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REPORTAGEM ESPECIAL : TRUMP CAUSA PREJUÍZOS PARA AS EMPRESAS NACIONAIS E A ECONOMIA BRASILEIRA

Nova tarifa de até 37,5% imposta pelos Estados Unidos coloca Brasil entre os países mais penalizados do comércio internacional e ameaça bilhões em exportações


Por Marcio Nolasco


A política comercial adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a provocar fortes impactos sobre a economia brasileira. A partir desta sexta-feira (24), entra em vigor uma nova tarifa adicional de 12,5% sobre milhares de produtos brasileiros exportados ao mercado norte-americano.


O novo percentual será somado, para a maioria dos produtos, à sobretaxa de 25% anunciada na semana passada, fazendo com que diversos itens brasileiros passem a enfrentar uma tributação adicional de até 37,5% para entrar nos Estados Unidos.


Na prática, trata-se de uma das maiores barreiras comerciais impostas ao Brasil nas últimas décadas.


Com a decisão, o país passa a ocupar uma posição preocupante no cenário internacional, tornando-se um dos parceiros comerciais mais afetados pelas medidas tarifárias americanas, ficando atrás apenas da China em nível de sobretaxação.



Um impacto bilionário


Segundo levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), a nova tarifa de 12,5% alcança aproximadamente 3 mil produtos brasileiros, que representam cerca de US$ 12,5 bilhões em exportações anuais para os Estados Unidos — aproximadamente R$ 63,7 bilhões.


Desse total:


  • 85,3% das exportações, equivalentes a cerca de US$ 10,7 bilhões, passam agora a acumular as duas tarifas;

  • milhares de empresas brasileiras terão perda imediata de competitividade;

  • diversos contratos internacionais poderão ser revistos.


Na prática, apenas produtos constantes nas listas oficiais de exceção publicadas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) escapam da dupla tributação.


Todos os demais passam a enfrentar custos significativamente maiores para competir no mercado americano.


Por que os Estados Unidos aplicaram as tarifas?


A nova cobrança foi estabelecida com base na Seção 301 do Trade Act de 1974, legislação norte-americana utilizada para investigar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos.


Segundo o governo americano, o Brasil não estaria adotando medidas suficientes para combater:


  • trabalho forçado em determinadas cadeias produtivas;

  • práticas consideradas desleais de comércio;

  • questões ambientais relacionadas ao desmatamento.


Essas investigações vêm sendo conduzidas desde 2025 e serviram de fundamento jurídico para justificar as novas barreiras comerciais.


O governo brasileiro, entretanto, rejeita integralmente essas acusações.



Os setores mais atingidos


A lista dos produtos afetados é extensa e atinge diversos segmentos estratégicos da economia nacional.


Entre eles estão:


Etanol


O combustível brasileiro tornou-se um dos principais alvos da política comercial americana.


O produto, que já havia recebido tarifa adicional de 25%, agora sofre nova incidência de 12,5%, alcançando tributação acumulada de 37,5%.


Segundo documentos da investigação americana, produtores dos Estados Unidos alegam que políticas brasileiras reduziram sua competitividade e defenderam a aplicação das sobretaxas.


Máquinas agrícolas


Equipamentos como:


  • tratores;

  • colheitadeiras;

  • semeadoras;

  • escavadeiras;

  • britadeiras;

  • componentes industriais.


Todos passam a enfrentar custos muito maiores para entrar no mercado norte-americano.


Transformadores elétricos


Também entram na lista equipamentos utilizados em:


  • redes de energia;

  • subestações;

  • infraestrutura elétrica;

  • centros de dados de inteligência artificial.


Calçados


O setor calçadista brasileiro também sofre impacto direto.


Entre os produtos afetados estão:


  • botas;

  • calçados de couro;

  • tênis;

  • calçados de segurança.


Indústria moveleira


Móveis de madeira como:


  • mesas;

  • cadeiras;

  • armários;

  • estantes.


Também passam a enfrentar a nova tributação.


Vestuário


Roupas produzidas no Brasil entram na lista.


Entre elas:


  • camisas;

  • calças jeans;

  • roupas íntimas;

  • casacos;

  • peças sintéticas.


