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Reflexão pastoral sobre o imediatismo, as escolhas e o que realmente importa

Christina Faggion Vinholo, teóloga.

Especialista em AT e NT.


Quando a notícia se espalhou pelas redes sociais, muitos ficaram em choque: Gabriel Ganley, fisiculturista e influenciador digital de apenas 22 anos, foi encontrado morto em seu apartamento na zona leste de São Paulo, no dia 23 de maio de 2026. Com mais de um milhão e meio de seguidores, ele era referência para jovens apaixonados por transformação corporal. Jovem, disciplinado, admirado. E morto cedo demais.



A causa apontada no atestado de óbito foi cardiomiopatia hipertrófica — uma condição em que o músculo do coração cresce de forma anormal, dificultando o fluxo sanguíneo. Dentro de seu apartamento, a perícia encontrou o que foram descritos como “possíveis anabolizantes”. Não era segredo: Gabriel falava abertamente nas redes sociais sobre o uso contínuo de esteroides e hormônios para competir na categoria Open do fisiculturismo. Ele próprio havia relatado, publicamente, ter quase desmaiado duas vezes durante a aplicação das substâncias.


É preciso dizer com cuidado, mas com clareza: a morte de Gabriel Ganley é profundamente triste. Nenhuma família deveria perder um filho de 22 anos. Nenhum jovem deveria sentir que precisa arriscar a própria vida para ser admirado.


Mas, com todo o respeito e sem qualquer julgamento de caráter, a morte de Gabriel não foi uma fatalidade no sentido estrito da palavra. Fatalidade é o que não se pode prever, o que acontece sem escolha, sem sinal, sem aviso. Este não foi o caso.


Gabriel sabia dos riscos. Ele mesmo os verbalizava. Seus seguidores o alertavam. A ciência médica é inequívoca sobre os danos cardiovasculares do uso prolongado e excessivo de anabolizantes. Havia sinais. Havia escolhas. E havia, ao redor dele, um mercado inteiro que se beneficiava de sua imagem e de sua disposição de ir além dos limites — sem assumir nenhuma das consequências.


Isso não diminui a dor de sua perda. Mas nos convida a uma reflexão honesta sobre o mundo em que vivemos.


O caso de Gabriel não é isolado. Ele é sintoma.


Vivemos numa era em que a velocidade virou virtude. As redes sociais recompensam resultados visíveis e rápidos — corpo, dinheiro, sucesso — e invisibilizam o processo, o tempo, o custo real de cada conquista. O ambiente atual pune quem espera e premia quem aparece primeiro, mesmo que de forma artificial.


E aí se instala um ciclo perigoso: a pessoa vê o resultado do outro e quer o mesmo; busca atalhos para chegar lá mais rápido; o mercado oferece esses atalhos com embalagem atrativa; os riscos ficam em letras pequenas, quando aparecem; e quando algo dá errado, a culpa recai apenas sobre o indivíduo — nunca sobre o sistema que o empurrou.


Esse imediatismo não está apenas nas academias. Está nas finanças pessoais, nas relações afetivas, nas decisões políticas, na educação dos filhos. Estamos, como sociedade, esgotados de tentar ser tudo ao mesmo tempo e no menor tempo possível. E a grande ironia é que essa pressa, muitas vezes, destrói exatamente aquilo que mais desejamos alcançar.


Mas há algo ainda mais revelador nessa dinâmica: o imediatismo invadiu também a alma.


Muitos de nós — e vale a honestidade aqui — não queremos mais ler a Bíblia com calma, estudá-la, meditar nela, deixá-la nos transformar por dentro. Queremos respostas rápidas para nossas aflições. Queremos bênçãos, prosperidade, soluções concretas para problemas concretos. Queremos o resultado espiritual sem o processo espiritual.


A vida de oração virou, para muitos, mais um item de consumo. Uma religiosidade de resultados — “o que Deus pode fazer por mim?” — em vez de uma relação de entrega, de escuta, de transformação profunda. O espetáculo substituiu o silêncio. A euforia substituiu a meditação. E a busca pelas coisas eternas foi engolida pela urgência das coisas terrenas.


Não é por acaso que muitas igrejas também se adaptaram a essa lógica: cultos cada vez mais curtos, mensagens que prometem prosperidade imediata, experiências emocionais intensas no lugar do crescimento sólido na Palavra. O mercado espiritual aprendeu a vender o que a cultura da pressa quer comprar.


As Escrituras, porém, narram uma história completamente diferente.


Moisés passou 40 anos no deserto antes de liderar o êxodo. Abraão esperou décadas pela promessa do filho. José foi traído, escravizado e preso antes de reinar. Davi foi ungido rei e ainda passou anos fugindo de Saul. Em nenhum desses casos Deus operou na velocidade que a ansiedade humana desejava. Em todos eles, o processo era parte inseparável do propósito.


O Salmo 46.10 traz uma das mais desconcertantes instruções divinas para uma geração acelerada: “Aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus.” Parar. Silenciar. Reconhecer. Numa cultura que considera a quietude uma perda de tempo, esse verso é quase subversivo.


Jesus, ao longo de seu ministério, recusou sistematicamente os atalhos. Foi tentado no deserto justamente com a lógica do imediatismo — transforme pedras em pão, jogue-se do templo, domine todos os reinos agora. E recusou. Porque o caminho do Reino não é o caminho da performance, da aparência ou da velocidade. É o caminho da cruz — lento, doloroso, transformador e, no fim, glorioso.


O que podemos aprender com tudo isso — com Gabriel, com nossa sociedade acelerada, com nossa espiritualidade rasa?


Que há uma diferença fundamental entre *conquistar* e *receber. Entre **produzir* e *crescer. Entre **aparecer* e *ser*.


O corpo de Gabriel foi construído para os olhos dos outros, num ritmo que seu coração não suportou. Quantas de nossas vidas espirituais seguem a mesma lógica? Construídas para aparecer, para performar, para impressionar — mas por dentro, frágeis, vazias, sem raiz.


Jesus disse que quem ouve suas palavras e as pratica é como aquele que constrói sobre a rocha. Não sobre a areia das tendências, dos resultados imediatos, das aparências. Sobre a rocha — que exige escavação, tempo, trabalho invisível.


A morte de Gabriel nos convoca a parar. A olhar para nossas próprias escolhas. A perguntar: em que estou investindo meu tempo, meu corpo, minha alma? Que tipo de resultado estou perseguindo — e a que custo?


E nos convoca, sobretudo, a redescobrir que as bênçãos mais reais não são as que chegam depressa. São as que duram para sempre.


“Porque os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão.”

— Isaías 40.31



Instagram: @chrisvinholo

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