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A IMPRENSA TAMBÉM MANIPULA?

há 3 horas
6 min de leitura

A grande mídia acusa as redes de fabricar desinformação — mas quem fiscaliza quem escolhe as perguntas, os temas e os personagens da narrativa?


Corrupção, austeridade e o velho fantasma da Lava Jato continuam ocupando o centro do palco político brasileiro.


O problema não é apenas aquilo que a imprensa diz. É também aquilo que ela escolhe não dizer.


O ELEITOR ESTÁ SENDO INFORMADO OU CONDUZIDO?


Vamos parar de fingir.


Existe uma guerra pela cabeça do eleitor brasileiro.


De um lado, as chamadas milícias digitais, os influenciadores, os algoritmos, as redes sociais e a indústria da indignação.


Do outro, os grandes conglomerados de comunicação, as redações tradicionais, os comentaristas, os colunistas e os grandes telejornais.


E no meio dessa guerra está o cidadão.


O eleitor.


Aquele que deveria receber informação suficiente para decidir livremente.


Mas será que está recebendo informação?


Ou está recebendo narrativas cuidadosamente embaladas para produzir determinadas conclusões?


Essa é uma pergunta desconfortável.


E justamente por isso precisa ser feita.



NÃO É SOBRE SER DE ESQUERDA OU DE DIREITA


Antes que alguém tente transformar este editorial em uma defesa de Lula, Bolsonaro, PT, PL, Globo ou qualquer outro partido ou grupo político, vamos deixar uma coisa absolutamente clara:


não é disso que estamos falando.


Estamos falando de poder.


E talvez não exista poder mais perigoso em uma democracia do que aquele que consegue influenciar a maneira como milhões de pessoas interpretam a realidade sem precisar dizer explicitamente em quem elas devem votar.


A imprensa não precisa mandar o eleitor votar em determinado candidato.


Basta decidir:


quem será questionado sobre corrupção; quem será questionado sobre economia; quem será confrontado com o passado; quem será apresentado como ameaça; quem receberá perguntas sobre o futuro.


É aí que começa a disputa.


'


Imagine uma entrevista eleitoral.


O candidato senta.


As câmeras ligam.


O jornalista começa.


Mas antes mesmo da primeira pergunta existe uma escolha editorial:


o que será perguntado?


Se todas as entrevistas são construídas em torno dos mesmos eixos — corrupção, gastos, responsabilidade fiscal — a mensagem que se estabelece é poderosa.


O eleitor começa a enxergar a eleição por aquela mesma lente.


E, no caso de Lula, existe uma associação política construída ao longo de anos que é impossível ignorar:


Lula + corrupção + gasto público.


A questão não é afirmar que não se pode perguntar sobre isso.


É claro que pode.


Deve.


Mas a pergunta é:


por que essa chave de leitura precisa ocupar tamanho espaço?


E por que não existe o mesmo esforço para discutir desenvolvimento, emprego, industrialização, desigualdade, saúde, educação, soberania, tecnologia, investimentos e políticas públicas?


Será que o Brasil pode ser resumido a duas palavras?


Corrupção e austeridade?


LAVA JATO: A HISTÓRIA AINDA ESTÁ SENDO CONTADA


Existe um elefante dentro da sala.


A Lava Jato.


Durante anos, ela foi apresentada por boa parte da imprensa como um dos maiores símbolos do combate à corrupção no país.


Operações espetaculares.


Prisões.


Delações.


PowerPoints.


Coletivas.


Manchetes.


Bilhões recuperados.


E uma narrativa política extremamente poderosa.


Depois vieram as controvérsias.


Vieram decisões judiciais.


Vieram questionamentos sobre procedimentos.


Vieram discussões sobre parcialidade.


Vieram decisões que anularam condenações de Lula.


Vieram revelações que colocaram em xeque procedimentos de integrantes da operação.


