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A corrida que virou fronteira: por que a inteligência artificial se tornou o duelo entre dois mundos

há 23 horas
7 min de leitura

Estados Unidos e China concentram dinheiro, chips, energia e talento em uma escala que ninguém mais alcança. O resultado é uma disputa que já define alianças, mercados e regras. E que esconde riscos maiores do que o de perder.


Por Marcio Nolasco

Portal Bisbilhoteiro | Opinião



Em 27 de janeiro de 2025, o mercado financeiro americano acordou com um susto vindo de Hangzhou. Uma empresa chinesa pouco conhecida fora do meio, a DeepSeek, havia lançado um modelo de inteligência artificial capaz de rivalizar com os melhores do Vale do Silício, aparentemente gastando muito menos e sob restrições de chips impostas por Washington. Em poucas horas, a Nvidia perdeu quase US$ 600 bilhões em valor de mercado.


O que aconteceu naquele dia foi mais que um tremor de bolsa. Foi o momento em que a percepção mudou: a IA deixou de ser vista como um produto que empresas vendem e passou a ser encarada como um território que países disputam. E só dois deles têm, hoje, condições reais de disputá-lo.


Só cabem dois na fronteira


A IA de ponta é, antes de tudo, um problema de escala industrial. Treinar um modelo de primeira linha exige centenas de milhares de chips especializados, centros de dados que consomem a energia de uma cidade e bilhões de dólares em capital paciente. Soma-se a isso a necessidade de um grupo minúsculo de pesquisadores de elite, que se contam às centenas no planeta.


Pouquíssimos países reúnem tudo isso ao mesmo tempo. Os Estados Unidos têm o capital de risco mais profundo do mundo, as maiores empresas de nuvem, o domínio do projeto de chips e as universidades que atraem talentos de toda parte. A China tem um mercado interno gigantesco, uma base industrial sem paralelo, gerações de engenheiros formadas em massa e um Estado capaz de coordenar prioridades por décadas.


A Europa tem ciência de ponta, mas capital fragmentado. O Golfo tem dinheiro e energia, mas depende de tecnologia alheia. Índia, Japão e Coreia do Sul controlam peças valiosas do quebra-cabeça, não o tabuleiro inteiro. Não se trata de preferência geopolítica, mas de aritmética: o custo de entrada afasta quase todo mundo.


Dois choques, uma rivalidade


A disputa ganhou forma em dois momentos. O primeiro foi em 2017, depois que o programa AlphaGo derrotou os melhores jogadores de Go do mundo. Pequim respondeu com um plano nacional de IA e a meta declarada de liderar o setor até 2030. Muitos analistas leram o gesto como um "momento Sputnik": uma tecnologia estratégica passava a ser tratada como projeto de Estado.


O segundo foi o episódio da DeepSeek. Ele derrubou duas certezas confortáveis de Washington: a de que a China estava anos atrás e a de que controlar a venda de chips bastaria para manter a dianteira.


Desde então, o ritmo só aumentou. Modelos chineses de código aberto, como Qwen e Kimi, passaram a ser usados por desenvolvedores em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos. Do lado americano, os investimentos anunciados em infraestrutura chegaram à casa das centenas de bilhões de dólares, com iniciativas como o Stargate, projeto de até US$ 500 bilhões. Cada lance de um lado passou a ser lido como resposta ao outro.


A geopolítica dos chips


Se a IA tem uma geografia física, ela passa por uma ilha e por uma máquina. A ilha é Taiwan, onde a TSMC fabrica a maior parte dos chips mais avançados do planeta. A máquina é a litografia ultravioleta extrema, produzida por uma única empresa, a holandesa ASML. Entre o projeto de um chip e o chip funcionando, a cadeia atravessa Califórnia, Taiwan, Holanda, Japão e Coreia do Sul.


Washington enxergou nessa cadeia uma alavanca. Desde 2022, impôs controles de exportação cada vez mais rígidos sobre chips avançados e equipamentos de fabricação. A lógica é direta: se a IA depende de computação, negar computação é negar capacidade.


O efeito, porém, foi ambíguo. As restrições encareceram e atrasaram o acesso chinês ao que há de melhor, mas empurraram Pequim para a autossuficiência, com Huawei, SMIC e uma indústria doméstica de aceleradores tratadas como questão de sobrevivência. Estimularam também a inovação em eficiência: se faltam chips, é preciso fazer mais com menos. E a China devolveu o gesto com a sua própria alavanca, o controle sobre terras raras e minerais críticos.


A política americana também oscila, com restrições endurecidas e depois flexibilizadas em casos específicos, o que sugere que Washington ainda não decidiu quanto quer travar e quanto quer vender.


O caso mais eloquente veio neste ano. Em junho de 2026, a Anthropic, criadora do Claude, suspendeu o acesso aos seus modelos mais avançados, o Claude Fable 5 e o Claude Mythos 5, para cumprir controles de exportação do Departamento de Comércio dos EUA. As restrições foram retiradas duas semanas e meia depois, e o acesso foi restabelecido em 1º de julho. Quando um software de linguagem entra na lista de bens sujeitos a controle de exportação, já não se trata de um produto comum.


Dois desenhos de poder


O duelo opõe também dois modelos institucionais.


