A Anatomia de um Sucateamento Planejado: As Contradições e Números Alarmantes do Transporte Escolar em Cianorte
- Marcio Nolasco

- há 1 dia
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Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
1 - Primeiramente gostaríamos de esclarecer que todas as informações aqui apresentadas vieram de denúncias e pesquisas em documentos, sites oficiais e no portal oficial da Prefeitura de Cianorte.
2 - Esta é uma matéria de cunho investigativo com apresentação documental, e análises de dados disponíveis no próprio Portal da Transparência Municipal, além de falas e declarações do poder executivo.
3 - Essa matéria será dividida em 2 (duas) partes para melhor entendimento do leitor.
4 - Entramos em contato com o poder executivo solicitanto um parecer oficial sobre as demandas que serão aqui apresentadas, porém até o momento do fechamento dessa matéria não tivemos retorno! Espaço permanece aberto...

PARTE 1
A Estratégia do Sucateamento: Uma Análise sobre a Terceirização da Frota Escolar em Cianorte
A gestão do transporte escolar em Cianorte tornou-se o centro de um debate crucial sobre a eficiência e a transparência no uso do dinheiro público. Documentos oficiais, como o Ofício 84/2026 e o Plano Plurianual (PPA), revelam um cenário onde a deterioração do serviço público parece ser menos um acidente e mais uma escolha política deliberada para justificar a entrada da iniciativa privada.
1. O Contraste entre o "Velho" e o "Novo"
A resposta da Secretaria de Educação no Ofício 84/2026 é alarmante. A administração admite operar com veículos que somam três décadas de uso, despendendo aproximadamente R$ 3,7 milhões em manutenções paliativas — os chamados "remendos". O dado mais grave, entretanto, é a omissão frente à possibilidade de renovação gratuita: a gestão teria ignorado a vinda de alguns ônibus novos e sem custos para o município, preferindo manter a frota sucateada.
2. Existe projeto para aquisição de novos veículos? Quais os custos?
Há planejamento em andamento para aquisição de novos ônibus escolares. Os veículos indicados são do modelo ORE 3, com custo estimado atual de aproximadamente R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais) por unidade.
2. A Omissão de Recursos Federais
Ao analisarmos os dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), via programas como PNATE e PNAE, percebe-se um padrão de ineficiência arrecadatória. Enquanto havia a previsão de recebimento de quase R$ 1 milhão para o transporte, os valores "realizados" em diversas colunas aparecem zerados.

Isso indica que o município possuía autorização orçamentária, mas não cumpriu as exigências técnicas ou as metas do SIMEC para que o recurso fosse efetivamente depositado. No documento oficial de estimativa de receitas para 2023-2025, o valor registrado para o programa "Caminho da Escola" é explicitamente R$ 0,00, confessando a ausência de planejamento para buscar verbas federais de renovação.
3. A Engenharia da "Dotação Simbólica"
Um dos pontos mais técnicos e reveladores da denúncia é o uso de "Dotações Simbólicas" no orçamento. No PPA, a Ação 1024 (Aquisição de Veículos) possui o valor de apenas R$ 1.000,00. Na contabilidade pública, isso serve apenas para manter a conta "aberta" no sistema, sem qualquer intenção real de compra.

Em contrapartida, a Ação 2056 (Manutenção e Serviços) ostenta mais de R$ 8,6 milhões. A lógica é perversa: asfixia-se o investimento em patrimônio próprio (ônibus novos) para inflar o gasto com oficinas e terceiros, criando a narrativa de que a frota pública é "cara e ineficiente", o que pavimenta o caminho para o Pregão 45/2026, de terceirização.

4. Inversão de Prioridades Financeiras
Enquanto o transporte escolar sofreu um corte de R$ 1,4 milhão, os Encargos Especiais do município saltaram de R$ 15,2 milhões para R$ 32,5 milhões. Alegar falta de recursos para investir cerca de R$ 10 milhões na renovação total da frota própria em um orçamento global que beira os R$ 500 milhões é, no mínimo, matematicamente questionável.

