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A moldura

Por que os fatos nunca falam sozinhos, e o que todo eleitor precisa examinar antes de aplaudir


Bruno Oliveira - Diretor Geral da  UNIPAR
Bruno Oliveira - Diretor Geral da UNIPAR

Em 28 de outubro de 1980, mais de oitenta milhões de americanos pararam diante da televisão para o único debate entre Ronald Reagan e Jimmy Carter, o mais assistido da história do país até então. Carter fez o que qualquer candidato faria: recitou números. Inflação, desemprego, séries e índices empilhados como quem confia que o fato, exposto, se defende sozinho. Reagan, no encerramento, não contestou um único dado. Olhou para a câmera e devolveu ao país uma pergunta: “você está melhor hoje do que estava quatro anos atrás?” Não refutou estatística nenhuma. Mudou o assunto da eleição.


A lição fácil, repetida hoje em carrossel de rede social, é que Reagan foi um gênio da comunicação e que, no fim, os fatos não importam: vence quem fala melhor. Metade disso é verdade, e a metade verdadeira é a mais perigosa, porque a conclusão que dela se tira, a de que tudo é narrativa e ganha quem narra, é justamente a que transforma o eleitor em massa de manobra. Quem decide que verdade é só retórica já entregou as chaves de casa.


O ponto que a frase de efeito esconde é mais fino. Um fato não fala sozinho, e não por ser fraco: por ser mudo. Um número é silêncio até alguém lhe dar uma moldura, a frase em volta que decide o que você deve sentir ao olhá-lo. Sete por cento de inflação é “catástrofe” ou é “melhora, já foi onze”. O mesmo dado, duas molduras, dois votos. Isso não é defeito a corrigir, é o modo como o sentido funciona. O ingênuo que jura que “os fatos falam por si” está tão perdido quanto o cínico que decreta que “é tudo narrativa”. Entre os dois, o fato continua ali, parado, à espera de que alguém escolha o que ele vai dizer.


E a genialidade de Reagan não foi mentir; a pergunta era justa. Foi comprimir. Trocou uma avaliação cheia de indicadores e contrapartidas por um único sentimento, que o eleitor respondia em um segundo, no estômago, sem consultar planilha. Toda boa moldura comprime, e toda compressão deixa algo de fora. É no que ficou de fora que mora ora a manipulação, ora a verdade, às vezes as duas no mesmo gesto.


A nossa literatura conhece esse jogo melhor do que qualquer manual de marketing. Machado de Assis fez dele uma arte: em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o defunto narra a própria vida sem mentir um fato sequer, apenas escolhendo a moldura de cada um. O egoísmo vira prudência, a covardia vira bom senso, o fracasso vira filosofia. Machado sabia que o perigo não é quem inventa fatos, é quem dispõe os fatos verdadeiros na ordem que lhe convém. O político mais eficiente quase nunca mente. Faz como Brás Cubas: serve o real já temperado e deixa que você conclua exatamente o que ele queria.


Daí o exercício que escola nenhuma ensina e que todo cidadão deveria treinar, em qualquer lado, porque a técnica não tem partido: serve ao candidato que você ama e ao que você detesta, com a mesma frieza. Quando lhe entregam uma pergunta pronta, um slogan, um culpado único, faça o contrário do que a moldura pede e reabra. “Melhor do que quatro anos atrás?” Justo, mas melhor em quê, medido como, comparado a qual alternativa, por causa dele ou apesar dele? Desconfie sobretudo do conforto: a boa moldura não tem cara de persuasão, tem cara de clareza, e aquele alívio morno de “agora tudo faz sentido” costuma ser o instante exato em que pensaram por você.


Há um teste simples disso, ao alcance de qualquer eleitor, numa cena que se repete em toda cidade: a faixa cortada. O cidadão atento aprende a ver também o que ninguém fotografa, do outro lado da rua. O comércio ganhou variedade e opções, ou as vitrines acesas só disfarçam quantas portas viraram um cartaz de “aluga-se”? A cidade atrai novas indústrias, ou o empresário está carregando o caminhão para montar a fábrica onde o recebem melhor? Surgiram empregos de carteira, ou só discursos sobre emprego? A placa de “aluga-se” é a faixa que governo nenhum corta, e talvez por isso diga mais verdade. É a manobra do palco de 1980 transferida para a esquina: um evento montado para você sentir progresso antes de verificar progresso.


E existe antídoto à mão, porque há fontes que não disputam eleição. A Fecomércio PR mede o varejo do estado a cada período: no primeiro bimestre de 2026, as vendas no Paraná caíram 1,6% ante o mesmo intervalo do ano anterior, e a causa que a própria entidade aponta não corta fita nem sobe em palanque, são os juros altos, o crédito caro e a incerteza vinda de fora. Veja o que um dado desses faz com a moldura. Se o comércio cai puxado pelos juros, nenhum governante carrega a culpa inteira; se sobe na mesma maré, nenhum merece o crédito inteiro.


O político vai querer as duas pontas, assumir a alta e terceirizar a baixa, e é o número independente que desarma o truque, devolvendo cada efeito à sua causa. O mesmo levantamento ainda revela a textura que o anúncio esconde: no período, enquanto as grandes lojas de departamento cresciam perto de 15%, o vestuário encolhia mais de 16%. A vitrine reluzente de uma rede pode conviver, na mesma quadra, com a portinha que baixa pela última vez.


Por isso o cidadão sério não se comove com a fita cortada nem se desespera com a manchete. Ele cruza o discurso com o dado, devolve cada número à sua causa, e volta seis meses depois, sem câmera nenhuma, para ver se a fábrica veio, se a loja resistiu, se o emprego apareceu.

 


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