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A GLOBO TEM DUAS RÉGUAS? AGORA É HORA DE PROVAR QUE NÃO

Não foi a pergunta dura que incomodou. Foi a suspeita de que a régua utilizada para Lula pode não ser a mesma para Flávio Bolsonaro.


Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP


Vamos colocar as coisas no lugar.


Ninguém está defendendo entrevista chapa-branca.

Presidente da República tem que ser questionado. Tem que ser pressionado. Tem que responder sobre corrupção, economia, decisões de governo, erros, acertos, aliados, investigações e tudo aquilo que interessa ao eleitor.

Pergunta dura não é problema.



O problema é a régua.

E foi exatamente aí que a entrevista de Lula na Globo deixou uma pulga atrás da orelha de muita gente.

O presidente foi colocado diante de uma sequência quase interminável de perguntas sobre um determinado conjunto de investigações e acusações. Algumas perguntas eram absolutamente legítimas. Outras foram repetidas de tal maneira que a entrevista correu o risco de se transformar em uma espécie de interrogatório televisivo.


E aqui está a pergunta que a Globo precisa responder:

isso acontecerá com todos os candidatos?

Porque democracia não é escolher quem será triturado pela bancada e quem receberá tempo de televisão para fazer discurso.

Democracia é isonomia.


O ELEITOR NÃO É IDIOTA


Existe uma arrogância perigosa quando uma emissora acredita que pode conduzir uma entrevista política como se o eleitor não percebesse o jogo.

O eleitor percebe.

Percebe quando o entrevistador interrompe.

Percebe quando insiste.

Percebe quando uma resposta nunca parece suficiente.

Percebe quando determinado assunto ocupa minutos preciosos.

E percebe, principalmente, quando outro candidato recebe tratamento diferente.

É por isso que a discussão não deveria ser se a Globo foi “dura demais” com Lula.

Foi dura? Ótimo.

Que continue sendo.

O que não pode acontecer é ser dura com um e complacente com outro.

Porque aí já não estamos falando de jornalismo rigoroso.

Estamos falando de assimetria editorial.


INVESTIGAÇÃO NÃO É CONDENAÇÃO


Outro ponto precisa ser repetido até cansar:

investigação não é condenação.

Uma investigação pode ser legítima, necessária e gravíssima. Deve ser questionada pela imprensa.

Mas investigação não substitui sentença.

Suspeita não substitui prova.

Vazamento parcial não substitui o conjunto dos autos.

Acusação não pode ser apresentada ao público como se fosse decisão judicial definitiva.

Isso vale para Lula.

Vale para Flávio Bolsonaro.

Vale para Jair Bolsonaro.

Vale para qualquer político.

É justamente essa neutralidade que diferencia jornalismo de militância.


E O EPISÓDIO DO POWERPOINT?


A história brasileira já produziu PowerPoints suficientes para alimentar uma década de debates políticos.

Quando Lula fez referência ao episódio do PowerPoint associado à Lava Jato em Curitiba, houve uma interpretação diferente durante a entrevista, envolvendo material relacionado ao caso Banco Master.

O episódio acabou criando um bate-boca desnecessário e desviando novamente a conversa.

E aqui está outro problema:

o entrevistador não pode virar personagem da entrevista.

Se o jornalista passa a disputar com o entrevistado quem tem a última palavra, quem ganha?

Não é a Globo.

Não é Lula.

Não é Flávio.

É ninguém.

Quem perde é o eleitor.

Porque cada minuto gasto numa disputa de ego é um minuto que desaparece de perguntas sobre o futuro do país.


LULA PODE TER SAÍDO MELHOR DO QUE ENTROU


Existe uma ironia política nessa história.

A entrevista que aparentemente pretendia colocar Lula contra a parede pode ter produzido justamente o efeito contrário.

Porque, depois da pressão inicial, o presidente conseguiu falar sobre sua visão de país, seus governos, economia, políticas sociais e resultados que atribui às suas administrações.

E, segundo a própria avaliação feita posteriormente pela emissora, Lula teria apresentado desempenho considerado superior ao dos entrevistados anteriores.

Ou seja:

a tentativa de encurralar pode ter acabado fortalecendo o entrevistado.

Isso é televisão.

Isso é política.

E isso também é jornalismo.

Quem faz entrevista precisa entender que o entrevistado pode sair maior do que entrou.


AGORA VEM O TESTE DE VERDADE


E aqui chegamos ao ponto que interessa.

Flávio Bolsonaro.

Agora a Globo terá a oportunidade de mostrar se existe uma única régua.