E então surgiu uma pergunta que continua sem resposta satisfatória:


quem fiscaliza o fiscal?


Se a imprensa participou ativamente da construção de uma narrativa histórica, ela também precisa ter coragem para revisar essa narrativa.


Porque jornalismo não é religião.


Jornalista não é sacerdote.


E manchete não é sentença judicial.


AS “PEDALADAS” E A MEMÓRIA SELETIVA


O mesmo vale para o impeachment de Dilma Rousseff.


As chamadas pedaladas fiscais foram apresentadas durante aquele processo como símbolo da irresponsabilidade fiscal do governo.


O Congresso decidiu pelo impeachment.


Dilma deixou a Presidência.


A história seguiu.


Mas a discussão sobre a natureza jurídica e política daqueles fatos permanece.

E uma democracia madura precisa ser capaz de revisitar seus próprios acontecimentos.


Não para reescrever a história.


Mas para compreendê-la.


Porque quando uma instituição de comunicação ajudou a formar a percepção pública sobre determinado acontecimento, ela também precisa aceitar que sua própria atuação seja analisada.


A imprensa não pode exigir transparência dos outros e pedir imunidade para si mesma.


O GRANDE NEGÓCIO É O MEDO


Existe ainda algo mais poderoso do que a simples notícia:


o medo.


O país está quebrado.


A corrupção voltou.


O governo está gastando.


A economia está ameaçada.


O Estado está inchado.


Os políticos são todos iguais.


Ninguém presta.


Tudo está perdido.


Quando essa mensagem é repetida diariamente, acontece algo previsível.


O cidadão perde a confiança.


Primeiro nos políticos.


Depois nas instituições.


Depois na imprensa.


E finalmente na própria democracia.


E então aparece o salvador.


O outsider.


O antissistema.


O homem que promete destruir tudo.


E o ciclo começa novamente.


A GRANDE MÍDIA PODE ESTAR ALIMENTANDO AQUILO QUE DIZ COMBATER


Aqui está o paradoxo.


A imprensa tradicional denuncia o discurso antissistema.


Mas quando transforma permanentemente o sistema em sinônimo de corrupção, fracasso, desperdício e incompetência, ela pode acabar fortalecendo exatamente aqueles que prometem destruir o sistema.


É uma contradição monumental.


Quanto mais o cidadão ouve:


“nada funciona”


mais ele começa a acreditar:


“então precisamos de alguém que coloque tudo abaixo.”


O discurso radical agradece.


DESINFORMAÇÃO NÃO É APENAS MENTIRA


Essa talvez seja a parte mais importante deste debate.


Desinformação não significa necessariamente inventar uma notícia falsa.

Pode ser também:


selecionar.


Repetir.


Omitir.


Enquadrar.


Associar.


Silenciar determinados contextos.


Uma informação verdadeira, apresentada sem contexto, pode produzir uma percepção completamente diferente da realidade.


E isso é especialmente poderoso durante uma eleição.


Porque eleição não é apenas disputa de propostas.


É disputa de percepções.


Quem consegue definir qual é o problema, muitas vezes já está influenciando a resposta.


QUEM ESCOLHE A PERGUNTA JÁ ESTÁ PARTICIPANDO DO JOGO


Essa é a essência deste editorial.


Não existe pergunta neutra.


Perguntar:


“Como o senhor pretende reduzir os gastos?”


já pressupõe que o problema seja o gasto.



Perguntar:


“Como o senhor pretende combater a corrupção?”


pressupõe que a corrupção seja o centro da discussão.


Perguntar:


“Como o senhor vai aumentar investimentos?”


parte de outra premissa.


Nenhuma dessas perguntas é necessariamente errada.


Mas todas constroem enquadramentos diferentes.


E quem controla o enquadramento possui uma parcela enorme do poder político.


O ELEITOR NÃO É BURRO


Existe uma arrogância perigosa em parte do debate público:


a ideia de que o eleitor precisa ser protegido de si mesmo.