Outros setores


Também sofrem impactos:


  • granito;

  • mármore;

  • quartzito;

  • pisos de madeira;

  • equipamentos eletrônicos;

  • produtos químicos;

  • derivados da celulose.


Alguns produtos escaparam


Apesar da abrangência das medidas, os Estados Unidos mantiveram uma lista de exceções considerada estratégica para sua própria economia.


Ficaram de fora:


  • aeronaves civis;

  • motores aeronáuticos;

  • componentes da indústria aeronáutica;

  • determinados produtos de aço e alumínio;

  • ferro-gusa;

  • pelotas de minério;

  • sucata metálica;

  • hidróxido de alumínio;

  • livros;

  • filmes;

  • doações humanitárias;

  • bagagens pessoais;

  • alguns produtos agrícolas;

  • determinados tipos de madeira tropical;

  • café solúvel;

  • mel orgânico;

  • alguns cortes específicos de carne bovina.


A manutenção dessas exceções demonstra que, embora a política comercial seja rígida, Washington preserva setores considerados essenciais para sua própria cadeia produtiva.


Os efeitos já aparecem


Mesmo antes da entrada em vigor da nova tarifa de 12,5%, os impactos da política comercial americana já eram percebidos nas exportações brasileiras.


Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que:


  • 20 dos 27 estados brasileiros reduziram suas exportações para os Estados Unidos no primeiro semestre de 2026.


Desde março de 2025:


  • as vendas brasileiras ao mercado americano caíram 13%;

  • isso representa perda aproximada de US$ 2,6 bilhões.


As maiores retrações ocorreram em:


  • Acre (-62,8%);

  • Tocantins (-52,1%);

  • Rondônia (-49,1%);

  • Amapá (-41,2%);

  • Pará (-31,4%).


Segundo a CNI, a queda foi puxada principalmente pela redução nas exportações de produtos industriais, especialmente:


  • ferro e aço;

  • ferro fundido;

  • pasta química de madeira;

  • derivados do petróleo;

  • ligas metálicas.


Empresas brasileiras perdem competitividade


Especialistas em comércio exterior alertam que o maior efeito das tarifas não está apenas no aumento do imposto.


Quando um produto brasileiro chega ao mercado americano pagando até 37,5% de tarifa adicional, ele se torna significativamente mais caro que produtos fabricados em outros países concorrentes.


Na prática, isso significa:


  • perda de contratos internacionais;

  • redução das margens de lucro;

  • diminuição da produção industrial;

  • possível queda nas exportações;

  • menor geração de empregos em setores exportadores.


Empresas podem buscar novos mercados, mas essa adaptação costuma exigir tempo, investimentos e negociações comerciais.


O governo brasileiro promete reação


Após o anúncio da nova sobretaxa, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou que iniciará imediatamente os procedimentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, instrumento que permite ao Brasil adotar medidas equivalentes contra países que imponham barreiras comerciais unilaterais.


Além disso, o governo anunciou que pretende levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC), argumentando que os Estados Unidos estariam utilizando justificativas ligadas ao trabalho forçado como fundamento para uma política de caráter protecionista.


Segundo nota divulgada pelo Palácio do Planalto, a administração brasileira considera que houve uso inadequado da legislação comercial norte-americana para restringir o acesso de produtos brasileiros ao mercado dos Estados Unidos.


A disputa vai além das tarifas


A nova rodada de sobretaxas evidencia que a disputa entre Brasil e Estados Unidos ultrapassa questões tributárias e alcança aspectos estratégicos da política comercial internacional.


Embora as investigações norte-americanas estejam fundamentadas em temas como trabalho forçado, meio ambiente e práticas comerciais, os efeitos econômicos recaem diretamente sobre empresas exportadoras, cadeias produtivas e trabalhadores brasileiros.


Para o setor produtivo, o desafio imediato será preservar competitividade em um dos principais mercados consumidores do mundo. Já no campo diplomático, a controvérsia tende a se intensificar, com possíveis desdobramentos na Organização Mundial do Comércio e na aplicação da Lei da Reciprocidade pelo governo brasileiro.


Enquanto não houver uma solução negociada entre os dois países, milhares de empresas nacionais enfrentarão custos mais elevados, maior concorrência internacional e um ambiente de negócios mais desafiador, refletindo diretamente sobre investimentos, produção, emprego e crescimento econômico.

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