Porque perguntas não faltarão.

Há uma extensa lista de assuntos que podem ser colocados sobre a mesa: Banco Master, Daniel Vorcaro, relações políticas e empresariais atribuídas ao senador, controvérsias envolvendo pessoas de seu círculo político e familiar, além de suas posições diante das acusações e investigações que atingem seu grupo político.

Também existe o tema incontornável da democracia.

O posicionamento de Flávio Bolsonaro diante dos acontecimentos envolvendo seu pai.

As acusações relacionadas à tentativa de ruptura institucional.

O processo que levou Jair Bolsonaro à condenação.

As manifestações políticas do senador.

Sua visão sobre as instituições brasileiras.

Tudo isso precisa ser perguntado.

Sem medo. Sem luvas. Sem passar pano.

Mas também sem transformar investigação em sentença antecipada.

É essa a régua que deve valer para todos.


QUEREMOS VER SE HAVERÁ O MESMO “CAMINHÃO DE PERGUNTAS”


Essa é a provocação do Bisbilhoteiro:

vamos ver se haverá o mesmo caminhão.

Vamos ver se Flávio Bolsonaro será interrompido.

Vamos ver se respostas evasivas serão cobradas.

Vamos ver se perguntas serão repetidas quando ele não responder.

Vamos ver se os entrevistadores terão a mesma disposição para apertar.

Vamos ver se assuntos desconfortáveis serão colocados na mesa.

E vamos ver, principalmente, se haverá tempo para ele fazer discurso.

Porque se Lula foi colocado contra a parede, Flávio também pode — e deve — ser colocado.

Se Lula teve que responder sobre investigações, Flávio também deve responder.

Se Lula foi confrontado sobre seu passado, Flávio deve ser confrontado sobre o seu.

Se Lula teve suas respostas contestadas, Flávio também deve ter as dele contestadas.

É simples.


A GLOBO NÃO PRECISA AGRADAR NINGUÉM


A imprensa não existe para agradar candidatos.

Muito menos para escolher vencedores.

A Globo não precisa proteger Lula.

Também não precisa proteger Flávio.

Não precisa proteger Bolsonaro.

Não precisa proteger Moro.

Não precisa proteger Requião.

Não precisa proteger Sandro Alex.

Não precisa proteger absolutamente ninguém.

Precisa proteger o direito do eleitor de conhecer a verdade possível dos fatos e ouvir todos sob a mesma régua.

Essa é a obrigação.


O BISBILHOTEIRO NÃO QUER JORNALISMO COMPRADO. QUER JORNALISMO CORAJOSO.


E que fique claro:

jornalismo crítico não é jornalismo vendido.

Jornalismo duro não é perseguição.

Jornalismo independente não significa tratar todos com delicadeza.

Muito pelo contrário.

O bom jornalista incomoda.

Pergunta o que o político não quer responder.

Volta ao assunto quando a resposta é evasiva.

Confronta contradições.

Exige documentos.

Checa fatos.

E não aceita discurso pronto.

Mas existe uma condição:

a mesma coragem precisa existir diante de todos.

Porque quando o jornalista aperta um candidato e alivia outro, deixa de existir apenas uma entrevista.

Começa a existir uma suspeita.

E numa eleição presidencial, suspeita de parcialidade é veneno.


AGORA, GLOBO, É COM VOCÊ


A Globo teve ontem a sua entrevista com Lula.

Hoje tem uma oportunidade de ouro.

Não para apagar o que aconteceu.

Não para convencer ninguém de que não houve assimetria.

Mas para fazer algo muito mais simples:

mostrar, na prática, que a régua é uma só.

Se Flávio Bolsonaro for submetido ao mesmo rigor, ótimo.

Se for confrontado com os mesmos critérios, melhor ainda.


Se tiver que responder durante minutos sobre assuntos espinhosos, que responda.

Mas se receber um tratamento muito mais confortável, aí a pergunta ficará inevitavelmente no ar:

por que com Lula foi assim e com Flávio foi assado?

E essa pergunta não será feita apenas pelo Bisbilhoteiro.

Será feita pelo eleitor.

Porque eleição não é campeonato de emissora.

Não é disputa entre jornalistas.

Não é torcida organizada.

É o futuro de um país.


E o eleitor brasileiro não precisa de uma imprensa que escolha por ele.

Precisa de uma imprensa que incomode todos igualmente.

Essa é a diferença entre jornalismo e propaganda.

Essa é a diferença entre imprensa e palanque.

E essa é a régua que a Globo precisa mostrar que possui.


UMA RÉGUA.PARA TODOS.

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