O que se observa em Cianorte é uma gestão que prioriza o custeio da obsolescência em vez do investimento no patrimônio da sociedade. Ao deixar de buscar recursos federais gratuitos e planejar investimentos simbólicos em veículos novos, a prefeitura parece forçar uma necessidade de terceirização que custará R$ 2,2 milhões aos cofres públicos. Cabe agora aos órgãos de controle, como o Ministério Público, investigar se este processo configura um dano deliberado ao patrimônio público (ou não) para favorecer o lucro privado em detrimento do serviço concursado e da segurança dos alunos.´
PARTE 2
As Contradições e Números Alarmantes do Transporte Escolar em Cianorte
A transparência na administração pública exige que o discurso político coincida com a execução orçamentária. No entanto, em Cianorte, a análise cruzada entre as declarações do Poder Executivo à imprensa e os documentos oficiais (PPA e Ofícios) revela um abismo de contradições que aponta para uma estratégia deliberada de sucateamento da frota escolar.
1. O Discurso na Mídia vs. A Realidade no Papel
Em junho de 2022, o prefeito Marco Franzato afirmou publicamente: "Temos nos organizado para renovar a nossa frota, trazendo mais segurança [...] e menos gastos com manutenção".
Contudo, apenas seis meses depois, ao assinar o Plano Plurianual (PPA), a prática foi o oposto do discurso:
Investimento em Compra (Ação 1024): Apenas R$ 1.000,00 (Um mil reais) — um valor meramente simbólico.
Gasto com Manutenção (Ação 2056): Impressionantes R$ 8,6 milhões.
O prefeito sabia que comprar novos veículos economizaria dinheiro público, mas escolheu, no orçamento, perpetuar o gasto com oficinas em veículos de 30 anos.
Na Imprensa local:
2. A "Matemática do Desperdício": Manutenção daria para uma Frota Nova
A disparidade nos valores é matematicamente injustificável. Se utilizarmos o valor real de mercado de um ônibus escolar (modelo ORE1, citado em notícias oficiais por cerca de R$ 240 mil), chegamos a uma conclusão estarrecedora:
Os R$ 8,6 milhões destinados apenas para manutenção no PPA seriam suficientes para adquirir 35 ônibus novos à vista.
Em vez de renovar quase 70% da frota com veículos zero quilômetro, a gestão optou por "enterrar" esse valor em consertos de veículos obsoletos.
3. A Inflação Artificial dos Preços
Para justificar a impossibilidade de compra e a "necessidade" de terceirizar, a prefeitura parece manipular o custo dos veículos:
Em 2023: O Secretário informou que um ônibus novo custava R$ 317 mil.
No Ofício 84/2026: A prefeitura alega agora que o modelo ORE3 custa R$ 800 mil.
Um salto de 150% em apenas três anos foge de qualquer índice inflacionário real, servindo apenas para criar a narrativa de que "não há dinheiro para comprar".
Preços dos ônibus:

4. O Ponto Mais Grave: A Conta da Terceirização vs. Frota Própria
O dado mais alarmante que até cabe para uma investigação do Ministério Público e TCE PR surge na comparação entre quilometragem e custo:
Frota Própria: Percorre 113.146 km/mês com um custo anual de manutenção e combustível de R$ 3,7 milhões (conforme Ofício 84/2026).
Terceirização Planejada: O município pretende pagar R$ 2,2 milhões por mês (mais de R$ 26 milhões por ano) para que uma empresa privada rode apenas 22.000 km/mês.

A conta é simples e devastadora: a prefeitura quer pagar um valor 7 vezes maior por um serviço que entrega 5 vezes menos quilometragem que a frota pública.
5. Veículos Fantasmas e Substituição de Fachada
Enquanto notícias de janeiro de 2023 falavam em uma frota de 56 veículos, o Ofício de 2026 lista apenas 52. Onde estão os 4 veículos restantes? Se foram leiloados, por que o recurso não foi revertido para a compra de novos? Além disso, a promessa de que novos veículos substituiriam os antigos não se cumpriu, já que o próprio município admite manter em circulação 7 veículos com mais de 30 anos de uso.
Conclusão: Um Ciclo de Eficiência Invertida
A evidência documental sugere que a prefeitura de Cianorte criou um ciclo de "asfixia financeira":
Cria-se a despesa (manutenção infinita em ônibus velhos);
Abandona-se a receita (omissão de verbas federais gratuitas);
Infla-se o custo (alegando que ônibus novos custam R$ 800 mil);
Justifica-se o lucro privado (terceirização milionária por uma quilometragem ínfima).
"Este não é um problema de caixa, mas de prioridade política. O transporte das crianças de Cianorte está sendo transformado em uma operação financeira altamente vantajosa para terceiros e extremamente onerosa para o cidadão". Marcio Nolasco.
Enquanto isso tudo esta acontecendo, os veículos de transporte escolar andam com nossas crianças todos os dias SEM MANUTENÇÃO ADEQUADA e muitos foram abandonados em oficinas sem motores e estragados... e segue o jogo político!
Veja:
Vídeo de ônibus em serviço andam com vazamento de água e de óleo.
Vídeo de vários ônibus abandonados em oficina (alguns a mais de 9 meses) sem manutenção e sem motores!
obs: Foi retirado o som destes vídeos para não gerar qualquer tipo de retaliação aos envolvidos e denunciantes.













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