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A CAPELA SISTINA DE CIANORTE QUE NUNCA FOI CAPELA

há 11 minutos
5 min de leitura

R$ 287 MIL DEPOIS, A PERGUNTA CONTINUA NO AR: ONDE ESTÁ O TURISMO QUE A OBRA PROMETEU?


Por Marcio Nolasco — Editor-Chefe do Portal Bisbilhoteiro


Existe uma diferença enorme entre produzir uma obra de arte e transformar uma obra de arte em política pública capaz de gerar cultura, turismo, movimento econômico e pertencimento.


Foto: Prefeitura de Cianorte
Foto: Prefeitura de Cianorte

E talvez seja justamente aí que esteja a grande pergunta sobre o mural de Eduardo Kobra em Cianorte.


Vamos aos fatos.


Em agosto de 2023, o Município de Cianorte contratou, por inexigibilidade de licitação, a empresa responsável pelo trabalho de Eduardo Kobra para a realização de um mural artístico e uma roda de conversa com artistas locais. O valor registrado oficialmente foi de R$ 287 mil. O Diário Oficial do Município confirma tanto a contratação quanto o valor.


A obra foi instalada na Praça da República, na Avenida Santa Catarina, e incorporou elementos associados à história e aos símbolos de Cianorte: café, a primeira igreja/Casa da Memória, peroba-rosa, gralha-azul e macaco-prego.


Naquele momento, a iniciativa foi apresentada como uma intervenção capaz de agregar valor cultural, afetivo e turístico à cidade.


Eduardo Kobra, é preciso reconhecer, não é um artista qualquer.


Seu currículo é internacional. São obras espalhadas por diferentes países e continentes, e sua trajetória é reconhecida mundialmente. O próprio artista mantém um catálogo de projetos realizados em cidades do Brasil e do exterior.


Portanto, o problema não é Eduardo Kobra.


A questão é outra.


O que Cianorte fez — ou deixou de fazer — depois que Kobra foi embora?


A "CAPELA SISTINA" QUE NÃO VIROU DESTINO TURÍSTICO


Na época da inauguração, houve entusiasmo.


E não faltaram comparações grandiosas.


Para alguns admiradores da administração municipal, aquele mural representaria uma espécie de nova "Capela Sistina" de Cianorte: uma obra capaz de colocar o município no mapa cultural, atrair visitantes e inaugurar uma nova fase do turismo local.


A comparação, convenhamos, era enorme.


A verdadeira Capela Sistina está em Roma.


É patrimônio cultural, religioso e artístico de importância mundial. Recebe visitantes de diferentes partes do planeta e está integrada a uma estrutura turística, cultural e econômica muito maior.


Um mural, por mais importante que seja, não se transforma automaticamente em atração turística apenas porque está assinado por um artista internacional.


É necessário criar produto turístico.


É preciso divulgação.


É preciso roteiro.


É preciso calendário.


É preciso transporte.


É preciso infraestrutura.


É preciso estacionamento.


É preciso sinalização.


É preciso transformar a visita em experiência.


E, principalmente, é preciso fazer com que alguém tenha um motivo concreto para sair de outra cidade e viajar até Cianorte para conhecer aquilo.


Caso contrário, temos apenas uma obra de arte na parede.


Bonita?


Sim.


Importante culturalmente?


Pode ser.


Turística?


Isso precisa ser demonstrado.


TRÊS ANOS DEPOIS: CADÊ O PROJETO?


O ponto central desta discussão não é perguntar se o mural é bonito.


Arte não precisa passar pelo crivo da unanimidade.


O ponto é outro:


qual foi o resultado concreto dos R$ 287 mil investidos pelo município?


Quantos turistas vieram especificamente a Cianorte por causa do mural?


Quantas excursões foram organizadas?


Quantos hotéis registraram aumento de hospedagem associado ao atrativo?


Quantos restaurantes receberam visitantes atraídos pelo mural?


Quantos comerciantes da região foram beneficiados?


Quantos eventos culturais foram criados em torno da obra?


Quantos roteiros turísticos passaram a incluir a Praça da República?


Existe algum levantamento oficial sobre o número de visitantes?


Existe estudo de impacto econômico?


Existe estratégia permanente de conservação?


Existe planejamento turístico associado à obra?


Essas perguntas não são ataques à cultura.


São perguntas de transparência.


Porque quando dinheiro público é utilizado, a sociedade tem o direito de perguntar o que foi entregue em troca.


Veja como esta a Pintura em degradação e estragando no tempo, 287 mil para nada!!! Nem turismo fomentou na cidade como se falou...



O PROBLEMA NÃO É GASTAR COM CULTURA


É importante deixar isso absolutamente claro.


