TINHA UM SONHO IR PARA NOVA YORK
- Arquibancada

- 17 de jul.
- 4 min de leitura
Por Vini Fagundes
Pois bem, meus nobres consagrados, quanto mais essa Copa avança, mais vergonhosa fica a forma como o Brasil se despediu. Este Mundial escancarou uma verdade incômoda: não há espaço para time frouxo, assustado ou sem alma competitiva. Só seguem vivos aqueles que encaram o mata-mata com coragem, intensidade e peito aberto. Costa do Marfim, Senegal, Japão, Holanda, Congo, Brasil, Inglaterra... todos tiveram a chance de avançar nos jogos eliminatórios, mas preferiram agir como um passarinho no meio do temporal. Entregaram a bola, recuaram demais, aceitaram sofrer e se esconderam em uma competição que exige técnica, força, garra e mentalidade vencedora — justamente tudo aquilo que faltou à seleção brasileira.

Ver a Argentina jogar me coloca em um conflito difícil de explicar. Por um lado, é um privilégio assistir Messi, nesta fase da carreira, ainda decidindo, encantando e dando aula de liderança dentro de campo, mesmo quando por duas vezes tudo parecia perdido. Por outro, é impossível não sentir um incômodo enorme ao comparar os hermanos com o desastre brasileiro, com a apatia constrangedora do nosso time e, principalmente, com as escolhas de Ancelotti. E esse vexame não nasceu contra a Noruega. Começou lá atrás, em 9 de dezembro de 2022, na eliminação nos pênaltis para a Croácia. Nunca, na história da seleção, carregamos tantos remanescentes de uma Copa para outra: em 2026, 15 nomes também estavam na copa do Catar. De 1958 para 1962 foram 14, sim, mas de uma equipe campeã, não de um grupo marcado por frustração e trauma.
O erro já apareceu na convocação: 9 atacantes e apenas 5 meio-campistas, algo que ficou ainda mais evidente quando o lateral-direito Wesley foi cortado e Ederson, um volante, foi chamado. Na prática, a partida contra a Noruega escancarou essa fragilidade: perdemos o meio-campo e não havia ninguém no banco para entrar e mudar a dinâmica do jogo. Com todo respeito à carreira gigantesca de Ancelotti, mas essa condução foi desastrosa.
Ainda sobre a desclassificação contra a Noruega, eu sinceramente me pergunto se a vergonha não foi ainda maior que o 7 a 1 de 2014. Pode parecer exagero, mas não é. Em 2014, houve um apagão coletivo, uma tragédia esportiva daquelas que dificilmente se repetem. Contra a Noruega, porém, o problema foi mais grave: foi escolha se portar covardemente. Foi decisão do treinador colocar o Brasil inteiro atrás da linha da bola, enfiado na intermediária defensiva, como se estivesse enfrentando uma potência histórica, os temíveis vikings e sua remada. Fazer isso diante de uma seleção apenas mediana é um atestado de covardia. É pequeno demais para quem veste a camisa mais pesada do futebol mundial.
E aí fica a pergunta: se fosse Tite fazendo isso, o que diriam? Ele caiu em duas Copas, mas seus times jamais se omitiram. Contra a Bélgica, em 2018, e contra a Croácia, em 2022, o Brasil pressionou, criou, amassou, mas a bola não entrou. Mesmo assim, destruíram Tite, chamando-o de “retranqueiro”, “frouxo”, “comprado” e “seleção de empresário”. Agora, Ancelotti volta tranquilamente para sua casa na Europa e só retorna ao Brasil no fim de agosto para convocar a seleção da Data FIFA de setembro. Além disso, ainda ganha de presente mais quatro anos de contrato, com cifras absurdas, depois de uma atuação humilhante. É difícil engolir.
E, claro, quando o jogo termina, aparece a tropa de sempre para despejar a culpa em Neymar: “cafajeste”, “foi isso que você veio fazer?”. Ora, se ele estava machucado e não tinha condição de atuar, Ancelotti deveria ter cortado o jogador — ou faltou coragem para tomar essa decisão? Dentro de campo, Neymar foi um dos poucos que não se esconderam. Entrou em dividida, chamou o jogo e, em pelo menos quatro lances, apareceu livre para receber, mas a bola simplesmente não chegou. O problema é que alguns companheiros nem pareciam compreender o raciocínio dele, tampouco enxergar seus movimentos para sair da marcação. Para piorar, o treinador inventou Neymar como falso 9, deslocou Endrick aberto pela ponta e praticamente anulou o garoto, que ficou isolado e sem função clara. Sem um meio-campo capaz de fazer a bola progredir, Neymar precisava voltar o tempo todo para tentar organizar alguma jogada. Era óbvio que isso não daria certo.
O mais sensato seria defender em um 4-4-2, subir as linhas e manter Haaland e Ødegaard longe da área — aliás, joga demais o camisa 10 norueguês. Vini e Rayan poderiam fechar os corredores, com Neymar e Endrick mais à frente. Isso certamente obrigaria o time europeu a recuar e trocar passes no próprio campo de defesa, deixando-os mais vulneráveis. Uma alternativa seria tirar Rayan e colocar um meio-campista, formando uma trinca de volantes com liberdade para jogar, no modelo 4-3-1-2, com Neymar à frente do trio, compondo um losango, circulando fora da área e distribuindo o jogo, assim como faz o camisa 10 da Noruega. Só que, para isso, era preciso ter peças no banco, e não havia. Faltava alguém com a característica de Andreas Pereira, que deveria ser nome certo nessa Copa. Em vez de fortalecer o meio com opções, a escolha passou por Igor Thiago, Luiz Henrique... enfim, vai entender o porquê disso.
E o que fica de 2026? Praticamente nada além de constrangimento. A possibilidade de Neymar disputar a Copa de 2030 não é completamente absurda, mas, para isso virar algo minimamente real, ele precisa sair urgentemente do Santos, buscar uma liga menos pesada — como a dos Estados Unidos — e deixar para trás um clube em frangalhos, onde precisa jogar mesmo machucado para evitar o rebaixamento. Além disso, precisa tratar o próprio corpo como prioridade absoluta. Mesmo assim, sendo bem sincero, é difícil imaginar que ele consiga atravessar mais quatro anos com foco total nisso.
No domingo, chega a grande final. Na música, o sonho brasileiro de estar em nova york, na verdade não deixou saudade e muito menos teve um novo herói, o sonho virou um pesadelo. Nos restou apreciar o evento de uma Argentina que entra forte, madura e com espírito de equipe vencedora. Do outro lado, a Espanha aparece extremamente bem organizada, consciente taticamente e pouco disposta a entregar a bola para o adversário jogar. Será o choque entre um coletivo espanhol muito bem ajustado e uma Argentina valente, intensa e ainda guiada pelo brilho de Messi. Dependendo do que acontecer, talvez seja o momento do mundo do futebol repensar e quem sabe coroar um novo rei. Mas essa conversa fica para outro artigo...



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Nitidamente um texto escrito por quem tem propriedade no assunto. Parabéns.
Excelente análise
Um texto muito bem escrito onde o autor exibe conhecimento sobre o futebol e a copa 2026.