R$ 840 MIL EM UM SHOW — E PACIENTES ESPERANDO NA FILA: O ESCÂNDALO DAS PRIORIDADES EM CIANORTE
- Marcio Nolasco

- 8 de mai
- 6 min de leitura
Atualizado: 9 de mai
Enquanto vereadores tiram dinheiro da Câmara para salvar a saúde, a prefeitura banca um espetáculo de 80 minutos.
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
Por décadas, prefeitos brasileiros aprenderam uma regra silenciosa da política municipal: quando a cidade começa a reclamar demais, faça uma festa.
Em Cianorte, no noroeste do Paraná, a lógica parece estar sendo aplicada com precisão cirúrgica — mesmo que isso signifique ignorar uma realidade cada vez mais difícil de esconder: a saúde pública municipal atravessa um dos momentos mais críticos dos últimos anos.
Filas para consultas especializadas que se arrastam por meses.Exames que demoram tanto que, quando finalmente são liberados, o diagnóstico já perdeu o tempo clínico ideal.Relatos de pacientes aguardando por atendimento enquanto doenças evoluem.
Esse cenário não é uma denúncia isolada.
Ele tem sido registrado por veículos de imprensa locais e estaduais, incluindo reportagens publicadas pelo portal bisbilhoteiro.com.br, que vêm documentando a deterioração progressiva da estrutura da saúde pública municipal.
Mas, em meio a esse quadro, uma decisão administrativa levanta uma pergunta inevitável:
Como justificar quase R$ 1 milhão para um único show musical enquanto a população espera atendimento médico?

O SHOW DE R$ 840 MIL
(E para os desavisados, dinheiro gasto com show não é dinheiro carimbado! É um gasto escolhido como gastar/usar com recusrsos próprios e em qual prioridades)
A Prefeitura de Cianorte confirmou a contratação da dupla sertaneja Zé Neto e Cristiano para o festival municipal.
O valor do contrato: aproximadamente R$ 840 mil.
Tempo estimado da apresentação: 1 hora e 20 minutos.
Em termos simples:R$ 10.500 por minuto de show.
É importante deixar claro algo que precisa ser dito com honestidade.
O valor não é fora do mercado.
A dupla é uma das mais populares do país e mantém agenda intensa de apresentações em 2026, com shows realizados em diversas cidades brasileiras e participações em grandes eventos sertanejos.
Apresentações recentes incluíram festivais e feiras agropecuárias, como eventos em cidades como Bragança Paulista (SP) e ExpoLondrina, no Paraná.
Ou seja:
Não é o cachê que causa indignação.
É o contexto.

SÓ A TÍTULO DE INFORMAÇÃO - EXPO PATO 2025 (JULHO)
Em Pato Branco o mesmo Show de Ze Neto e Cristiano (12 meses passados) custou para o município 754 mil reais.

O OUTRO LADO DA CONTA
Enquanto quase um milhão de reais é destinado a um show de 80 minutos, a própria Câmara Municipal precisou agir para socorrer a saúde pública da cidade.
Vereadores aprovaram a destinação de R$ 700 mil do orçamento do Legislativo para reforçar os serviços de saúde.
Isso significa que o poder que deveria fiscalizar o Executivo acabou financiando aquilo que o Executivo não conseguiu garantir sozinho.
Em outras palavras:
A Câmara tenta remendar o sistema de saúde.
A Prefeitura investe quase o mesmo valor em entretenimento de uma única noite.
A matemática política dessa equação é brutal.
A festa custa mais do que o socorro emergencial para a saúde.

