top of page
572954291_18300745243267772_2025636869234957554_n.jpg

O balcão do seu Antônio

ou de como a solidão tem medo de mercadinho


Ninguém sabe dizer quando o mercadinho apareceu ali. Os moradores mais velhos juram que ele já existia quando chegaram, e os que vieram antes dizem a mesma coisa. É como se a rua tivesse sido construída ao redor dele, como cresce mato perto de água. Há cidades no interior do Brasil em que se pode demolir a prefeitura e ninguém nota até segunda-feira, mas se o mercadinho fechar por um dia, o quarteirão sente uma vertigem de orfandade, como se o chão tivesse mudado de lugar.



O toldo amadureceu com o sol até alcançar uma cor que não existe em cartela de tinta nenhuma, entre o terracota e a ferrugem. Na porta, uma placa escrita à mão anuncia a oferta do dia com a caligrafia de quem nunca desperdiçou a letra bonita que aprendeu na escola. No canto, a geladeira de refrigerante geme desde 1994. Ninguém teve coragem de aposentá-la.


E antes de enxergar qualquer coisa, o corpo já sabe que chegou: o cheiro do mercadinho não se vende em nenhum lugar. É o café torrado subindo do bule de alumínio e tomando conta da manhã, o pão ainda morno na cesta de vime, o doce escondido da goiabada em lata, e, por baixo de tudo, o cheiro limpo do chão de cerâmica vermelha, lavado de véspera, que os pés reconhecem antes da memória. Quem sentiu uma vez, nunca mais desaprende.


Atrás do balcão, reinando sobre tudo com a naturalidade de quem não precisou ser eleito, está o dono. Vou chamá-lo de seu Antônio, porque todo mercadinho tem um: pode ser seu Geraldo, dona Fátima, dona Cida. Faz trinta anos que ele abre a porta às seis e meia, com o café já passado e o pão encomendado, e faz trinta anos que o bairro acorda um pouco por causa disso, como quem confere se o sol nasceu.


O batismo do lugar também muda conforme o mapa: no Rio é boteco ou botequim, em Minas é venda, vendinha, no sertão é bodega, no Sul é bolicho, e a cidade grande diz mercearia, diz mercadinho, diz simplesmente o bar. Nas placas mais antigas, desbotando desde o século passado, sobrevive o nome mais bonito que o comércio brasileiro já inventou: secos e molhados, a vida resumida em duas prateleiras.


A manhã é uma procissão que ele conhece de cor. A dona Neusa chega de chinelo batendo no chão, ainda de bobe no cabelo, e busca o pão antes das sete porque o marido pega o ônibus das sete e dez. Lá pelas nove chega o menino da dona Rosa, camisa do time desbotada, com o bilhete dobrado na mão. Seu Antônio lê o bilhete, separa as compras, devolve o troco contado e acrescenta, por conta da casa, uma bala de leite. É o imposto invertido do mercadinho: quem tem menos, recebe mais.


“Anota aí, seu Antônio, que semana que vem eu acerto.” Ele já sabe que não vai acertar. Anota assim mesmo, sem erguer os olhos do caderno, e responde com a única frase que trinta anos de balcão ensinam: “Pode deixar, sem pressa.” Tem freguês pagando amanhã desde 1998. No calendário do mercadinho, amanhã é o único dia que não existe, e está tudo certo.


O caderninho espiral, guardado na gaveta debaixo do balcão, é a instituição financeira mais antiga do Brasil: sem contrato, sem juros, sem score. A garantia é o olho. E há páginas ali que ele nunca vai cobrar, dívidas que deixou morrer de velhice porque o filho do devedor precisava de leite, e a dignidade de uma mãe não precisa de mais um não.


Mas é nas tardes vazias que o mercadinho revela para que veio. Terça-feira, três da tarde, o calor grudando a camisa nas costas, o tempo andando descalço. Seu Antônio arruma prateleira sem necessidade, porque arrumar prateleira é o que se faz quando não se tem com quem conversar. Entra um senhor de chapéu, que compra um litro de leite que não precisa, só para ter motivo de sair de casa.


“E aí, seu Joaquim, aguentando esse calor?” “Aguentando, seu Antônio. Esse tomate aí tá quanto?” Os tomates, maduros demais, quase estourando na caixa de plástico, cheiram a horta e a fim de tarde. “Tá um assalto. Mas leva, que essa semana eu faço um preço pro senhor.” Não há preço nenhum. Os dois sabem. É pouco? Pergunte a quem mora sozinho.


Nelson Rodrigues, que entendia de esquinas e de gente, publicou no Última Hora quase duas mil crônicas sobre o cotidiano do Rio, sob o título A Vida Como Ela É... O Rio parava para ler: havia quem lesse o jornal por cima do ombro alheio, que é a forma mais sincera de elogio que um texto pode receber. Da escavação diária, ele extraiu a lição que nenhuma cátedra formulou antes: a vida de verdade mora no miúdo, no repetido, no que ninguém enxerga. Chamou isso de óbvio ululante. O mercadinho é o óbvio ululante da rua brasileira: aberto desde sempre na frente de todos, à espera de alguém que o note.


