A disputa pelo eleitor independente.
Muito óbvio que, como comprovam todas as pesquisas, os votos “calibrados” para ambos os lados, com mínimas variações, dentro das tradicionais margens de erro, não permitem uma finalização sem a verdadeira disputa ocorra; a guerra pelo eleitor de centro, dos independentes e até mesmo aqueles que tem lado, direita ou esquerda, mas que não se sentem à vontade nas trincheiras de Lula ou Flávio Bolsonaro.

Principalmente entre os independentes, também conhecidos como “nem-nem”, ultrapassam 10 e talvez cheguem a 15% do eleitorado, contingente com potencial para fechar a conta de qualquer lado. Neste universo, onde ambas as rejeições superam 50% e, por força das circunstâncias e da pauta explosiva, não foi o campo fértil que se esperava para a terceira via, o rigoroso empate técnico, de prováveis 44% para cada lado, todavia se mostrando como o contingente eleitoral mais suscetível a inclinações por força dos fatos, ou das narrativas, sendo o mais evidente campo de batalha das estratégias de Lula e Flávio, com prioridade para aumentar a rejeição do adversário, como arma transversa de conquista de voto.
Vamos, a seguir, tentar traduzir as estratégias de cada candidatura nesta direção;
Lula; a economia como ponte.
A estratégia se aprofunda com a convicção interna que a parte preponderante deste grupo está situado na classe média, segmentos onde o governo enfrenta maior volatilidade, com a devida compreensão tardia que afagos nas classes D e E não comovem este público que sofre um achatamento evidente de seu poder de compra e qualidade de vida, sob o aspecto econômico.
Face à leitura, o foco é o aumento do poder de compra através de medidas concretas, como a isenção do Imposto de Renda para rendas até R$ 7.500 e programas sociais "turbinados" (Luz do Povo, Gás do Povo). A imagem pública busca reforçar a responsabilidade fiscal com sensibilidade social, tentando afastar o medo de descontrole econômico que afasta o mercado e os independentes.
Em direção à direita não bolsonaristas, cientes que as expedições deste grupo em direção às candidaturas alternativas não produziram efeitos ou empolgação que as estimulassem, é natural que este público antecipe sua decisão, anteriormente prevista para o segundo turno, em função da intensidade do debate em torno do STF, como se cobrando uma resposta mais imediata ao escândalo que queima reputações no Judiciário, Lula tenta usar a capilaridade de sua frente ampla e alianças institucionais com o Centrão, tentando sinalizar uma imagem de normalidade e estabilidade democrática, algo nebuloso que ainda paira sob os céus bolsonaristas.
Por fim, para consolidação eleitoral na esquerda não lulista, a pauta progressiva, jornada 6x1 à frente, serve de gancho para buscar este público, onde sabidamente, a rejeição à Flávio é muito elevada. Para este público, o discurso de Lula, conforme estabelecido por sua inteligência, é combinar sinalizações em direção ao incremento de renda, serviços públicos e, levemente, apontar também para a responsabilidade fiscal e da possibilidade de que parâmetros econômicos positivos, sinalizem para um horizonte promissor de curto prazo, ainda que a sensibilidade popular desacredite deste cenário.
Flávio; o desafio de se afastar da pauta bolsonarista, sem desmobilizar seu time.
Conciliar ambos os discursos é imperativo na estratégia de Flávio Bolsonaro. Precisa insistir na oferta de segurança dura (redução da maioridade penal, classificar organizações como narcoterroristas e construção de mais presídios federais), com as demandas mais focadas na centro-direita, onde prioriza a reforma administrativa e um freio adicional nos gastos, apontando para despesas controladas e redução da dívida em relação ao PIB. Lógico que é um desenho inteligente que, todavia, gera contradições; a pauta conservadora tende a inflar ânimos, com incremento na energia da militância, sempre um fator agravante na rejeição entre independentes.
Percebe-se que as limitações da inteligência proposta é a capacidade de moderar a imagem, alavanca imprescindível para o público indefinido, com o necessário impulso à militância tradicional que cresce com as pautas mais radicais. O ponto de tensão é exatamente este; o eleitor moderado pode aceitar políticas sociais, mas tende a punir radicalização, desorganização econômica ou ameaça institucional. Calcular esta distância eficiente entre moderação e sustentação do público cativo da direita é o desafio para a última quinzena.
A dança dos palanques estaduais;
Evidente que Flávio Bolsonaro largou muito longe das possibilidades; nenhuma legenda o acompanhou, nem mesmo as mais previsíveis como Republicanos ou Podemos, ainda assim, nestas e nas demais legendas, conseguiu construir um mosaico de alianças regionais, com ampla maioria de palanques em todas as regiões, com a exceção do Nordeste, onde Lula continua patrão de muitos partidos. Ainda que a efetiva vinculação não esteja evidente neste turno, é muito provável que seja positiva no segundo tempo, onde a vinculação das campanhas, menos poluídas pelo excesso de eleições paralelas, tende a aproximar as definições estaduais e nacionais.
Outra questão relevante é que, em todas as campanhas alternativas. Augusto Curi, Renan Santos e Ronaldo Caiado, a transferência pró Flávio é evidente, a exceção é Romeu Zema, cujos eleitores tendem a se dividir em proporções iguais, explicando porque, em todas as verificações, Flávio ganha musculatura maior nas projeções do segundo turno.
Conclusões possíveis;
Simplificando, podemos afirmar que Lula tem a vantagem da coalizão ampla e da política social, mas precisa converter benefício em confiança econômica, algo muito difícil até agora, e diálogo cultural. Já Flavio tem a vantagem de uma direita mobilizada e de pontes estaduais com o Centrão, mas precisa separar renovação de mera continuidade familiar.
Minha avaliação é que o vencedor será quem reduzir o medo que produz: Lula, o medo fiscal e institucional; Flavio, o medo de radicalização e da democracia. Nesse eleitorado indefinido, alianças ajudam, mas a rejeição comparada e a economia cotidiana provavelmente pesam mais que slogans.

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