A estratégia de Trump para fragmentar a América Latina e sufocar seus líderes
- Marcio Nolasco

- há 21 horas
- 5 min de leitura
Análise Política
Marcio Nolasco
De Caracas a Brasília, passando por Bogotá, um mesmo roteiro se repete: sanções seletivas, tarifas como chantagem, apoio a aliados ideológicos e, quando nada disso funciona, a força militar. O segundo mandato de Donald Trump transformou a América Latina em um tabuleiro onde a soberania dos países é tratada como moeda de troca.
Uma doutrina, não uma sucessão de crises
Analistas de política externa vêm insistindo que os episódios que sacudiram a região nos últimos dois anos não são fatos isolados. Vistos em conjunto, formam um padrão: identificar o governo de um país como hostil ou insuficientemente alinhado, isolá-lo economicamente, pressionar suas instituições e, ao mesmo tempo, fortalecer lideranças afinadas ideologicamente em países vizinhos. O historiador Greg Grandin descreve esse movimento como parte de um projeto mais amplo de reordenamento global, em que Washington disputa como o Sul Global administra seus próprios recursos.
O terreno para essa estratégia foi preparado pela própria fragilidade institucional da região. Sem um bloco político coeso — o Mercosul emperrado, a Aliança do Pacífico esvaziada, a Celac incapaz de formar consensos —, a América Latina chega a este momento mais dividida do que em décadas, o que facilita a atuação de Washington país a país, sem que a região consiga responder como conjunto.

Venezuela: da pressão econômica ao rapto do presidente
O caso mais extremo dessa doutrina se consumou na madrugada de 3 de janeiro de 2026, quando forças especiais dos Estados Unidos lançaram uma operação militar de grande escala contra Caracas, culminando na captura de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, levados a Nova York para responder a acusações de narcotráfico. Trump chegou a declarar que o país seria administrado pelos Estados Unidos até uma transição que classificou como segura e apropriada — uma formulação que, para críticos, soa menos a promoção da democracia do que a um protetorado sobre as reservas de petróleo venezuelanas.
O enredo jurídico que sustentou anos de sanções e cerco diplomático também revelou fragilidades. Depois da captura, o próprio Departamento de Justiça americano recuou da acusação de que Maduro liderava uma organização criminosa batizada de Cartel de Los Soles, cuja existência a administração nunca conseguiu comprovar publicamente — ainda que o processo por tráfico de drogas continue em curso. Para os críticos da Casa Branca, o episódio expõe como narrativas de combate ao crime organizado podem ser moldadas para justificar, a posteriori, uma intervenção decidida por outras razões.
Depois de capturar Maduro, o próprio Trump nomeou Gustavo Petro como o próximo alvo — um aviso que ecoou como ameaça entre lideranças de esquerda de toda a região.
Sanções como arma: o caso Moraes e o tarifaço ao Brasil
No Brasil, o instrumento escolhido não foi a força militar, mas o comércio e o sistema financeiro internacional. Em julho de 2025, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre a maior parte das exportações brasileiras, vinculando explicitamente a medida ao julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral de 2022. Dias depois, o Tesouro americano aplicou a Lei Global Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, responsável por conduzir o processo — bloqueando eventuais bens do magistrado nos Estados Unidos e impedindo o uso de cartões de bandeira americana.
A sanção foi lida por aliados de Lula como um ataque direto à separação de poderes brasileira, e por parlamentares americanos — inclusive o próprio autor da legislação original — como um desvirtuamento do propósito da lei, criada para punir violadores de direitos humanos, não magistrados que julgam aliados políticos de um presidente estrangeiro. As sanções foram suspensas em dezembro de 2025, após meses de negociação direta entre Trump e Lula, mas o instrumento permanece disponível: em 2026, novos atos do Judiciário brasileiro favoráveis à candidatura de Flávio Bolsonaro voltaram a colocar Moraes na mira de uma possível reativação da Magnitsky, mostrando que a ameaça funciona mesmo quando não é aplicada — um cerco permanente sobre a Justiça de um país soberano.
Colômbia: o próximo alvo declarado
Se o Brasil sentiu o peso das tarifas e a Venezuela sofreu uma intervenção armada, a Colômbia de Gustavo Petro tem sido tratada como o próximo capítulo. Trump chegou a chamar publicamente o presidente colombiano de traficante e afirmou que, depois de Maduro, Petro seria o alvo seguinte das ações americanas contra o narcotráfico na região. Washington também cortou ajuda ao país andino — historicamente um dos maiores receptores de cooperação militar e social dos Estados Unidos na América Latina — em um movimento que analistas leem como pressão direta contra a permanência de um governo de esquerda em Bogotá às vésperas da eleição presidencial de 2026.
Prêmios para aliados, punição para dissidentes
O outro lado dessa engenharia política é a construção deliberada de um cinturão de governos alinhados. A Argentina de Javier Milei recebeu suporte econômico direto do Tesouro americano, decisivo para blindar o governo na disputa legislativa e mantê-lo como vitrine de um modelo ultraliberal patrocinado por Washington. Equador, Paraguai e Bolívia completam, hoje, o quarteto de presidentes sul-americanos alinhados ao trumpismo, formando um contraponto geográfico e ideológico aos governos de esquerda que restam na região.
O padrão se repete quando se olha para as eleições de 2026: cinco países latino-americanos escolherão presidente neste ano, e o governo Trump já deixou claro que não pretende observar essas disputas de fora. A defesa pública de candidatos de direita, as críticas nominais a adversários de esquerda — Lula foi chamado por Trump de lunático de esquerda radical em 2022, epíteto que voltou a ecoar nos bastidores da campanha brasileira — e o uso de instrumentos econômicos como moeda de barganha eleitoral compõem um roteiro que se repete de país a país.
Uma América Latina balcanizada
O resultado, para os críticos dessa política, é uma região que vive hoje sua maior fragmentação política desde os anos 1960, incapaz de erguer uma resposta coletiva a pressões que, tomadas uma a uma, parecem episódicas, mas que, somadas, desenham uma estratégia coerente de desestabilização seletiva: apertar sanções contra quem resiste, abrir linhas de crédito e apoio político para quem se alinha, e reservar a opção militar para os casos em que a pressão econômica não for suficiente. Enquanto os mecanismos de integração regional — Mercosul, Aliança do Pacífico, Celac — seguem esvaziados, a América Latina segue sendo tratada, país por país, como um conjunto de peças soltas em um tabuleiro cujas regras são escritas em Washington.
Perspectivas em disputa
É importante registrar que esta leitura — de uma estratégia deliberada de fragmentação regional — não é consensual. A Casa Branca e seus apoiadores rejeitam essa interpretação e defendem que as ações de Trump respondem a ameaças concretas: o combate ao narcotráfico transnacional, a contenção da influência chinesa e russa no hemisfério e a defesa de processos eleitorais que considera fraudados ou marcados por perseguição judicial a opositores, como argumentou em relação ao julgamento de Bolsonaro no Brasil. Governos aliados, como o da Argentina, apresentam o apoio de Washington como reconhecimento a reformas econômicas bem-sucedidas, não como cooptação política. Também há quem argumente que a fragmentação da América Latina antecede Trump em décadas e tem raízes em disputas internas da própria região, e não apenas na ação externa dos Estados Unidos.



.png)






Comentários