Na sexta à noite, o mercadinho vira boteco puro, e qualquer brasileiro sabe a diferença: de dia vende leite, à noite vende companhia. As mesinhas de fórmica saem para a calçada. Aparece um dominó, e as pedras batem na mesa com aquele estalo seco que anuncia bulha e vitória. Um violão surge encostado na parede, ninguém sabe de quem, e lá pelas dez alguém belisca um choro, um samba antigo, desses que todo mundo sabe de cor sem lembrar onde aprendeu. A cerveja desce devagar, porque sexta não tem pressa.


E há sempre uma hora da noite em que alguém olha para a cadeira vazia. A do seu Zeca, que sentava ali toda sexta durante vinte anos e não senta mais. Aí o violão muda de tom sozinho, como se soubesse, e a mesa canta baixinho Naquela Mesa, de Sérgio Bittencourt, na voz eterna de Nelson Gonçalves. Sérgio a escreveu para o pai, Jacob do Bandolim, quando a mesa dele ficou vazia, e por isso todo boteco do Brasil a canta como se fosse sua: porque é. Cada um ali está cantando para um nome próprio que não diz.


A canção termina, ninguém emenda outra. Homem de boteco chora para dentro, mas o copo sobe um pouco mais alto nessa rodada, na direção da cadeira, e por um instante o seu Zeca senta de novo. O mercadinho, nessas horas, deixa de vender qualquer coisa. Vira velório sem caixão, e oferece o único remédio que a falta aceita: companhia para senti-la em bando, que dói menos do que senti-la sozinho.


Um sociólogo americano, Ray Oldenburg, deu nome a isso: terceiro lugar. Em casa somos família, no trabalho somos função, e só no terceiro lugar alguém pode simplesmente ser, sem precisar fazer nada para merecer a cadeira.


Hemingway escreveu um conto exato sobre isso, Um Lugar Limpo e Iluminado: um velho que se demora no café depois da hora, um garçom moço com pressa de fechar e um garçom velho que entende. É do garçom velho a frase que todo seu Antônio do mundo assinaria: “cada noite reluto em fechar, porque pode haver alguém precisando do café”.


A solidão urbana, essa epidemia que os sociólogos medem e os governos ignoram, tem uma fraqueza que nenhum gabinete descobriu: ela tem medo de balcão. Tem medo de gente que sabe o nome. Tem medo de lugar onde se pode chegar sem avisar, ficar sem justificar e sair sem explicar. O mercadinho não cura a solidão. Mas interrompe. E às vezes, interromper é tudo o que a solidão precisa para perder a força, como um soluço que para quando alguém assusta.


Todo mundo carrega um mercadinho na memória. Feche os olhos e ele volta inteiro: o cheiro que não se vende em lugar nenhum, o pote de pirulito no balcão, a voz que sabia o seu nome antes de você aprender a escrevê-lo. Passam os anos, mudam os endereços, e a lembrança fica, porque foi guardada no corpo, no mesmo lugar onde moram o gosto da bala de leite e o estalo das pedras de dominó. A memória afetiva é o único estoque que não vence.


Seu Antônio vai fechar a porta lá pelas nove. Vai contar o caixa, errar a conta, recontar. Vai guardar o caderninho na gaveta, apagar a luz, e a rua inteira vai dormir mais tranquila sem saber por quê. Amanhã, às seis e meia, ele abre de novo.


O primeiro cliente vai entrar e dizer “bom dia, seu Antônio”, ele vai responder “bom dia”, e nesse bom dia trocado sem cerimônia estará contido tudo o que esta crônica tentou dizer e não conseguiu dizer inteiro: que o remédio para a maior parte do que nos falta não é grande nem caro. É um balcão, um nome lembrado, uma cerveja que chega antes do pedido. E fica, no bolso de quem leu, uma pergunta simples: em que balcão, na sua rua, ainda sabem o seu nome?

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Acompanhe nossas notícias no Google News

images (3).png
Canal 2.png

Nota do editor: os textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nos espaços “colunas” não refletem necessariamente o pensamento do bisbilhoteiro.com.br, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

* As matérias e artigos aqui postados não refletem necessariamente a opinião deste veículo de notícias. Sendo de responsabilidade exclusiva de seus autores. 

Portal Bisbilhoteiro Cianorte
Selo qualidade portal bisbilhoteiro

Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

Bisbi Notícias: Rua Constituição 318, Zona 1 - Cianorte PR - (44) 99721 1092

© 2020 - 2026 por bisbinoticias.com.br - Todos os direitos reservados. Site afiliado do Portal Universo Online UOL

 Este Site de é protegido por Direitos Autorais, sendo vedada a reprodução, distribuição ou comercialização de qualquer material ou conteúdo dele obtido, sem a prévia e expressa autorização de seus  criadores e ou colunistas.

bottom of page