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Novembro de Eça e São Martinho: um regozijo com palavras, castanhas e bom vinho

Por: Mirian Abreu - Colunista BNews - Portugal


E novembro chegou. Traz histórias, memórias e sabores. É final do outono no hemisfério norte e final da primavera no hemisfério sul. Foi um longínquo novembro que nos trouxe Eça de Queiroz e levou São Martinho de Tours.


Eça de Queiroz nasceu em 25 de Novembro de 1845 na charmosa cidade litorânea Póvoa de Varzim, situada na região Norte de Portugal, no distrito do Porto. É no contexto do século XIX que habita toda sua vida e obras, incluindo os enredos das publicações póstumas.

O estilo literário de Eça é como uma viagem que nos leva adentrar por espaços tão bem descritos, em que a realidade e a ficção por vezes se confundem. Ele utiliza da Arte, em especial da Arte Culinária, e de arranjos próprios. Tal e qual a um “Chef de Cuisine”, consegue harmonizar e dar gosto às palavras ao ponto de podermos saboreá-las! A ementa é abundante: Os Maias, O primo Basílio, A cidade e as Serras, O crime do Padre Amaro , O mistério da estrada de Sintra… e tantas mais. Há também o outro lado de Eça, não menos realista, como crítico social, que é “voraz” e assertivo no ataque a sociedade da época. É através dessa semelhança com o real que os leitores se identificavam com os personagens e com o contexto descrito. Para Eça, haviam três “ingredientes” indispensáveis no seu processo criativo: a verdade, a justiça e a beleza. Puro deleite!

São Martinho foi um soldado romano. Teve o privilégio de viajar por todo o Império Romano do Ocidente, conhecendo toda sua imponência, mas também suas misérias.


Talvez tenha sido esta a razão de ter abandonado o exército e seguido pelos caminhos do Cristianismo. Foi discípulo de Santo Hilário e, mais tarde, foi ordenado bispo de Tours. A sua biografia o descreve como homem empreendedor que, por onde passou, levou a caridade como princípio e o conhecimento como base da educação dos jovens. Fundou e construiu escolas, igrejas e mosteiros.


São Martinho ficou conhecido por muitos “milagres”, entre eles há a história de que, num dia chuvoso e frio de novembro, quando de regresso para casa, encontrou um mendigo que jazia na beira da estrada, quase a sucumbir pelo frio. São Martinho, então de cima do seu cavalo, corta seu manto ao meio e, com uma parte, cobre o homem que ali perecia. Feito isso, como por mando divino, a chuva cessa e o céu se abre, deixando o sol raiar e seu calor aquecer quem dele carecia. E foi assim durante 3 dias, comparável aos dias de verão.


Em alguns dias de novembro é comum ocorrer aqui na Europa, a elevação das temperaturas, o que dá a sensação de um verão fora de época. Por conta da similaridade com a lenda relatada, este fenómeno foi “batizado” de Verão de São Martinho. No entanto, São Martinho nunca esteve no hemisfério sul, especialmente no espaço geográfico hoje identificado como Brasil, e onde também ocorre um fenômeno semelhante no outono de lá, precisamente no mês de maio, em que há dias quentes iguais ao verão e que deram origem ao termo “Veranico de Maio”.


Mas, porém, todavia… se o Verão de São Martinho é milagre ou não, “quem crê há de saber! O importante é que virou tradição, trazendo festa e alegria a quem queira aproveitar.

O dia 11 de novembro ficou marcado como o dia de São Martinho, dia em que ele foi sepultado no ano de 397 d.C. . Esse dia é lembrado em toda Europa, cada qual a sua maneira: Em Portugal, com seu Magusto, uma festa popular, onde se comem castanhas assadas, bebe-se jeropiga, água-pé e se faz a prova do vinho novo.

Em Espanha, é o dia que inicia a matança de porcos, um ritual que se prolonga até meados do Janeiro. Na Alemanha atual, as fogueiras foram substituídas por lanternas chamadas Martins-Zuge, que são usadas nas procissões. À noite, crianças saem com as lanternas acesas, entoando cantos tradicionais e pedindo doces e iguarias, enquanto os adultos inebriam-se com o tradicional vinho quente, o Gluhwein.


E também, por toda Itália, é a época onde os produtores experimentam o vino novello (vinho novo) e se deliciam com as panquecas de São Martinho (zeppole or frittelle di San Martino).


Eça de Queiroz e São Martinho não são contemporâneos, como bem se pode notar. Eça, como escritor, foi um aprazível “gourmet” de palavras e um observador insaciável de pessoas, sobretudo de suas personas. São Martinho, como monge, foi um soldado de” homens e almas” e um protetor incansável de pessoas, sobretudo de suas fragilidades.

Nesse sentido, ao descortinar os feitos de um e de outro, percebo um ponto em comum na essência de ambos. Ou seja, tanto Eça como São Martinho caracterizam-se pela compaixão, pela alteridade, e estão atentos às pessoas, como e onde vivem. Nota-se, em ambos, uma preocupação com a “vida alheia” no sentido humanista de existir.


Muitas outras similaridades poderão ser encontradas entre São Martinho e Eça de Queiroz, mas é fim de tarde e um delicioso aroma de castanhas assadas está a perfumar o ar. Sinto -me totalmente seduzida e levada a fazer uma digressão por este outro roteiro…




Vídeo: Novembro em São Martinho


Bem se sabe que o novembro de São Martinho não é só de Portugal, porém o novembro de Eça de Queiroz é luso de norte a sul e de leste a oeste. O Magusto é português; o vinho é português; e as castanhas? Claro, são portuguesas com certeza!


Há castanhas assadas em outros lugares, por exemplo em Espanha, mas não têm o belo aspecto e sabor como as daqui de Portugal. É o modo de fazer? Sim, mas não só. É também o modo de encantar. Porque o povo português tem esse dom. Eça de Queiroz é a prova literal disto!


Há nas obras de Eça algumas citações da castanha portuguesa, mas a referência que mais me chamou a atenção foi no romance A Cidade e as Serras, onde faz menção às castanhas geladas. Castanhas geladas? Pois sim, se as quentinhas castanhas assadas fazem o inverno tradicional, então as “geladas castanhas” de Eça podem também ser saboreadas no Verão de Martinho. Assim, tudo se harmoniza, tanto no hemisfério norte como também no hemisfério sul, onde agora já faz calor e é quase Verão!


Nessa altura, o cheiro das castanhas faz com que minha fome se junte à vontade de comer, e para resolver isto nada é mais proactivo do que por às vistas o mapa da mina, com as receitas destas delicias. Seguem então, nos links abaixo, as receita das Castanhas Assadas à moda portuguesa e a receita das Castanhas Geladas à Eça de Queiroz. A referência a Eça é uma criação minha, penso que é uma saborosa homenagem a quem tanto nos delicia com sua arte.








 
 
 

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