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A emoção e a segurança pública

Anos atrás ouvi uma mãe de uma menina de 10 anos de idade dizer: “vou votar no fulano que defende armamento da população porque não vou permitir que um criminoso abuse da minha menina e estrague a vida dela”.


Tania Tait
Tania Tait

A fala dela me chocou no período pois, aparentemente, era uma senhora calma, trabalhadora, religiosa, ou seja, uma pessoa comum como a maioria de nós. Ela nem estava refletindo sobre o fato de não ter preparo para usar uma arma de fogo, nem recursos financeiros para aquisição de uma arma e cadastramento como CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador).


Para ela, o importante era proteger a filha. Também, ela não era uma pessoa alheia à política e, mesmo conhecendo as propostas eleitorais, não houve argumento que a fizesse mudar de ideia, ela visualizava, simplesmente, a proteção à filha.


Obviamente, a preocupação dela, como a de todas as famílias é legítima, ainda mais diante dos dados assustadores de violência contra crianças e adolescentes.


É aí que a emoção embaça a visão e o pensamento. A grande maioria dos casos de agressões contra crianças e adolescentes ocorrem dentro das famílias ou no contato com conhecidos.


No entanto, a propaganda armamentista e o discurso distorcido sobre segurança pública chegam às famílias tocando no seu íntimo e na necessidade de proteção.


Esse tipo de propaganda para colocar armas, sem preparo adequado, nas mãos de cidadãos e cidadãs na linha do “olho por olho, dente por dente”, ocasionando mortes por motivos absurdos como brigas de trânsito ou com  a gravidade dos feminicídios, dentre outros crimes. Situações previstas pelos profissionais da segurança pública quando se fala em armamento, quando para eles, as mulheres são as maiorias vítimas de homens com armas de fogo. Também, está mais do que comprovado que armar a população não resolve a criminalidade, pois, de forma facilitada, apenas coloca mais armas no mundo do crime.


Entretanto, a percepção da senhora em proteger sua filha não está errada pois, de acordo com a definição no site https://www.jusbrasil.com.br/artigos/o-que-e-seguranca-publica/586735267, a segurança pública pode ser definida como um conjunto de dispositivos e de medidas de precaução que asseguram a população de estar livre do perigo, de danos e riscos eventuais à vida e ao patrimônio. É também um conjunto de processos políticos e jurídicos destinados a garantir a ordem pública na convivência pacífica dos seres humanos na sociedade.


Mas, os que falam em armar e prender os criminosos, não apresentam que a segurança pública, além das medidas de repressão e vigilância necessita de “um sistema integrado e otimizado envolvendo instrumento de coação, justiça, defesa dos direitos, saúde e social. O processo de segurança pública se inicia pela prevenção e finda na reparação do dano, no tratamento das causas e na re-inclusão na sociedade do autor do ilícito”.


Num país de dimensões continentais e dividido em regiões por organizações criminosas, os desafios são imensos e necessitam da colaboração e integração entre governos, justiça e polícia.


Diante do gigantismo dos desafios, o discurso armamentista soa fácil e chega aos ouvidos da população de forma instantânea e emotiva, sem avaliar a complexidade do sistema que deveria, além da integração entre os poderes envolvidos, qualificar, valorizar e preparar os quadros de profissionais que combatem o crime, dentre outros aspectos que completam a própria definição de segurança pública.


Muitos passos foram dados como o fortalecimento das polícias e da investigação científica, no entanto, a propaganda demagógica de segurança pública jogando com o emocional das pessoas continua sendo utilizada por políticos e religiosos inescrupulosos que usam do discurso fácil diante de seu eleitorado para se garantirem no poder.


Está aí mais um grande desafio que envolve toda a sociedade: como garantir que as medidas tomadas para a segurança  pública tenham efetividade e contribuam para que aquela senhora que deseja proteger sua filha, se sinta realmente protegida, sem desejar ter uma arma de fogo debaixo de seu travesseiro.

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