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A Belém que habita em nós.

Por Walber Guimarães Junior, engenheiro e comunicador.


A COP 30 segue célere em Belém do Pará discutindo as mazelas de um planeta em declínio, com todos concordando com as preocupações com o clima, mas, em especial os países mais ricos, reticentes em submeter suas populações aos sacrifícios e adequações que as metas arrojadas exigem. Algo como a lendária reunião dos ratos que decidiram por unanimidade colocar um guizo no pescoço do gato para alertar sobre sua aproximação, ação abortada pela falta de voluntário para a missão.


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Todavia, foram as declarações do Chanceler alemão Friedrich Merz comemorando a saída de Belém com declaração ofensivas, ainda que reais, sobre a baixa qualidade de vida e condições oferecidas aos visitantes. Uma indignação que subiu vários tons porque revestida de desejos intensos de likes e compartilhamentos e objetivos eleitoreiros. Talvez a crítica exija uma análise mais criteriosa do que a histeria para impressionar o eleitor.


Não pertenço ao imenso conjunto daqueles que torceram o nariz para a escolha de Belém porque o assunto clima, sendo discutido em plena floresta amazônica, é bem mais adequado que em palacetes de Paris ou Dubai, inclusive porque provoca um choque de realidade importante para que percebam que o terceiro mundo tem realidade muito distante da Europa, EUA ou mesmo do leste asiático.


Usar como referência índices de qualidade de vida e desenvolvimento humano para comparar Belém com a média brasileira é tão ingrato quanto estender a comparação dos dados brasileiros com o leste europeu, por exemplo. A propósito, apenas o Sul do Brasil, tomado isoladamente oferece índices compatíveis com os melhores do mundo.


Para efeitos didáticos, faço uma comparação entre quatro universos distintos; Belém, Brasil, o Sul brasileiro isolado e o leste europeu para permitir, em curto espaço, uma avaliação destas realidades diversas.


Se assumirmos o IDH (índice de desenvolvimento humano) como referência temos Belém com 0,746 (dado de 2010, único formal disponível); a média mundial estacionada em 0,739; o Brasil com 0,766; o Sul isolado com 0,787 e o Leste Europeu com 0,810. Observem que a diferença mais impactante não é de Belém com média mundial, mas do Brasil com regiões desenvolvidas, com os dados do Sul explicitando as desigualdades regionais do nosso país.


Quando comparamos a longevidade, que muitos adotam como referência maior da qualidade de vida localizada, Belém atinge 74,9 anos, o Brasil 75,5, o Leste Europeu 76,1 e o Sul do Brasil com 78,3 anos, proximidade que não dá pistas para as razões do nosso atraso.


Todavia, ao visitarmos o índice de saneamento básico destas regiões, cada um de nós comece a perceber cada degrau que limita o nosso desenvolvimento. Enquanto Belém tem apenas 27% de saneamento básico, com números ótimos em água e ridículos em esgoto, a média nacional cruzou a linha dos 50% apenas no início desta década, o Sul já ultrapassou 80% e o Leste Europeu tem cobertura próxima dos 100%!


Direto ao ponto; nossa economia é maior que a média mundial; nosso investimento em educação está acima até de países em desenvolvimento e o IDH não está fora do centro da meta, logo nada disto explica as defasagens com o mundo desenvolvido, todavia, a questão fundamental são as desigualdades que precisam ser avaliadas para traduzir o Brasil.


As desigualdades regionais, expressas por exemplo na taxa de domicílios atendidos por esgoto, quase um sinônimo de qualidade da saúde pública ou na renda per capita de cada região isolada. Oferecem muito mais argumentos para traduzir o Brasil de norte a sul. Sim, continuamos sendo a Belíndia que Edmar Bacha cunhou em 1974, a Bélgica sulista convivendo na mesma federação do Índia nordestina e nortista. A propósito, busquei a expressão de Bacha para ressaltar que, em apenas 50 anos, a Índia encurtou, mesmo dobrando a população, por determinação e ótimas políticas públicas, a diferença, se colocando entre os países em desenvolvimento, embora ainda extremamente injusto socialmente.


Em ambos os países, a parcela do 0,1% mais rico congrega mais de 40% da renda e os 10% mais pobres vivem abaixo da linha da miséria. Listadas todas estas variáveis, talvez se possa avaliar as declarações do chanceler alemão com outros olhos.


Lógico que ele feriu a liturgia do cargo e as regras da boa diplomacia, mas também explodiu duas realidades latentes que a gente insiste em não enxergar; a imensa desigualdade regional e a humilhante desigualdade social do nosso país.


Melhor que a indignação com o chanceler seria a reação contra a nossa realidade. O jogo de poder nos impede de discutir nosso futuro porque isto chega a ser irrelevante na disputa pela posse dos cofres da nação.


Ainda somos o Brasil que comemora a morte de 120 bandidos no Rio e assiste passivo ao golpe do INSS ou ao golpe do Banco Master, ambos com um ponto em comum; a inércia criminosa, ou cumplicidade, que atravessou a fronteira das gestões públicas.


Chega da mediocridade de apontar o dedo para a gestão adversária. Os ministros da previdência de Bolsonaro e de Lula foram igualmente omissos e os presidentes e diretores do INSS provavelmente muito mais que isto. Os órgãos de controle que permitiram o golpe de Daniel Vorcaro do Master estavam em ambas os governos.


Encerrando, registro que nossa Ira Santa precisa mudar de direção; é a nossa classe política que fabrica diariamente razões para que ainda existam centenas de beléms pelo país. Não basta reagir contra o alemão em dia de super sincero, mas entender que a lição de casa passa pelo debate das nossas mazelas e não apenas do nome do nosso chefe de plantão.

 



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