Somos Todos Cornos - E se você ainda não foi, vai ser...
- Marcio Nolasco

- 27 de fev.
- 2 min de leitura
Quem nunca sentiu a alma trincar no gelo morno de um copo suado, encostado numa mesa torta de boteco, tentando esquecer o nome dela que insistia em ecoar até na espuma da cerveja? Ah, meu irmão, se você nunca chorou por amor, ou melhor, por dor de chifre, então te falta a mais cruel das experiências humanas. Te falta humanidade, te falta o diploma de corno – e corno, meu caro, é título vitalício, é como a cicatriz que não se vê, mas pulsa.
O chifre, veja bem, não escolhe cor, credo, casta ou classe. O chifre é democrático. E mais: é pedagógico. Ensina o homem a ser humilde, a descer do salto, a trocar o volante da caminhonete por um banco de bar encardido. Todo homem de verdade já foi, é, ou será corno. E se disser que não, minta com mais convicção, pois o mundo é um imenso curral sentimental e ninguém está imune ao coice do destino.
Quem nunca, no auge da bebedeira existencial, entoou Reginaldo Rossi como se fosse hino nacional? Quem nunca pediu ao garçom outra dose — não de cachaça, mas de alívio? Garçom, mais uma, que hoje o coração virou depósito de mágoa e saudade. Ah, Rossi... se tu soubesses que tua música virou prece em cada balcão de esquina...
Ser corno é um rito, é poesia que sangra. É o Brasil em estado bruto. É o samba atravessado na garganta. É brega, é dramático, é real. E não pense que é exclusividade dos feios, dos pobres ou dos românticos inveterados. Não! Tem muito bonitão, engravatado, influenciador digital, até político com mandato, que anda por aí com o chifre reluzente sob a luz de um poste qualquer. O chifre, meus amigos, não tem preconceito: ele ama todos por igual.

No Brasil, até feriado o corno tem — 25 de abril, dia oficial da testa latejante. Merecido. Porque o corno é patrimônio imaterial da nação. Ele é a alma do samba-canção, o sangue do sertanejo sofredor, a lágrima do brega. Ele é o poeta que ninguém lê, mas todos sentem.
E que ninguém ouse ridicularizar o corno. Ele é um sobrevivente, um herói anônimo, um romântico numa era de desapegos. É no boteco, entre coxinhas murchas e azulejos trincados, que ele encontra a sua tribo. Ali, entre a prostituta cansada, o velho que ri demais, o garçom que esquece os pedidos e o rádio chiando Amado Batista, o corno encontra paz. E canta. E chora. E brinda. Porque, no fundo, todos nós somos um pouco cornos da vida.
E se um dia os alienígenas aterrissarem por aqui, tomara que encontrem um bar, um violão desafinado e uma alma ferida cantando seu abandono. Assim, saberão que no planeta Terra, o amor existe, mas o chifre é garantido.
Créditos do autor: Big Ben













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