O Peso da Tornozeleira e o Ocaso da Liturgia: A Renúncia como Imperativo Ético e Estratégico
- Marcio Nolasco

- 3 de mai.
- 2 min de leitura
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
A política, em sua essência mais nobre, é o exercício da representação fundamentado na confiança e na autoridade moral. No entanto, o que se observa que poderá acontecer atualmente na Câmara Municipal de Cianorte é uma afronta direta a esses princípios.
A manutenção de Victor Hugo Davanço na presidência da Casa, conduzindo sessões sob o monitoramento de uma tornozeleira eletrônica, não será apenas um detalhe processual; seria um símbolo de degradação institucional que a sociedade cianortense não pode — e não deve — aceitar. E para quem acredita na inocência de Davanço, deve também entender que para ele a melhor opção é a renuncia de seu mandato.

O direito à ampla defesa é um pilar do Estado Democrático de Direito, e o processo legal seguirá seu curso. Todavia, a liturgia do cargo de Presidente da Câmara exige uma conduta que esteja acima de qualquer suspeita paralisante. Ao presidir o Poder Legislativo ostentando um acessório de vigilância penal, o vereador transforma o plenário, que deveria ser o templo da lei, em um cenário de constrangimento público. A imagem da Câmara não se desgasta apenas; ela se estilhaça perante os olhos dos cidadãos e dos pares que, por unanimidade, já sinalizaram a gravidade da situação ao abrir o processo de cassação.
Como já enfatizado em análises anteriores do Portal Bisbilhoteiro, a permanência de Davanço no comando administrativo da Casa tornou-se insustentável. Para além do campo moral, há um cálculo de sobrevivência que o parlamentar parece ignorar: a renúncia imediata preserva seus direitos políticos, permitindo-lhe disputar futuras eleições após resolver suas pendências judiciais. Em contrapartida, insistir no erro e aguardar o desfecho inevitável da cassação — já pavimentada pela votação unânime da Casa — resultará na perda do mandato e em uma inelegibilidade fulminante de oito anos.
A unanimidade na abertura do processo de cassação é o veredito político precoce: não há mais base de sustentação ética para que o atual presidente dite o ritmo dos trabalhos legislativos. Manter-se no posto nessas condições é subjugar o interesse público ao interesse pessoal, configurando uma inversão perversa de valores que arrasta toda a Câmara para o abismo reputacional.
A Câmara de Cianorte precisa de altivez para legislar e fiscalizar. Com a sombra do monitoramento eletrônico pairando sobre o martelo da presidência, a Casa perde sua voz e sua autoridade. Se resta ainda algum compromisso com a dignidade do mandato recebido e com o próprio futuro político, a renúncia é o único caminho racional. A sociedade exige respostas, mas, acima de tudo, exige o respeito que a uma possível e atual cena de uma presidência monitorada por tornozeleira lhe retirará diariamente.
