Não.


O eleitor não precisa de tutor.


Não precisa de jornalista dizendo qual candidato é “civilizado”.


Não precisa de comentarista dizendo qual candidato é “perigoso”.


Não precisa de editorial dizendo qual é o lado “responsável”.


Precisa de informação completa.


Precisa de contraditório.


Precisa de dados.


Precisa ouvir todos.


E depois decidir.


A IMPRENSA PRECISA DE UM ESPELHO


O jornalismo tem uma missão essencial.


Fiscalizar o poder.


Mas existe uma pergunta que precisa ser colocada diante do espelho:


quem fiscaliza a imprensa?


Quem fiscaliza os grandes veículos?


Quem questiona suas escolhas editoriais?


Quem analisa seus enquadramentos?


Quem pergunta por que determinada pauta recebeu dez minutos e outra recebeu trinta segundos?


Quem verifica se o mesmo rigor utilizado contra um político foi aplicado ao adversário?


Quem verifica se o passado de um candidato é explorado enquanto o passado de outro é convenientemente esquecido?


Essas perguntas não são ataques à democracia.


São defesa da democracia.


NÃO QUEREMOS UMA IMPRENSA PERFEITA


Queremos uma imprensa honesta sobre suas próprias limitações.


Que admita erros.


Que corrija informações.


Que apresente contraditório.


Que deixe claro quando está fazendo opinião.


Que não transforme análise em sentença.


Que não confunda audiência com autoridade.


E, principalmente:


que não subestime o cidadão.


Porque o brasileiro está cansado de ser tratado como massa de manobra.

Ele quer saber.


Quer comparar.


Quer questionar.


Quer desconfiar.


E tem todo o direito de fazê-lo.


O PROBLEMA NÃO É A GLOBO. O PROBLEMA É O PODER SEM CONTRAPESO.


É preciso dizer isso claramente.


Questionar a Globo não significa demonizar a Globo.


Criticar a imprensa tradicional não significa defender a extrema-direita.


Denunciar possíveis mecanismos de enquadramento jornalístico não significa defender fake news.


Muito pelo contrário.


Significa aplicar à imprensa o mesmo princípio que ela aplica aos demais poderes: fiscalização.


A Globo é poderosa.


Outros grandes veículos também são.


As redes sociais são poderosas.


Os governos são poderosos.


Os partidos são poderosos.


As grandes empresas são poderosas.


E todo poder precisa de contraponto.



PORQUE A DEMOCRACIA NÃO PODE TER DONO


No final das contas, a discussão é simples.


Quem controla a informação possui poder.


Quem controla o enquadramento da informação possui ainda mais poder.


E quem consegue determinar quais problemas serão discutidos pode influenciar o resultado da própria discussão.


Por isso, em uma eleição, a pergunta mais importante talvez não seja:


“Em quem você vai votar?”


Talvez seja:


“Como você chegou à sua decisão?”


Quem lhe contou?


Qual informação recebeu?


O que ficou de fora?


Quem escolheu a pergunta?


Quem escolheu a manchete?


Quem escolheu o enquadramento?


Quem ganhou com aquela narrativa?


É aí que começa o verdadeiro jornalismo.


E talvez seja exatamente aí que a grande mídia precise começar a olhar para o próprio espelho.


Porque se a imprensa quer combater as milícias digitais, precisa fazer mais do que apontar o dedo para elas.


Precisa demonstrar que não existe uma milícia editorial do ou

tro lado.


A democracia não precisa de uma verdade oficial.


Precisa de muitas verdades confrontadas pelos fatos.


E o cidadão?


O cidadão precisa continuar tendo aquilo que nenhum veículo de comunicação, nenhum partido, nenhum governo e nenhum algoritmo pode tomar dele:


o direito de pensar por conta própria.


Marcio Nolasco

Analista de Políticas Públicas – ENAP

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