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A Miopia Eleitoral: Quando a disputa pelo poder cega o país.

Embora a relevância das eleições nacionais deste ano seja inquestionável para definir os rumos da próxima década, a classe política sofre de uma perigosa miopia: os olhos estão fixos nas urnas, enquanto o Brasil real é negligenciado. É fundamental e urgente ajustar o foco.



A arena do poder é brutal e envolve uma teia complexa de interesses políticos, financeiros e empresariais. Contudo, essa disputa não deveria se sobrepor aos interesses do Estado, como assistimos com perplexidade neste primeiro semestre. Infelizmente, as ações de nossas lideranças confirmam que a prioridade absoluta é o calendário eleitoral. Na luta pelo voto, não há pudor em entregar os anéis e os dedos para alcançar ou manter o poder.


Temos uma Nação com desafios críticos a serem enfrentados no curtíssimo prazo e com margens mínimas de manobra. Nossos indicadores econômicos imploram por responsabilidade fiscal, mas as providências exigidas pelo nosso futuro não cabem na estreita pauta das eleições. A lógica que impera em todos os grupos políticos é uma só: vencer o pleito agora e, quando sobrar tempo, administrar as fraturas nacionais.


Sob uma ótica apartidária, os números revelam a gravidade da situação e exigem muito mais do que demagogia. Vejamos o caso das isenções fiscais, que atingiram a astronômica cifra de R$ 613 bilhões em 2025 (cerca de 4,4% do PIB), mais que o dobro do limite constitucional de 2%. Grande parte dessas renúncias não cumpre os requisitos técnicos que as justificariam, servindo apenas como excelentes indulgências eleitorais. Ao contemplar setores com forte lobby, o Estado penaliza a população com uma carga tributária inflada. Afinal, não existe "almoço grátis" ou cofre mágico para benefícios: cada concessão a um grupo de interesse importa em recolhimento adicional de impostos do cidadão comum.


Há, por certo, indicadores positivos na economia, como o menor desemprego em anos, a prévia da inflação em queda e uma expansão do PIB estimada em 2%, modesta, mas acima das projeções anteriores. A questão central é que, sem um ajuste fiscal crível, nada disso se sustenta. A irresponsabilidade com as contas públicas obriga a manutenção da taxa básica de juros na faixa de 14%, impondo um custo absurdo ao financiamento da dívida, limitando o crescimento e asfixiando o setor produtivo. Sem âncora fiscal, o horizonte econômico segue nebuloso.


Se, de um lado, o governismo demonstra apego às prioridades eleitorais com sucessivos pacotes de "bondades", tática efetiva para fidelizar eleitores, mas letal para o equilíbrio das contas, de outro, a oposição exibe uma preocupante submissão a interesses externos, constrangendo até seus apoiadores mais lúcidos. É inadmissível que se solicite abertamente intervenção ou "ajuda" estrangeira no processo eleitoral brasileiro. Trata-se de um retrocesso que nos devolve à Guerra Fria, quando era praxe que potências determinassem a conduta de repúblicas sul-americanas.


O recente episódio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi emblemático. Ao agradecer a "generosa oferta" de montar uma equipe de transição exclusiva entre Brasil e EUA caso a oposição vença, o que se desenhou foi um atestado de subserviência. Essa postura compromete nossa soberania e abre margem para múltiplas ilações sobre o nível de entrega sugerido, talvez ainda mais "generoso" do que a já prometida autorização para exploração de minerais de terras raras, algo que, paradoxalmente, já ocorre sob a atual gestão.


Por fim, escândalos como o do Banco Master escancaram as relações promíscuas entre o poder político e o sistema financeiro, manchando alas de todo o espectro ideológico. Com a corrida eleitoral evidenciando que a conquista do poder é um fim em si mesmo, a parcela de eleitores imune às paixões polarizadas constata, com amargor, a cruel realidade nacional: o que importa é vencer em 2026; o Brasil que espere até 2027.

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