A eleição que ninguém está vencendo
Por Marcio Nolasco - Análise Política
Ou ganha Lula ou Flávio, mais quem perderá essa eleição é o Brasil e o brasileiro, por medo do outro, não pela confiança em si.

Lula sobe. Datafolha mostra sua aprovação saltando de 45% para 48% em duas semanas, o melhor patamar em quatro rodadas. A CNT/MDA confirma: quarto trimestre seguido de melhora. Se essa fosse a única fotografia, o Planalto estaria tranquilo. Não está.
Porque, ao mesmo tempo em que a aprovação sobe, a corrida presidencial empata. Quaest, Futura, PoderData: todas as pesquisas de setembro colocam Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados no segundo turno, ora com o presidente à frente, ora atrás. O paradoxo é real — um governo que melhora sua avaliação sem conseguir converter isso em vantagem eleitoral clara é a marca de uma eleição que deixou de ser sobre governo e passou a ser sobre identidade.
É isso que os números de rejeição escancaram. Lula e Flávio dividem, quase empatados, a antipatia do eleitorado — 49% a 49% na Nexus/BTG. Não são dois candidatos disputando o centro; são dois núcleos duros disputando a adesão de quem já decidiu contra o adversário. O dado mais revelador não é a intenção de voto, é a transferência: 59% do eleitorado de Romeu Zema migra para Flávio no segundo turno, 58% do de Renan Santos. A direita fragmentada está se consolidando atrás de um único nome — e é isso, mais do que qualquer entrega do governo, que explica por que a melhora de Lula não vira vantagem.
O que os dados desmentem é a hipótese de fluidez entre as bases. Não há sinal de eleitor petista migrando para Flávio, nem o inverso. Entre beneficiários do Bolsa Família, o voto em Lula é mais que o dobro do voto em Flávio; nos redutos antibolsonaristas, o padrão se repete espelhado. O Brasil de 2026 replica o de 2018 e 2022: duas metades que não se falam, decidindo a eleição não pelo que aprovam, mas pelo que rejeitam.
Lula pode estar subindo. Mas subir, nesta eleição, pode não ser suficiente — e talvez essa seja a constatação mais incômoda de todas.
Porque uma eleição decidida majoritariamente pela rejeição ao adversário não produz um vencedor com mandato para governar; produz um sobrevivente com metade do país torcendo contra desde o primeiro dia. Ganhe Lula ou ganhe Flávio, o presidente eleito herdará um Congresso fragmentado, uma opinião pública cindida ao meio e uma oposição que já nasce deslegitimando o resultado nas redes — porque foi assim nas duas últimas eleições, e nada nos dados de 2026 sugere que será diferente desta vez. Os índices de rejeição simétrica não são um detalhe estatístico: são o retrato de um país que aprendeu a escolher governantes pelo medo do outro lado, não pela confiança no próprio candidato.
Esse é o custo invisível da polarização que as pesquisas não capturam em percentuais. Não é apenas Lula ou Flávio que estão empatados — é o próprio projeto de país que fica em suspenso, refém de um ciclo eleitoral que se repete a cada disputa sem nunca produzir uma maioria capaz de pacificar o debate público. Enquanto isso, os problemas que deveriam estar no centro da campanha — segurança, emprego, educação, infraestrutura — seguem em segundo plano, atrás da pergunta mais primitiva de "quem você odeia menos". Nessa eleição, é possível que exista um vencedor nas urnas. Mas, pelo tamanho da rejeição mútua que os números revelam, é difícil dizer que o Brasil, como país, sairá vitorioso de outubro.

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