A geração do "copiar e colar": estamos criando um país de alunos que não sabem mais pensar sozinhos?
Dados recém-divulgados do Pisa 2025 e estudos de neurociência acendem o alerta: o uso descontrolado de IA nas escolas pode estar custando caro ao raciocínio crítico dos estudantes brasileiros.
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas
Uma cena cada vez mais comum nas salas de aula e nos quartos de adolescentes: a dúvida surge, o caderno fica fechado e o celular abre no ChatGPT. A resposta pronta chega em segundos. O trabalho é entregue, a nota vem, mas uma pergunta incômoda fica no ar — o que sobrou de aprendizagem nesse processo?

Não é mais só percepção de pais e professores preocupados. Nesta terça-feira (8), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os dados do Pisa 2025, e eles são reveladores: 48% dos estudantes brasileiros de 15 anos usam chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para estudar — índice acima da média da OCDE, de 46%. É a primeira vez que o exame internacional mede esse comportamento, e o retrato é de uma geração que já nasceu dependente da resposta automática.
O Brasil na frente do uso — e atrás no aprendizado
O dado que mais chama atenção não é apenas a adesão em si, mas o tipo de uso. No Brasil, 40% dos estudantes recorrem à IA para fazer pesquisas rápidas sobre assuntos novos, contra 31% na média da OCDE. Outros 31% usam a ferramenta para resumir textos escolares. Ou seja: a IA não está sendo usada como um apoio pontual, mas como substituta do próprio ato de pesquisar, ler e sintetizar — exatamente as habilidades que a escola deveria formar.
E o pano de fundo é preocupante: mesmo com essa adesão elevada às ferramentas, o desempenho dos estudantes brasileiros segue abaixo da média da OCDE nas três áreas avaliadas pelo Pisa 2025 — 409 pontos em ciências, 408 em leitura e 377 em matemática. Em matemática, cerca de 72% dos alunos brasileiros nem sequer atingiram o nível básico de proficiência. O acesso à tecnologia, por si só, não está se traduzindo em mais conhecimento — e para muitos especialistas, pode estar mascarando o problema.
O que a ciência já está mostrando sobre o "cérebro terceirizado"
Enquanto os números da educação básica mostram a extensão do fenômeno, a neurociência começa a explicar o mecanismo por trás dele. Um dos estudos mais citados no mundo acadêmico em 2025 foi conduzido por pesquisadores do MIT Media Lab, em parceria com Stanford e Columbia, sob o sugestivo nome "Your Brain on ChatGPT" ("Seu cérebro no ChatGPT").
Os cientistas dividiram 54 participantes em três grupos para escrever redações: um usando ChatGPT, outro usando apenas buscadores como o Google, e um terceiro sem qualquer ferramenta, contando só com a própria cabeça. Usando eletroencefalograma (EEG) para medir a atividade cerebral durante a escrita, o resultado foi contundente: quem escreveu sem qualquer ferramenta apresentou as redes neurais mais fortes e mais amplas, sinal de processamento interno profundo, atenção focada e uso intenso da memória de trabalho e do controle executivo — ou seja, escrever sem apoio obrigou os estudantes a engajar mais partes do cérebro ao mesmo tempo.
O grupo que usou IA, por outro lado, mostrou o padrão oposto — e o efeito não desapareceu quando a ferramenta foi retirada. Quando os mesmos participantes precisaram escrever depois sem a IA, seus cérebros continuaram operando com baixa ativação, revela a cobertura do estudo. Os pesquisadores batizaram o fenômeno de "dívida cognitiva": cada vez que a máquina resolve o problema no lugar do estudante, uma parte do esforço mental que constrói memória e raciocínio simplesmente deixa de acontecer — e a conta chega depois, na hora em que o aluno precisa pensar sozinho e não consegue mais.
Um detalhe curioso e revelador: os textos produzidos com ajuda da IA receberam notas melhores tanto de professores quanto de avaliadores automáticos. O problema não estava na qualidade do produto final, mas no que ficou — ou deixou de ficar — na cabeça de quem "escreveu". Os alunos que usaram IA tinham mais dificuldade para lembrar o que haviam acabado de escrever e relatavam sentir menos que aquele texto era realmente deles.
