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A Opção pelo Menos Ruim - Eleições 2026: Psicanálise, Antropologia e o Voto como Sintoma Coletivo

há 10 minutos
7 min de leitura

Uma leitura do imaginário eleitoral brasileiro às vésperas de 2026


Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP



O sintoma antes do diagnóstico


Há uma frase que se repete em rodas de conversa, grupos de família no WhatsApp e comentários de rede social conforme se aproxima o primeiro turno de 4 de outubro de 2026: "vou votar no menos ruim". A frase raramente vem acompanhada de entusiasmo. Vem acompanhada de resignação, de um encolher de ombros, às vezes de um pedido de desculpas antecipado — como se escolher um presidente da República tivesse deixado de ser um ato de adesão para se tornar um cálculo de contenção de danos.


O cenário que a cerca é conhecido: um presidente em exercício, Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição num ambiente de popularidade oscilante; um campo à direita fragmentado entre nomes como Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, entre outros; e uma sociedade que, desde a eleição de 2022 — decidida pela margem mais estreita da história do país —, não deixou de operar sob um regime de polarização afetiva intensa. Pesquisas recentes mostram um quadro de disputa acirrada e, mais do que isso, um desgaste generalizado da figura presidencial como objeto de esperança.


Este artigo não pretende arbitrar entre candidatos nem prever resultados. O objetivo é outro: tomar a frase "menos ruim" como um sintoma cultural e perguntar o que ela revela sobre os laços que nos unem — ou que deixaram de nos unir — como coletivo. Para isso, recorremos a três chaves de leitura que raramente conversam entre si nos noticiários, mas que juntas iluminam algo profundo: a psicanálise freudiana, a antropologia dos ritos e símbolos coletivos, e a psicologia social dos vínculos de grupo.


Freud: o líder como objeto perdido


Em Psicologia das massas e análise do Eu (1921), Freud propõe que um grupo só se constitui como tal quando seus integrantes compartilham um mesmo objeto colocado no lugar do Ideal do Eu — normalmente, a figura de um líder. Não é a semelhança entre as pessoas que as une primeiro; é a identificação recíproca que decorre de todas amarem, ou idealizarem, a mesma coisa. O líder funciona como um ponto de costura psíquica: ele autoriza, coordena e empresta contorno ao desejo disperso da massa.


O que a fórmula do "menos ruim" denuncia é justamente a falência desse mecanismo. Não se trata de um eleitorado que se identifica fervorosamente com um candidato e odeia o adversário por lealdade ao próprio ideal — cena típica da polarização "quente". Trata-se de algo mais frio e mais sintomático: um eleitorado que já não encontra, em nenhum dos nomes disponíveis, um objeto à altura do Ideal do Eu. O voto deixa de ser investimento libidinal positivo e passa a ser gesto defensivo, quase um ato de evitação. Freud chamaria isso de um investimento marcado mais pela pulsão de morte — o afastamento do pior — do que pela pulsão de vida, que buscaria uma ligação afirmativa a um objeto amado.


Há ainda outro conceito freudiano decisivo aqui: a ambivalência. Para Freud, todo vínculo intenso com uma figura de autoridade carrega, ao mesmo tempo, amor e agressividade recalcada. Quando a idealização de um líder rui — por escândalos, desgaste de governo, promessas não cumpridas —, o que emerge não é indiferença, mas um misto de decepção e hostilidade. A "opção pelo menos ruim" pode ser lida como o produto dessa ambivalência não resolvida: já não se ama nenhum candidato, mas ainda se teme o outro o suficiente para votar contra ele.


Em O mal-estar na civilização (1930), Freud também descreve o narcisismo das pequenas diferenças: a tendência humana a intensificar a hostilidade justamente contra aqueles que nos são mais próximos e parecidos, como forma de reforçar a coesão do próprio grupo. A polarização brasileira contemporânea — em que campos políticos que compartilham nacionalidade, classe e até pautas concretas se tratam como inimigos irreconciliáveis — encontra aqui uma chave de leitura: o ódio ao "outro lado" funciona, paradoxalmente, como um dos poucos vínculos afetivos ainda fortes na vida coletiva. Vota-se contra, porque já não se sabe mais votar a favor.


Antropologia: o presidente como figura ritual


Se a psicanálise explica o vínculo psíquico com o líder, a antropologia ajuda a entender por que a figura presidencial ocupa um lugar tão desproporcional ao seu poder institucional real.


Émile Durkheim descreveu, no início do século XX, o fenômeno da efervescência coletiva: momentos em que um grupo se reúne em torno de símbolos e rituais que renovam sua "consciência coletiva" — o conjunto de crenças e sentimentos comuns que fazem de uma multiplicidade de indivíduos uma sociedade. Uma eleição presidencial é, nesse sentido, um dos últimos grandes rituais civis de efervescência coletiva que restam a sociedades seculares e fragmentadas: um momento em que o país inteiro é convocado, ainda que de forma conflituosa, a pensar coletivamente sobre si mesmo.


O antropólogo Victor Turner acrescenta a noção de liminaridade: períodos de transição ritual em que as estruturas sociais normais são suspensas e a comunidade entra num estado de indefinição, ansiedade e possibilidade simultâneas. Uma campanha eleitoral é um período liminar por excelência — nem o mandato anterior encerrou-se de fato, nem o próximo começou; o país fica "entre" duas ordens. É justamente nesses interstícios que a angústia coletiva tende a se intensificar e que a demanda por uma figura que "resolva" a indefinição — mesmo que pela via da rejeição do pior — se torna mais aguda.