O americano é conduzido por empresas privadas. Um punhado de laboratórios e gigantes de tecnologia, financiados por capital de risco e pelo mercado de ações, dita o passo. O Estado é cliente, regulador e garantidor da cadeia de suprimentos, mas raramente o maestro. A vantagem é o dinamismo e a tolerância ao risco. O custo é a dependência de ciclos de investimento e da disposição de investidores.


O chinês combina direção estatal com uma competição doméstica feroz. O governo sinaliza prioridades, financia infraestrutura e define regras, enquanto empresas e startups se digladiam no mercado. A vantagem é a coordenação e o fôlego de longo prazo. O custo é o controle político sobre o que os modelos podem dizer e o risco de que o dirigismo sufoque a experimentação.


Há ainda uma diferença estratégica pouco comentada. Boa parte da vanguarda americana segue fechada e monetizada por assinatura ou API, embora haja exceções relevantes. Boa parte do ecossistema chinês apostou em modelos abertos, que se espalham rápido, criam dependência do seu padrão e conquistam países onde o orçamento é curto. Quem vence a batalha da difusão não precisa, necessariamente, vencer a do estado da arte.


O dilema de segurança


Nenhuma tecnologia recente é tão transversal. A IA acelera a análise de inteligência, a logística, a guerra cibernética, a pesquisa científica e a produção de propaganda. Quem lidera nela tende a liderar em quase tudo.


Isso ativa um mecanismo clássico das relações internacionais, o dilema de segurança: cada lado teme que o outro alcance primeiro uma vantagem decisiva e, por isso, acelera. A aceleração confirma o temor do adversário, que também acelera. Ninguém precisa ser agressivo para que o sistema produza agressividade.


Quem escreve as regras


Existe ainda uma disputa menos visível, a dos padrões. Quem define requisitos técnicos, critérios de segurança e limites éticos da IA molda mercados e os valores embutidos nas máquinas. Washington e Pequim oferecem versões distintas: uma governança fragmentada e guiada pelo mercado, de um lado; regulação estatal com controle de conteúdo, de outro. A Europa tenta ser a terceira via normativa.


Para quem não constrói modelos de fronteira, isso vira uma escolha concreta: sobre qual pilha tecnológica erguer a economia digital. Chips, nuvem e modelos americanos, alternativas chinesas ou combinações instáveis das duas? A dependência tecnológica de hoje costuma ser a dependência política de amanhã.


O que me preocupa


A rivalidade é real, mas tratá-la como destino é perigoso.


O maior risco da lógica de duelo não é perder a corrida, é o que se sacrifica para não perdê-la. Quando cada cuidado com segurança é lido como concessão ao adversário, o incentivo é cortar caminho: testar menos, lançar mais rápido, tratar robustez e alinhamento como luxo. Numa tecnologia cujos riscos ainda não compreendemos por inteiro, uma corrida em que ninguém quer ser o primeiro a frear é exatamente a estrutura que produz acidentes.


Defendo que as duas potências sustentem, ao mesmo tempo, a rivalidade e um canal mínimo de coordenação sobre riscos catastróficos: armas biológicas assistidas por IA, sistemas militares fora de controle, falhas em infraestruturas críticas. A Guerra Fria foi feroz e mesmo assim gerou tratados de controle de armas, porque os dois lados entenderam que certas catástrofes não têm vencedor. A IA precisa do seu equivalente antes de precisar do seu 1962.


E o Brasil?


Para o Brasil e o restante do Sul Global, a lição é fugir da ingenuidade e da subordinação. Não lideraremos a fronteira dos modelos gigantes tão cedo, mas podemos escolher onde ter soberania: energia limpa para centros de dados, dados e línguas locais, capacidade regulatória, formação de talentos e aplicações em agricultura, saúde e educação. Servir de campo de disputa entre duas potências é mau negócio. Ser um comprador que negocia e diversifica é bem melhor.


O outro lado


Uma tese só vale se resistir aos melhores críticos, e há vários.


Há quem lembre que a interdependência é maior do que a retórica sugere: chips americanos são fabricados em Taiwan, há pesquisadores chineses em todos os grandes laboratórios ocidentais e a ciência circula nos dois sentidos. Para esses analistas, "dois mundos" é uma caricatura de um sistema profundamente integrado.


Outros observam que a rivalidade é assimétrica. Os Estados Unidos ainda mantêm vantagem clara em computação de ponta, e a China, apesar dos avanços, opera sob restrição real. Falar em empate técnico seria exagero.


Há ainda os que argumentam que o jogo será decidido menos por quem chega primeiro ao modelo mais poderoso e mais por quem o integra com mais eficácia à economia real. E os que apontam que Europa, países do Golfo, Índia e as próprias empresas têm agência própria, de modo que reduzir tudo a um duelo bilateral pode reforçar a polarização que se pretende descrever. Uma parte da comunidade de pesquisa vai além: considera a retórica de "corrida" inflada, útil a lobbies que querem evitar regulação, e acredita que a cooperação é mais viável do que se admite.


Essas objeções refinam a tese, mas não a derrubam. Mostram que o duelo é menos simétrico, menos total e menos inevitável do que os discursos oficiais fazem crer. É justamente por não ser inevitável que vale a pena discutir como administrá-lo.



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