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Quando o Prefeito Confunde o Município com a Própria Vontade

Por que alguns governantes passam a acreditar que são donos de suas cidades? Uma análise jurídica, filosófica e psicológica do poder.


Existe uma pergunta que acompanha a história da humanidade desde o surgimento das primeiras formas de governo: Por que algumas pessoas, ao chegarem ao poder, deixam de agir como administradores da coletividade e passam a comportar-se como proprietários do Estado?



Nos municípios brasileiros essa transformação é frequentemente perceptível.


Prefeitos eleitos democraticamente, cuja legitimidade deriva exclusivamente do voto popular, em determinadas circunstâncias passam a agir como se fossem titulares do próprio município. A máquina pública torna-se extensão de sua personalidade. A crítica é encarada como traição. A imprensa passa a ser vista como inimiga. Vereadores independentes tornam-se obstáculos. Servidores públicos são tratados como subordinados pessoais, e não como agentes do Estado.


A cidade deixa de ser um espaço republicano para converter-se, psicologicamente, em patrimônio emocional do governante.


Essa deformação não é apenas política. Ela possui raízes profundas na filosofia, na psicologia e no Direito Constitucional.


Platão já havia alertado sobre esse fenômeno


Muito antes da criação do Estado moderno, Platão compreendeu que o maior risco para qualquer governo não era apenas a corrupção financeira.


Era a corrupção da alma de quem governa.


Na obra A República, Platão afirma que governar exige uma virtude extremamente rara: dominar a si mesmo antes de tentar governar os outros.


O governante ideal não deseja o poder pelo prazer de exercê-lo. Pelo contrário, aceita governar por dever moral.


Quando alguém passa a amar excessivamente o poder, segundo Platão, ocorre uma inversão ética.


O poder deixa de ser instrumento.


Transforma-se em identidade.


Nesse momento nasce o governante que já não distingue entre:


  • o interesse público e seu interesse pessoal;

  • a instituição e sua imagem;

  • o município e seu mandato.


É exatamente aí que começa a ilusão da propriedade política.


O prefeito deixa de pensar:


"Estou administrando uma cidade."


E passa a acreditar:


"Esta cidade me pertence."


A psicologia explica o nascimento do "ego estatal"


A psicologia política denomina esse processo de identificação narcísica com o cargo.


O fenômeno é relativamente conhecido entre estudiosos do comportamento de líderes.


O indivíduo deixa de separar sua identidade pessoal da função institucional.


Seu cérebro passa a interpretar qualquer discordância como ataque pessoal.


Por isso alguns governantes reagem de maneira desproporcional a críticas legítimas.


  • Uma reportagem jornalística torna-se "perseguição".

  • Uma denúncia transforma-se em "ataque político".

  • Uma investigação converte-se em "afronta pessoal".


Na realidade, a crítica não é dirigida à pessoa física.


É dirigida ao exercício da função pública.


Mas o ego hipertrofiado já não consegue perceber essa diferença.


O narcisismo do poder


Diversos estudos em psicologia organizacional demonstram que o exercício contínuo da autoridade pode produzir um fenômeno chamado embriaguez do poder.


Quanto maior o isolamento do líder, maior sua tendência de acreditar que suas decisões são naturalmente corretas.


O problema se agrava quando o governante passa anos cercado por pessoas incapazes de discordar.


Forma-se uma bolha cognitiva.


Nela, todos elogiam.


Todos concordam.


Todos aplaudem.


A realidade desaparece.


Resta apenas a percepção construída pelo próprio círculo de poder.


O prefeito passa a acreditar que ele próprio representa a cidade.


O Direito Constitucional destrói essa ilusão


Do ponto de vista jurídico, essa percepção é absolutamente incompatível com o Estado Democrático de Direito.


A Constituição Federal é cristalina.


O administrador público não exerce poder próprio.


Exerce competência delegada pelo povo.


O artigo 1º da Constituição estabelece que todo poder emana do povo.


  • Não do prefeito.

  • Não do governador.

  • Não do presidente.


O agente político não é proprietário da Administração.


É seu gestor temporário.


O artigo 37 da Constituição reforça essa limitação ao impor os princípios da:


  • legalidade;

  • impessoalidade;

  • moralidade;

  • publicidade;

  • eficiência.


Esses princípios existem justamente para impedir que o Estado adquira personalidade privada.


Quando um prefeito utiliza a estrutura pública para promoção pessoal, para perseguir adversários ou para favorecer aliados, deixa de atuar segundo a lógica republicana.


Passa a confundir interesse público com vontade pessoal.


Essa é precisamente a antítese da República.


A diferença entre liderança e domínio


Há uma distinção fundamental.


  • O líder inspira.

  • O dominador controla.

  • O líder convence.

  • O dominador exige obediência.

  • O líder aceita fiscalização.

  • O dominador tenta eliminá-la.


É justamente por isso que a imprensa livre incomoda governantes autoritários.

Ela recorda diariamente que ninguém é dono da verdade.


  • Nem da cidade.

  • Nem do orçamento.

  • Nem da administração pública.


O papel da imprensa


A imprensa não existe para elogiar governos.


Existe para fiscalizá-los.


Esse papel decorre diretamente do princípio republicano.


Quando um jornalista investiga contratos públicos, obras, licitações ou gastos municipais, não está afrontando a autoridade.


Está exercendo um mecanismo constitucional de controle social.


Confundir fiscalização com perseguição constitui um dos primeiros sintomas do personalismo político.


Quanto maior a resistência à transparência, maior tende a ser o distanciamento entre o governante e os fundamentos da democracia.


O município não pertence ao prefeito


O prefeito administra um patrimônio que nunca será seu.


  • As ruas pertencem ao povo.

  • Os hospitais pertencem ao povo.

  • As escolas pertencem ao povo.

  • O orçamento pertence ao povo.

  • Os servidores servem ao Estado.

  • Jamais ao governante.


Quando esse limite desaparece, surge aquilo que a Ciência Política denomina patrimonialismo.


O patrimônio público passa a ser tratado como extensão da autoridade pessoal.


É justamente essa cultura que a Constituição de 1988 buscou superar.


A lição de Platão permanece atual


Platão ensinava que o pior governante não era necessariamente o mais incompetente.


Era aquele incapaz de perceber seus próprios limites.


O governante verdadeiramente virtuoso compreende que seu mandato possui prazo.


  • Sua autoridade possui limites.

  • Sua legitimidade possui origem.

  • Tudo vem do povo.

  • Tudo retorna ao povo.


Conclusão


Talvez a pergunta inicial devesse ser reformulada.


O problema não é por que alguns prefeitos acreditam ser donos de suas cidades.


A verdadeira questão é por que alguns esquecem tão rapidamente que nunca foram.


  • A democracia não elege proprietários.

  • Elege administradores temporários.

  • A República não admite senhores.


Admite servidores públicos investidos de autoridade limitada pela Constituição.


Quando um governante passa a confundir mandato com propriedade, autoridade com vaidade e liderança com culto à personalidade, não é apenas a política que adoece.


É a própria ideia de República que começa a ser corroída.


E é precisamente nesse momento que a sociedade, as instituições, o Ministério Público, os Tribunais de Contas, o Poder Judiciário, as Câmaras Municipais e a imprensa livre deixam de ser meros observadores para cumprir sua missão constitucional: recordar ao governante que o poder nunca lhe pertenceu.


Apenas lhe foi confiado, de forma transitória, para servir ao interesse coletivo — jamais ao seu próprio ego.

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