Quando o Prefeito Confunde o Município com a Própria Vontade
- Marcio Nolasco

- 26 de jun.
- 4 min de leitura
Por que alguns governantes passam a acreditar que são donos de suas cidades? Uma análise jurídica, filosófica e psicológica do poder.
Existe uma pergunta que acompanha a história da humanidade desde o surgimento das primeiras formas de governo: Por que algumas pessoas, ao chegarem ao poder, deixam de agir como administradores da coletividade e passam a comportar-se como proprietários do Estado?

Nos municípios brasileiros essa transformação é frequentemente perceptível.
Prefeitos eleitos democraticamente, cuja legitimidade deriva exclusivamente do voto popular, em determinadas circunstâncias passam a agir como se fossem titulares do próprio município. A máquina pública torna-se extensão de sua personalidade. A crítica é encarada como traição. A imprensa passa a ser vista como inimiga. Vereadores independentes tornam-se obstáculos. Servidores públicos são tratados como subordinados pessoais, e não como agentes do Estado.
A cidade deixa de ser um espaço republicano para converter-se, psicologicamente, em patrimônio emocional do governante.
Essa deformação não é apenas política. Ela possui raízes profundas na filosofia, na psicologia e no Direito Constitucional.
Platão já havia alertado sobre esse fenômeno
Muito antes da criação do Estado moderno, Platão compreendeu que o maior risco para qualquer governo não era apenas a corrupção financeira.
Era a corrupção da alma de quem governa.
Na obra A República, Platão afirma que governar exige uma virtude extremamente rara: dominar a si mesmo antes de tentar governar os outros.
O governante ideal não deseja o poder pelo prazer de exercê-lo. Pelo contrário, aceita governar por dever moral.
Quando alguém passa a amar excessivamente o poder, segundo Platão, ocorre uma inversão ética.
O poder deixa de ser instrumento.
Transforma-se em identidade.
Nesse momento nasce o governante que já não distingue entre:
o interesse público e seu interesse pessoal;
a instituição e sua imagem;
o município e seu mandato.
É exatamente aí que começa a ilusão da propriedade política.
O prefeito deixa de pensar:
"Estou administrando uma cidade."
E passa a acreditar:
"Esta cidade me pertence."
A psicologia explica o nascimento do "ego estatal"
A psicologia política denomina esse processo de identificação narcísica com o cargo.
O fenômeno é relativamente conhecido entre estudiosos do comportamento de líderes.
O indivíduo deixa de separar sua identidade pessoal da função institucional.
Seu cérebro passa a interpretar qualquer discordância como ataque pessoal.
Por isso alguns governantes reagem de maneira desproporcional a críticas legítimas.
Uma reportagem jornalística torna-se "perseguição".
Uma denúncia transforma-se em "ataque político".
Uma investigação converte-se em "afronta pessoal".
Na realidade, a crítica não é dirigida à pessoa física.
É dirigida ao exercício da função pública.
Mas o ego hipertrofiado já não consegue perceber essa diferença.
O narcisismo do poder
Diversos estudos em psicologia organizacional demonstram que o exercício contínuo da autoridade pode produzir um fenômeno chamado embriaguez do poder.
Quanto maior o isolamento do líder, maior sua tendência de acreditar que suas decisões são naturalmente corretas.
O problema se agrava quando o governante passa anos cercado por pessoas incapazes de discordar.
Forma-se uma bolha cognitiva.
Nela, todos elogiam.
Todos concordam.
Todos aplaudem.
A realidade desaparece.
Resta apenas a percepção construída pelo próprio círculo de poder.
O prefeito passa a acreditar que ele próprio representa a cidade.
O Direito Constitucional destrói essa ilusão
Do ponto de vista jurídico, essa percepção é absolutamente incompatível com o Estado Democrático de Direito.
A Constituição Federal é cristalina.
O administrador público não exerce poder próprio.
Exerce competência delegada pelo povo.
O artigo 1º da Constituição estabelece que todo poder emana do povo.
Não do prefeito.
Não do governador.
Não do presidente.
O agente político não é proprietário da Administração.
É seu gestor temporário.
O artigo 37 da Constituição reforça essa limitação ao impor os princípios da:
legalidade;
impessoalidade;
moralidade;
publicidade;
eficiência.
Esses princípios existem justamente para impedir que o Estado adquira personalidade privada.
Quando um prefeito utiliza a estrutura pública para promoção pessoal, para perseguir adversários ou para favorecer aliados, deixa de atuar segundo a lógica republicana.
Passa a confundir interesse público com vontade pessoal.
Essa é precisamente a antítese da República.
A diferença entre liderança e domínio
Há uma distinção fundamental.
O líder inspira.
O dominador controla.
O líder convence.
O dominador exige obediência.
O líder aceita fiscalização.
O dominador tenta eliminá-la.
É justamente por isso que a imprensa livre incomoda governantes autoritários.
Ela recorda diariamente que ninguém é dono da verdade.
Nem da cidade.
Nem do orçamento.
Nem da administração pública.
O papel da imprensa
A imprensa não existe para elogiar governos.
Existe para fiscalizá-los.
Esse papel decorre diretamente do princípio republicano.
Quando um jornalista investiga contratos públicos, obras, licitações ou gastos municipais, não está afrontando a autoridade.
Está exercendo um mecanismo constitucional de controle social.
Confundir fiscalização com perseguição constitui um dos primeiros sintomas do personalismo político.
Quanto maior a resistência à transparência, maior tende a ser o distanciamento entre o governante e os fundamentos da democracia.
O município não pertence ao prefeito
O prefeito administra um patrimônio que nunca será seu.
As ruas pertencem ao povo.
Os hospitais pertencem ao povo.
As escolas pertencem ao povo.
O orçamento pertence ao povo.
Os servidores servem ao Estado.
Jamais ao governante.
Quando esse limite desaparece, surge aquilo que a Ciência Política denomina patrimonialismo.
O patrimônio público passa a ser tratado como extensão da autoridade pessoal.
É justamente essa cultura que a Constituição de 1988 buscou superar.
A lição de Platão permanece atual
Platão ensinava que o pior governante não era necessariamente o mais incompetente.
Era aquele incapaz de perceber seus próprios limites.
O governante verdadeiramente virtuoso compreende que seu mandato possui prazo.
Sua autoridade possui limites.
Sua legitimidade possui origem.
Tudo vem do povo.
Tudo retorna ao povo.
Conclusão
Talvez a pergunta inicial devesse ser reformulada.
O problema não é por que alguns prefeitos acreditam ser donos de suas cidades.
A verdadeira questão é por que alguns esquecem tão rapidamente que nunca foram.
A democracia não elege proprietários.
Elege administradores temporários.
A República não admite senhores.
Admite servidores públicos investidos de autoridade limitada pela Constituição.
Quando um governante passa a confundir mandato com propriedade, autoridade com vaidade e liderança com culto à personalidade, não é apenas a política que adoece.
É a própria ideia de República que começa a ser corroída.
E é precisamente nesse momento que a sociedade, as instituições, o Ministério Público, os Tribunais de Contas, o Poder Judiciário, as Câmaras Municipais e a imprensa livre deixam de ser meros observadores para cumprir sua missão constitucional: recordar ao governante que o poder nunca lhe pertenceu.
Apenas lhe foi confiado, de forma transitória, para servir ao interesse coletivo — jamais ao seu próprio ego.



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