A GESTÃO DOS VÍDEOS OU A GESTÃO DOS FATOS?
- Marcio Nolasco

- há 1 dia
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Quando a falta de planejamento custa o direito de estudar, de receber atendimento e de confiar na administração pública
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
Existe uma diferença fundamental entre comunicação institucional e gestão pública.
A primeira produz vídeos, discursos, campanhas e narrativas. A segunda resolve problemas.

Quando ambas caminham juntas, a população percebe os resultados. Mas quando a realidade começa a desmentir o discurso oficial, instala-se aquilo que talvez seja o maior risco para qualquer governo: a perda da credibilidade.
É exatamente essa reflexão que a população de Cianorte começa a fazer diante da sucessão de problemas envolvendo o transporte municipal.
A crise do transporte escolar, que já repercute em veículos de comunicação de toda a região Noroeste do Paraná, parece estar longe de um desfecho. E, ao contrário do que muitos imaginavam, os relatos recebidos pelo Portal Bisbilhoteiro indicam que a origem do problema pode não estar apenas na frota de veículos, mas principalmente na ausência de planejamento administrativo.
Recentemente, a Câmara Municipal aprovou um empréstimo milionário destinado à renovação da frota pública. Trata-se de uma operação financeira que comprometerá recursos do município por muitos anos, impondo às futuras administrações a responsabilidade pelo pagamento do financiamento, acrescido de juros e demais encargos.
Mas surge uma pergunta inevitável.
De que adianta comprar veículos se faltam profissionais para operá-los?
Segundo relatos encaminhados ao Portal Bisbilhoteiro, uma van destinada ao transporte de estudantes com necessidades especiais estaria parada desde o dia 2 de agosto, após a aposentadoria do motorista responsável.
Se essa informação for confirmada oficialmente, ela revela algo muito mais grave do que uma simples ausência de servidor.
Revela uma falha elementar de planejamento.
A aposentadoria de um servidor raramente acontece de forma inesperada. É um evento previsível, que permite à administração organizar substituições, remanejamentos ou novos processos de contratação dentro da legalidade.
Quando um serviço essencial deixa de funcionar porque um único servidor se aposentou, a discussão deixa de ser operacional.
Ela passa a ser gerencial.
E os relatos não param por aí.
Familiares de uma paciente informaram ao Portal que ela recebeu alta médica em Curitiba no dia 4 de agosto, mas somente teria conseguido retornar ao município no dia 6 de agosto, em razão da ausência de motorista para buscá-la.
Caso confirmado, o episódio demonstra que a deficiência de pessoal pode não estar restrita à Secretaria de Educação.
Estaria atingindo diferentes áreas da administração pública.
Se isso realmente está acontecendo, estamos diante de uma questão que merece muito mais do que explicações superficiais.
Merece transparência.
Nos últimos meses, a população tem acompanhado uma intensa divulgação institucional nas redes sociais da Prefeitura, onde frequentemente se apresentam obras, investimentos e realizações.
É natural que qualquer governo divulgue suas ações.
O que não é natural é que o discurso institucional caminhe em sentido oposto aos problemas enfrentados diariamente pelos cidadãos.
Enquanto vídeos apresentam uma gestão eficiente, famílias relatam dificuldades para garantir o transporte de estudantes e pacientes.
Essa contradição não pode ser ignorada.
Ela exige respostas.
Outro aspecto chama atenção.
Diversos cidadãos questionam como uma administração com elevado número de cargos comissionados enfrenta dificuldades para manter motoristas suficientes em serviços considerados essenciais.
Não se trata de comparar funções diferentes, mas de discutir prioridades administrativas.
Toda gestão faz escolhas.
E essas escolhas revelam onde estão suas prioridades.
Quando faltam profissionais em áreas essenciais, a sociedade tem o direito de perguntar se a estrutura administrativa está organizada da forma mais eficiente possível.
Há ainda outra hipótese que merece reflexão.

O prefeito conhece integralmente a realidade vivida pelas secretarias municipais?
Ou os problemas operacionais deixam de chegar ao gabinete?
Se a administração desconhece essas situações, há uma evidente deficiência no fluxo de informações.
Se conhece e elas permanecem sem solução, o problema passa a ser de gestão.
Em ambos os casos, quem paga a conta é a população.
O papel da imprensa não é substituir o Poder Executivo.
Também não é administrar secretarias.
Mas é dever do jornalismo perguntar aquilo que milhares de cidadãos gostariam de perguntar.
Por que um estudante com deficiência ficaria sem transporte?
Por que um paciente aguardaria dias para retornar para casa após receber alta hospitalar?
Por que problemas previsíveis continuam surpreendendo a administração?
Essas perguntas não possuem conteúdo político.
Possuem interesse público.
Gestão pública não se mede pela quantidade de vídeos publicados nas redes sociais.
Mede-se pela capacidade de antecipar problemas antes que eles atinjam os cidadãos.
Planejamento administrativo não aparece em fotografias.
Não rende vídeos emocionantes.
Não produz grandes cerimônias.
Mas é justamente ele que impede que uma criança deixe de frequentar a escola, que um paciente permaneça aguardando transporte ou que serviços essenciais parem de funcionar por falta de um único servidor.
Se os relatos recebidos pelo Portal Bisbilhoteiro forem confirmados, o episódio deixa uma lição importante.
Uma administração pode adquirir novos veículos.
Pode contratar financiamentos milionários.
Pode produzir campanhas institucionais de grande alcance.
Mas nenhuma dessas ações substitui aquilo que continua sendo a principal obrigação de qualquer governo: fazer com que os serviços públicos funcionem diariamente, com eficiência, planejamento e respeito ao cidadão.
Porque, no final das contas, o cidadão não avalia uma gestão pelo que ela promete.
Ele a avalia pelo que consegue entregar.
Parecer da administração pública de Cianorte:
Nossa equipe entrou em contato com a Prefeitura de Cianorte. Até o momento do fechamento e publicação desta matéria a resposta que tivemos foi da Secretaria de Comunicação afirmando: "Boa Tarde, vamos verificar". Não tivemos mais nenhum posicionamento, mais será publicado integralmente quando nos for enviado.



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