaro a uma reunião com o presidente Lula no final de 2024.
Outros nomes importantes da política que estão surgindo e citados nas relações do Master estão: o senador Jaques Wagner (indicou Lewandowski para o Master); Davi Alcolumbre (aliados de Alcolumbre conduziram o Amapá Previdência, que teve prejuízo de R$ 400 milhões com papéis do Master); Augusto Botelho (ex-secretário Nacional de Justiça, é advogado um envolvido no caso e viajou no jatinho com Toffoli para assistir a final da Libertadores, em Lima).
O presidente Lula recebeu Vorcaro no final de 2024, numa reunião no Palácio do Planalto e discutiu o assunto no final do ano passado com o ministro Fernando Haddad (Fazenda) e Dias Toffoli.
Também aparecem nessas relações de Vorcaro o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), o ministro Rui Costa (Casa Civil), Marco Aurélio Ribeira, o Marcola, chefe do gabinete pessoal de Lula.
A Polícia Federal já sinalizou que nem a apuração sobre o Banco Master nem a que envolve Lulinha devem ser concluídas antes das eleições de outubro — o que, na prática, garante que o escândalo continuará pautando a campanha presidencial até o segundo turno.
Vorcaro voltará a depor para PF e STF ? circulam informações — ainda não confirmadas oficialmente — de que o banqueiro estaria negociando um acordo de colaboração premiada envolvendo pessoas ligadas ao núcleo do governo atual. Se isso se confirmar, o capítulo mais explosivo da novela Master ainda está por vir.

Nota do editor: os fatos relatados nesta reportagem baseiam-se em apurações da Polícia Federal, da CPMI do INSS e em matérias publicadas por veículos como CNN Brasil, Agência Pública, Revista Fórum, Metrópoles, Bloomberg e The Intercept Brasil. Trata-se de investigações em andamento; todas as pessoas citadas têm o direito à presunção de inocência, e a maioria delas nega, formal ou publicamente, qualquer irregularidade.



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