Uma cidade não vive apenas de asfalto, hospital, escola e obras de engenharia.


Cultura também é política pública.


Arte também é investimento.


Patrimônio também merece dinheiro público.


E um município pode — e deve — investir em cultura.


O problema começa quando se vende à população a expectativa de uma transformação que não é acompanhada de planejamento capaz de sustentá-la.


O próprio Kobra trabalha com a ideia de arte como instrumento de transformação social e promoção cultural contínua.


E existem exemplos de cidades que efetivamente transformaram murais de Kobra em atrações.


San Marino, por exemplo, incorporou um mural do artista a seus roteiros turísticos e desenvolveu ações especiais relacionadas à obra.


Marília também apresenta oficialmente um mural de Kobra como atrativo turístico e o integra à visitação do campus da Unesp.


Ou seja:


a obra pode gerar turismo.


Mas não basta pintar.


É preciso construir o turismo ao redor dela.


E CIANORTE?


Essa é a pergunta que deveria incomodar.


Se a promessa era transformação cultural e turística, onde está o planejamento?


Se a obra deveria fomentar o turismo, onde estão os indicadores?


Se seria apenas o começo de uma grande transformação, quais foram os capítulos seguintes?


Porque uma cidade não se transforma simplesmente colocando uma pintura em uma parede.


Uma cidade se transforma quando existe planejamento.


Quando existe continuidade.


Quando existe estratégia.


Quando existe manutenção.


Quando existe prestação de contas.


E quando a população consegue enxergar o resultado.


ENQUANTO ISSO, A PINTURA FICA AO RELENTO


Existe ainda uma ironia particularmente incômoda.


Uma obra apresentada como símbolo de modernidade, cultura e transformação está submetida ao tempo, ao sol, à chuva e às condições naturais de um espaço externo.


E aqui está outra pergunta que precisa ser feita:


qual é o plano de conservação do mural?


Porque patrimônio artístico também precisa de manutenção.


Se Cianorte investiu R$ 287 mil para colocar Eduardo Kobra em uma parede pública, não pode simplesmente considerar encerrada a responsabilidade do poder público no dia em que o artista termina a pintura.


A obra é pública.


O patrimônio é público.


O dinheiro utilizado foi público.


E a preservação também deveria ser tratada como responsabilidade pública.


R$ 287 MIL NÃO PODEM VIRAR APENAS UMA FOTOGRAFIA DE INAUGURAÇÃO


Talvez essa seja a grande lição do episódio.


Não existe problema em querer colocar Cianorte no mapa cultural.


Não existe problema em contratar um artista internacional.


Não existe problema em sonhar grande.


O problema está em confundir inauguração com resultado.


Inaugurar é fácil.


Resultado exige tempo.


Resultado exige planejamento.


Resultado exige números.


Resultado exige acompanhamento.


Resultado exige cobrança.


E é exatamente isso que a sociedade deve fazer.


Não se trata de demonizar a arte.


Não se trata de desqualificar Eduardo Kobra.


Não se trata sequer de afirmar, sem dados, que o mural jamais produziu qualquer benefício.


Trata-se de exigir que o poder público mostre qual benefício foi efetivamente produzido.


Porque, se a promessa era turismo, precisamos medir turismo.


Se era cultura, precisamos medir o legado cultural.


Se era desenvolvimento econômico, precisamos medir o impacto econômico.


Se era transformação urbana, precisamos avaliar a transformação.



A CAPELA SISTINA DE CIANORTE QUE NUNCA FOI CAPELA


Talvez o mural de Kobra seja lembrado no futuro como uma importante obra de arte urbana de Cianorte.


Talvez seja recuperado, valorizado e finalmente integrado a uma política turística consistente.


Mas, três anos depois, a pergunta continua válida:


onde está a transformação prometida?


Porque chamar uma parede de destino turístico não a transforma em destino turístico.


Chamar uma obra de "Capela Sistina" não a transforma em Capela Sistina.


E gastar R$ 287 mil não transforma automaticamente investimento público em resultado.


A arte ficou.


O artista foi embora.


A inauguração passou.


As fotografias ficaram nos arquivos.


E agora resta à cidade perguntar:


o que foi feito para que aquela pintura continuasse produzindo valor para Cianorte?


Se existe um plano, que seja apresentado.


Se existem números, que sejam publicados.


Se existem turistas, que sejam contabilizados.


Se existe retorno econômico, que seja demonstrado.


Porque dinheiro público não precisa de aplauso.


Precisa de transparência, resultado e prestação de contas.


E talvez essa seja a verdadeira obra que ainda falta pintar em Cianorte:


a obra da responsabilidade pública.


Marcio Nolasco

Editor-Chefe do Portal Bisbilhoteiro

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