Uma terceira ferramenta antropológica, a do teórico René Girard, é o mecanismo do bode expiatório: sociedades em crise, incapazes de resolver suas tensões internas por vias racionais, tendem a canalizar a violência difusa contra uma figura ou grupo específico, cuja exclusão (simbólica ou real) promete restaurar a ordem. A "antipolítica do menos ruim" muitas vezes funciona assim às avessas: não se escolhe positivamente um candidato, escolhe-se expulsar simbolicamente o candidato-bode-expiatório do campo oposto. O voto se organiza mais pelo medo do bode expiatório alheio do que pela adesão a um projeto próprio.


Psicologia social: o grupo sem ideal comum


A psicologia política contemporânea oferece um terceiro eixo de leitura, mais empírico. A teoria da dissonância cognitiva, de Leon Festinger, mostra como identificações partidárias funcionam menos como juízos racionais sobre políticas públicas e mais como estruturas identitárias que o indivíduo protege ativamente, reinterpretando fatos para reduzir o desconforto psíquico de uma contradição. Pesquisadores que cruzam essa teoria com os conceitos freudianos de identificação observam que a filiação política contemporânea se parece mais com um laço afetivo de pertencimento — como torcida de futebol ou identidade religiosa — do que com uma escolha programática.


É exatamente esse tipo de vínculo que a fórmula do "menos ruim" recusa, ao menos na superfície. Ao dizer "não gosto de nenhum dos dois", o eleitor tenta se colocar fora da lógica identitária — mas raramente consegue: a ciência política mostra que a chamada polarização afetiva (o grau de aversão a quem vota diferente) pode crescer mesmo quando a identificação positiva com o próprio candidato diminui. Ou seja: pode-se odiar cada vez mais o "outro lado" precisamente na mesma medida em que se ama cada vez menos o "próprio lado". O ódio compartilhado a um inimigo comum torna-se, então, o novo cimento social, substituindo o antigo cimento da esperança compartilhada.


Do ponto de vista da ciência política mais formal, o voto no menor mal (lesser-evil voting) é também um fenômeno racional descrito em sistemas eleitorais majoritários: diante de poucas opções competitivas, o eleitor estrategicamente abandona sua preferência ideal para evitar o pior resultado possível — o que os teóricos do voto útil chamam de comportamento sincero versus estratégico. Não é, portanto, apenas um estado de espírito: é também um efeito estrutural do próprio desenho institucional de eleições em dois turnos com poucos polos competitivos reais.


O luto pela utopia


Cruzando essas três chaves — psicanalítica, antropológica e social —, emerge uma leitura possível para o fenômeno do "menos ruim" nas eleições de 2026: não se trata apenas de desagrado com os candidatos disponíveis, mas de um luto coletivo mal elaborado pela ideia de que a política pudesse ser espaço de identificação positiva, de Ideal do Eu compartilhado, de efervescência coletiva genuína.


Freud descreveu o luto como o processo doloroso, mas necessário, de retirar o investimento afetivo de um objeto perdido para eventualmente reinvesti-lo em outro. Quando esse processo não se completa, ele descreveu a melancolia: um estado em que o sujeito não consegue se desligar do objeto perdido nem substituí-lo, e a energia psíquica se volta contra o próprio eu, produzindo desvalorização e apatia. Algo análogo parece ocorrer na esfera coletiva: uma parte significativa do eleitorado brasileiro parece incapaz tanto de reinvestir esperança em novas lideranças quanto de desistir por completo do ato de votar — e o resultado é essa zona intermediária, cinzenta, do "voto sem alegria".


Isso não é, no entanto, motivo apenas de pessimismo. A própria tradição antropológica que aqui convocamos lembra que os períodos liminares, por mais angustiantes que sejam, são também os mais férteis para a reinvenção simbólica: é justamente quando as velhas identificações se esgotam que abre-se espaço, ainda que estreito, para novos pactos coletivos. O desconforto de "não ter em quem votar com convicção" pode ser lido não apenas como sintoma de esgotamento, mas como sinal de que o eleitorado já não se satisfaz com as fórmulas de identificação oferecidas — e talvez, por isso mesmo, esteja mais disponível do que parece para reconstruir, no médio prazo, outras formas de vínculo político menos dependentes da figura providencial de um líder único.


Considerações finais, caro leitor...


A "opção pelo menos ruim" não é uma anomalia da democracia brasileira, tampouco um mero efeito de má vontade do eleitor. É, antes, um analisador privilegiado do estado atual dos laços sociais: um momento em que a identificação coletiva com uma liderança comum — o mecanismo que Freud via como fundamento psíquico de todo grupo humano — está enfraquecida; em que o ritual eleitoral, descrito pela antropologia como espaço de renovação simbólica da vida em comum, atravessa uma fase liminar de alta ansiedade; e em que a psicologia política confirma que o afeto negativo compartilhado (o medo do outro lado) tornou-se, para muitos, mais estruturante do que qualquer afeto positivo.


Entender isso não resolve a angústia de quem vai às urnas em outubro de 2026 sentindo que escolhe entre males. Mas talvez ajude a nomear essa angústia com mais precisão — e nomear, como a própria psicanálise ensina, é sempre o primeiro passo para lidar com aquilo que, de outro modo, permaneceria apenas como sintoma mudo.


Referências e leituras de base para este artigo:

  • FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do Eu (1921). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
  • FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  • FREUD, Sigmund. Totem e tabu (1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  • DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996 [1912].
  • TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes, 1974.
  • GIRARD, René. O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
  • FESTINGER, Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford University Press, 1957.
  • CANELAS, José. "Psicanálise e formação de massa". Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), 2018.
  • Artigos acadêmicos brasileiros recentes sobre identificação partidária, psicanálise e ciência política (SciELO/Pepsic, 2018–2024).

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