"Preguiça metacognitiva": o termo que virou diagnóstico
Outro estudo, publicado no British Journal of Educational Technology no fim de 2024 por pesquisadores da China e da Austrália, cunhou uma expressão que vem sendo repetida por educadores no mundo todo: "preguiça metacognitiva". Na pesquisa, estudantes que usaram ChatGPT para revisar redações em inglês tiveram desempenho inferior, em pensamento crítico, aos colegas que usaram apenas um roteiro de checklist ou um orientador humano.
No Brasil, o pesquisador em educação Gabriel Petter reforça essa preocupação e traça um paralelo direto com outro vício já conhecido dos educadores: a dependência da IA vem acoplada a outra, a das telas de smartphones, e se torna uma dependência rapidamente verificável — a partir desse comportamento, o estudante delega sua inteligência, sua capacidade de raciocínio crítico e de resolver problemas concretos e abstratos a uma máquina. Para o especialista, o dano não aparece de uma vez, mas se acumula: esses prejuízos vão se acumulando ao longo do tempo e resultam numa formação deficiente, porque as pessoas estão praticamente delegando sua capacidade de pensar a essas tecnologias.
Nem toda a ciência aponta só para o colapso
É importante fazer justiça à complexidade do tema: a literatura acadêmica não é unânime em tratar a IA como vilã absoluta. Uma revisão de vinte estudos internacionais publicada em 2026 pela Revista edUCA, da Faculdade Católica Paulista, chegou a uma conclusão mais matizada — o uso orientado da inteligência artificial pode favorecer a aprendizagem, a criatividade e a resolução de problemas, desde que acompanhado de mediação pedagógica, letramento em IA e autorregulação por parte do estudante. O problema, segundo essa mesma revisão, não é a ferramenta, mas a ausência de formação docente e de estratégias de avaliação capazes de orientar seu uso.
Outra revisão sistemática, publicada na RECIMA21, aponta no mesmo sentido: a IA pode ampliar o acesso à informação e apoiar processos investigativos que estimulam a reflexão — os riscos de dependência e de redução do esforço cognitivo aparecem quando a ferramenta substitui, em vez de complementar, o trabalho intelectual do aluno.
Em outras palavras: os especialistas não estão dizendo que toda IA usada por um estudante é prejudicial. Estão dizendo que o modo como ela vem sendo usada hoje — sem mediação, sem letramento digital e sem limites — é o que está corroendo a capacidade de pensar por conta própria.
O contra-argumento que não pode ser ignorado
Vale registrar também a visão de professoras e educadores que veem na IA uma ferramenta de inclusão, não apenas de risco. Para elas, a tecnologia pode nivelar o campo de jogo para alunos que não têm apoio em casa ou que enfrentam dificuldades — como estudantes para quem o inglês não é a língua materna. Nessa perspectiva, o caminho não é banir a ferramenta, mas ensinar os jovens a usá-la de forma crítica, já que a IA só vai se tornar mais presente no mercado de trabalho que os espera.
Um alerta, não uma sentença
O conjunto de evidências — dos eletrodos de EEG do MIT aos números do Pisa divulgados nesta semana — não permite concluir que o Brasil já é, hoje, "um país de cidadãos intelectualmente obtusos". Mas permite dizer, com base em dados e não apenas em impressão, que o país caminha rápido demais nessa direção sem as salvaguardas necessárias: alta adesão ao uso de IA, baixo desempenho educacional persistente e ausência, na maioria das escolas, de qualquer estratégia formal para ensinar o uso crítico dessas ferramentas.
A pergunta que fica para pais, professores e gestores públicos não é mais se a IA vai fazer parte da formação dos estudantes — isso já é fato consumado, como mostram os 48% do Pisa 2025. A pergunta é se o Brasil vai continuar deixando essa transição acontecer sem direção, ou se vai finalmente tratar o letramento em inteligência artificial com a mesma seriedade com que trata a alfabetização.
Fontes: OCDE/Pisa 2025; Kosmyna et al., "Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task", MIT Media Lab/arXiv (2025); British Journal of Educational Technology (2024); Revista edUCA – Faculdade Católica Paulista (2026); RECIMA21 – Revista Científica Multidisciplinar; entrevista com o pesquisador Gabriel Petter.




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