UMA CIDADE COM FILAS — E PALCO
Nos bastidores da saúde pública de Cianorte, os relatos são constantes.
Pacientes aguardando:
consultas com especialistas
exames diagnósticos
cirurgias eletivas
Muitos acabam recorrendo ao sistema privado — quando conseguem pagar.
Quem não consegue, espera.
E espera.
E espera.
É a rotina silenciosa de milhares de cianortenses dependentes do Sistema Único de Saúde.
Um sistema que, apesar de universal em teoria, na prática depende da prioridade política dada pelo prefeito que usa sistema particular de saúde e não depende do SUS no município.
E prioridade, como qualquer gestor público sabe, se revela no orçamento.
O PARADOXO DA GESTÃO “HUMANIZADA”
Nos discursos oficiais, a palavra da moda na administração pública de Cianorte é “humanização”.
Humanizar a gestão. Humanizar a saúde. Humanizar o atendimento.
Mas existe uma pergunta incômoda que precisa ser feita.
O que significa gestão humanizada quando pacientes aguardam exames enquanto quase R$ 1 milhão financia uma noite de entretenimento? Responda por favor prefeito Marco Franzato...
Humanização não se mede em slogans.
Ela se mede em prioridades.
ENQUANTO ISSO, TAMBÉM O TRANSPORTE ESCOLAR SE DETERIORA
A saúde não é o único setor em crise.
Recentemente, reportagens da imprensa estadual também trouxeram à tona problemas graves no transporte escolar municipal.
Entre as denúncias:
ônibus sucateados
condições precárias de segurança
veículos transportando alunos em situação considerada inadequada
Ou seja, enquanto um Festival de Cianorte recebe investimentos robustos, com muita propaganda política, dois pilares essenciais da política pública — saúde e educação — enfrentam problemas estruturais desastrosos na cidade.
É nesse contexto que o gasto com shows ganha outra dimensão.
A POLÍTICA DO PÃO E CIRCO
A estratégia não é nova.
Desde o Império Romano, governantes aprenderam que festas públicas funcionam como anestesia social.
O princípio é simples:
Dê espetáculo ao povo e, por algumas horas, a indignação se dissolve em música e fogos de artifício.
No Brasil municipal, isso se repete há décadas.
Festas da cidade. Shows milionários. Eventos patrocinados pelo dinheiro público.
Tudo isso enquanto serviços púbicos de saúde essenciais lutam por recursos e se arrastam aos frangalhos. Claro, para além disso é sabido que nenhum neto, filho, esposa ou os próprios prefeitos usam esses serviços, em pouco tempo embarcam em seus jatinhos privados e estão nos melhores hospitais do Brasil.
A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
Nenhum cidadão razoável é contra cultura.
Nenhum cidadão razoável é contra eventos.
Festas fazem parte da vida coletiva das cidades.
Mas existe uma pergunta que a administração municipal precisa responder com clareza:
Por que há dinheiro abundante para espetáculo, mas escassez para atendimento médico? Responda prefeito...
Por que vereadores precisam transferir R$ 700 mil para salvar a saúde municipal, enquanto a prefeitura libera R$ 840 mil para um único show? Responda prefeito...
O PROBLEMA NÃO É O SHOW
É preciso repetir.
O problema não é a dupla sertaneja.
Zé Neto e Cristiano apenas fazem o trabalho deles.
O problema também não é o mercado musical, onde cachês elevados são normais para artistas populares.
O problema é outro.
É a decisão política de gastar esse dinheiro neste momento. Momento de colapso na saúde pública de nossa cidade.
UMA QUESTÃO DE ESCOLHA
Orçamento público é, acima de tudo, uma lista de escolhas.
Cada real investido em um setor deixa de ser investido em outro.
Quando um município decide gastar quase R$ 1 milhão em um show, ele está implicitamente dizendo:
isso é mais urgente do que outras necessidades.
E é exatamente aqui que a revolta nasce.
Porque para quem está:
esperando uma consulta
aguardando um exame
tentando conseguir um especialista
A prioridade parece invertida.
Poderíamos pagar a preço de hoje (R$ 52,50) com R$ 840.000,00 (valor do show) mais de 16.000 mil consultas médicas dessas filas intermináveis... e dolorosas para quem espera.
UMA CIDADE DIVIDIDA
De um lado:
palco
iluminação
multidão cantando
selfies e fogos de artifício para o povo
políticos postando fantasias em redes sociais
Do outro:
corredores de unidades de saúde
pacientes aguardando atendimento
exames represados
consultas que não chegam
falta de médicos especialistas
falta de neurologistas na cidade para casos de AVC
crianças, jovens, adultos e idosos em filas sem previsão de atendimento
AME - Inaugurada e fechada, até o momento sem nunhum atendimento
um hospital prometido para inaugurar final de julho/26 (inaugurar as paredes como a AME), funcionar em julho não irá...
É a imagem de duas cidades convivendo no mesmo espaço.
A cidade da festa.
E a cidade da fila.
A CONTA QUE A POPULAÇÃO PAGA
Nenhum desses recursos surge do nada.
O dinheiro que paga cachês milionários vem do bolso da população.
É o imposto do comerciante.
É o imposto do trabalhador.
É o imposto do agricultor.
É o imposto do aposentado.
Quando o poder público gasta, é a sociedade que paga a conta.
UMA PERGUNTA PARA A HISTÓRIA DE CIANORTE!
Quando as luzes do palco se apagarem e o festival terminar, uma pergunta continuará ecoando na cidade:
Vale a pena cantar por 80 minutos enquanto pacientes aguardam meses por atendimento médico?
Ou, em termos ainda mais diretos:
Que tipo de gestão chama isso de prioridade?
10 perguntas que o prefeito de Cianorte precisa responder
Por que a prefeitura decidiu autorizar um gasto de aproximadamente R$ 840 mil em um único show enquanto há filas prolongadas para consultas, exames e atendimento especializado na saúde pública municipal?
Quais critérios técnicos foram utilizados para definir que um investimento desse valor em entretenimento era prioridade neste momento administrativo da cidade?
A Secretaria Municipal de Saúde foi consultada antes da decisão de contratação do show para avaliar a situação das filas de atendimento e a necessidade de recursos adicionais para o setor?
Se a Câmara Municipal precisou destinar cerca de R$ 700 mil do próprio orçamento para reforçar os serviços de saúde, por que o Executivo não direcionou parte dos recursos do festival para reduzir a fila de exames e consultas?
Quantas consultas especializadas, exames diagnósticos ou cirurgias eletivas poderiam ser custeadas com os mesmos R$ 840 mil que serão pagos pela apresentação musical?
Existe algum estudo ou relatório da prefeitura que comprove que o retorno econômico do festival justifica o gasto público com cachês artísticos dessa magnitude? Se existe, ele será tornado público?
Qual é o custo total previsto para o Festival de Cianorte quando se somam estrutura, palco, segurança, iluminação, logística, divulgação e contratação de artistas?
Considerando as denúncias recentes sobre problemas no transporte escolar e nas condições da saúde pública, o senhor acredita que a população considera esse gasto com shows uma prioridade adequada neste momento?
A prefeitura pretende apresentar à população um plano concreto para reduzir as filas de consultas, exames e atendimento especializado na rede pública de saúde? Se sim, quando e com quais recursos?
Diante do contraste entre quase R$ 1 milhão para um show e a escassez de recursos em áreas essenciais, o senhor considera que essa decisão representa uma gestão verdadeiramente humanizada dos recursos públicos?
Aguardamos as repostas e iremos publicar para a população...

















Comentários